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Camisa de Pelé guardada há 54 anos vai a leilão para ajudar esposa de ex-zagueiro contra Alzheimer 

Um item raro de Pelé vai a leilão dia 14 de junho. Uma camisa branca do Santos, manga comprida, sem as estrelas do bicampeonato mundial, número 10, do jogo contra o Bangu, em 25 de setembro de 1968, no Pacaembu, pelo Torneio Roberto Gomes Pedrosa. Aquele foi o ano do último título nacional do Rei do Futebol. O que torna a peça relevante não é apenas sua raridade, mas a história que ela carrega e os quase 55 anos em que ficou guardada com a família de Lincoln Dias Alves.

Hoje um senhor de 79 anos, ele foi um zagueiro conhecido em Minas Gerais e Goiás, com passagens por equipes como Atlético, América e Vila Nova, mas viveu o momento mais sublime da carreira pelo Bangu. Foi quando ficou diante de Pelé pela primeira vez.

“Naquele dia, o Castor de Andrade [patrono do Bangu] nos reuniu e disse: ‘Se o Pelé acabar com o jogo ninguém vai falar nada. É normal. Se você fizer um bom jogo e anular o Pelé, todo mundo ficará sabendo e todo mundo vai falar de você”, disse Lincoln à reportagem.

Foi o que aconteceu. O zagueiro dividiu a tarefa com Luís Alberto e conseguiu anular Pelé. Nem assistência o camisa 10 deu. Toninho Guerreiro abriu o placar de cabeça após cruzamento de Carlos Alberto Torres. Milton, que anos depois defenderia o Palmeiras, empatou.

No dia seguinte ao jogo, o jornal “O Estado de S. Paulo” elogiou a atuação da defesa banguense. Com a manchete “Na defesa, Bangu empata”, a reportagem destacou um “esquema defensivo que anulou totalmente o ataque santista” e uma defesa “que o Santos não soube superar”.

O jornal também noticiou que Pelé deixou o campo irritado com um torcedor, que o vaiou e o ofendeu após o apito final. O camisa 10 até correu atrás do torcedor e foi contido por Oberdan.

“[O zagueiro] Foi atrás do torcedor que vaiou Pelé e o obrigou o a pedir desculpas. Pelé aceitou cabisbaixo, acabou caindo em si”, descreve trecho da reportagem do Estadão.

Outros jornais, como a “Folha de S.Paulo” e “A Tribuna”, também enalteceram os homens de defesa do Bangu, que conseguiram parar não apenas Pelé, mas craques como Carlos Alberto Torres, Clodoaldo e Edu. Os quatro seriam campeões da Copa do Mundo em 1970.

Aquele foi apenas o sexto jogo de Lincoln pelo Bangu. Fazia dois meses que ele estava no time e ainda não era o titular absoluto, apesar de ter sido contratado com aval de Castor de Andrade.

“O Bangu foi convidado para o lançamento da pedra fundamental do Serra Dourada [em janeiro]. Eu jogava pelo Vila Nova, e montaram uma seleção goiana. Eu atuei bem, e o Castor de Andrade mandou me contratar. Fiz minha estreia no Robertão conta a Portuguesa de Leivinha, Ivair. Depois teve Bangu e Santos, à noite, no Pacaembu. Eu me lembro que o estádio tinha uma pista de brita em volta do campo, estava muito frio e chovendo fininho. Por isso os jogadores do Santos usaram camisas de manga compridas. Fizemos uma partida inesquecível, que ficou marcada para o Bangu. A gente podia ter ganho. No final tivemos duas oportunidades de vencer”, disse Lincoln.

“Tive a felicidade de marcar o Pelé, e, poxa, meu pai [Oswaldo] também foi jogador e tinha alucinação pelo Pelé. Ainda no transcorrer do jogo Pelé me elogiou por eu não fazer uso do meu porte físico. Eu tenho 2 metros e 4 de altura, mas sempre fui muito limpo. Os adversários não acreditavam pelo meu tamanho, mas eu usava a cabeça. Era um quarto zagueiro que saía muito pro jogo. Naquele dia, a gente ficava olhando o Pelé quando ele dominava a bola e ficava extasiado. Fiz a marcação em cima, mas não cheguei nenhuma vez duro. Ele me elogiou publicamente, dizendo que o Brasil precisava de zagueiros fortes e altos para enfrentar os europeus. Isso quase me rendeu uma convocação à seleção no final de 1968. Depois do jogo, eu pedi a camisa dele de presente para meu pai. Ele foi gentil e me deu”.

O pai do zagueiro acompanhou o jogo pelo rádio, mas nem imaginava que ganharia algo.

“Fui de avião do Rio para Belo Horizonte. Quando entreguei a camisa para o meu pai, ele chorou muito. Ele foi um grande jogador do futebol mineiro, um quarto zagueiro muito elogiado, campeão pelo Siderúrgica. O apelido dele era Oswaldo Boi. Fazia lançamentos, saía jogando”, disse.

Em nome do amor

A camisa ficou guardada por 54 anos na casa do pai de Lincoln em Barão do Cocais, cidade de pouco mais de 30 mil habitantes, no entorno da região metropolitana de Belo Horizonte.

Na família de dez filhos, dos quais cinco foram homens e todos jogaram profissionalmente --o mais famoso deles foi Geraldo Cleofas, o Geraldo Assobiador, que jogou com Zico no Flamengo e morreu tragicamente em 1976--, nunca faltou camisa de futebol para a coleção particular de seu Oswaldo.

A que foi presente de Pelé é certamente a mais nobre. Mesmo depois da morte de Oswaldo há 25 anos, a camisa continuou bem guardada até que um motivo familiar fez Lincoln decidir vender.

