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Podcopa: Kaká esbanja sinceridade ao apontar culpado pela preparação ruim na Copa-2006 e revela como Felipão lidou com vaidades no Penta

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Kaká fala em mudança de consciência e exalta mérito de Felipão na campanha do penta em 2002; VEJA (1:12)

Jogador foi o convidado do PodCopa, podcast da ESPN (1:12)

Kaká concedeu entrevista à ESPN e relembrou as Copas do Mundo de 2002, 2006 e 2010


Nesta quinta-feira (7), entra no ar mais um PodCopa, podcast original da ESPN sobre seleção brasileira e Copa do Mundo. E o convidado desta semana é mais um Pentacampeão do mundo: o ex-meia Kaká, que além do título de 2002, ainda disputou as edições de 2006 e 2010 do Mundial.

Em conversa gravada durante evento da Rise Academy, grupo do qual é embaixador, ele relembrou com enorme carinho os 23 minutos que jogou na campanha do Penta, contra a Costa Rica, e contou que lembra até hoje a instrução que recebeu o técnico Luiz Felipe Scolari lhe deu e o conselho que o zagueiro Roque Jr. falou pouco antes dele pisar no gramado.

"O