Há cerca de três anos a esposa dele, Adir Aparecida Pena Alves, foi diagnosticada com Alzheimer. Desde então ela iniciou o tratamento, que tentar frear a doença e dar qualidade de vida ao paciente.

“Dia 26 de dezembro vamos completar 50 anos de casado. Nada do que eu faço é o mínimo. Se fosse o inverso, ela faria por mim também. É uma companheira que eu fico cuidando 24 horas. Quando preciso fazer alguma coisa fora pra sobreviver, eu coloco uma cuidadora. Mesmo perto dos 80 anos, eu trabalho muito com captação de áreas de plantio de eucalipto e implantação de mineração em Barão de Cocais, Santa Bárbara. Trabalho pelo telefone”, disse Lincoln.

Ele também é músico. Toca percussão e canta no Bar do Cacá, no bairro de Aparecida, às sextas e aos domingos à noite. O cachê que consegue se soma ao salário como aposentado e reforça o orçamento.

Independentemente das apresentações públicas, todos os dias ele Lincoln faz questão de mostrar o repertório musical para a esposa. Interpreta Chico Buarque, Caetano Veloso, Roberto Carlos, entre outros. Ele também reza cem "Salve-Rainha" todas as manhãs, com muita fé por um milagre.

“Ela vai fazer 83 anos em breve e faz quase um ano que ela ficou de cama e não consegue se levantar mais. Eu cuido de tudo. Dou banho, alimentação, medicação. Sou um cuidador de alto nível. Aprendi na necessidade. Adaptei nosso quarto para ser quase uma enfermaria. Tenho minha cama, e ela está numa cama hospitalar ao lado. Mas a situação apertou porque descobri que preciso fazer uma cirurgia na cabeça. Serão no mínimo três meses de recuperação. As despesas em casa vão triplicar. Vou precisar de ajuda para contratar um cuidador permanente, por exemplo”, disse.

A camisa dada por Pelé virou a solução para esse momento turbulento.

Lincoln imaginou que o valor obtido com o leilão aliviaria as contas por um ano. Mas, antes de decidir vender a peça, ele pediu permissão ao pai e ao Rei durante um sonho especial.

“Foi algo incrível. Meu pai e o Rei apareceram para mim. Eu pedi licença para usar essa camisa para uma necessidade de saúde da minha esposa. Senti que eles apoiaram a minha decisão. Mesmo assim pedi licença para me desfazer de um presente que tanta alegria nos deu”, disse.

O leilão será aberto para lances em 12 de junho. O vencedor será conhecido em 14 de junho após as 15h (de Brasília). Tudo será feito virtualmente pelo site Leilão do Esporte (veja aqui). O lance inicial está fixado em R$ 90 mil. A expectativa de todos é atrair o interesse de colecionadores.

“Se der certo, será um alívio e a possibilidade de dar mais qualidade ao tratamento da minha esposa. Essa camisa que durante quase 55 anos nos deu alegria agora pode nos salvar de outra forma. Então, não tenho tristeza em vendê-la. Apenas agradeço tudo que ela nos proporcionou”, disse Lincoln.

Tragédia em família

O encontro com Pelé em 25 de setembro de 1968 foi o primeiro, mas não o único para Lincoln. Em um momento sensível para a família o Rei do Futebol também foi presente.

Foi após a morte de Geraldo, irmão mais novo de Lincoln, que faleceu aos 22 anos, em 26 de agosto de 1976, ao sofrer um choque anafilático causado pela anestesia numa cirurgia de amígdalas.

“Eu fico sensibilizado com essa história porque na véspera da cirurgia ele me ligou e falou: ‘Tenho que fazer a cirurgia porque estão me pressionando. Estão me forçando. O que você acha?’. A gente chamava ele de Gera. Eu disse: ‘Faz, Gera. É um procedimento rápido. Você faz hoje e amanhã mesmo você já estará livre e apto a treinar’. Infelizmente, não foi assim”, disse Lincoln.

A morte causou grande comoção. Primeiramente entre os familiares. Além de Lincoln, os irmãos Washington (pai do zagueiro Bruno Alves), Júlio César e Wilson eram jogadores profissionais.

Inclusive, foi Washington quem levou Geraldo para as categorias de base do Flamengo. Em pouco tempo, o garoto assobiador (que acabou virando também seu apelido no meio do futebol) foi promovido aos profissionais por ser um meio-campista bastante talentoso e inteligente.

Pelé ajudou a família a organizar o amistoso em homenagem a Geraldo. O encontro reuniu o Flamengo de Zico e a seleção brasileira com a base do título mundial no México, como o Rei do Futebol, Félix, Carlos Alberto Torres, Piazza, Clodoaldo, Rivellino, Jairzinho, entre outros.

Mais de 142 mil pessoas foram ao Maracanã naquele 6 de outubro para ver o Flamengo vencer por 2 a 0. A renda foi de Cr$ 2,3 milhões, e o valor total foi destinado à família.

“Pelé estava jogando pelo Cosmos nos Estados Unidos, mas falou que entraria em campo. Veio ao Brasil para jogar. Inclusive, foi uma exigência dele que a renda fosse anunciada no placar eletrônico para assegurar que aquele valor realmente viesse para ajudar nossa família e não fosse desviado ou reduzido como ocorreu no jogo de despedida do Garrincha anos antes”, disse Lincoln.

O ex-zagueiro é muito grato ao Rei do Futebol e sentiu muito a morte dele, aos 82 anos.

“Aquela camisa que ele me deu foi um presente que alegrou e muito meu pai. Guardamos com carinho. Hoje, ela pode nos proporcionar uma alegria diferente. Tenho certeza que o Pelé, onde quer que ele esteja, ficará contente por saber que mais um gesto dele ajudará minha família”.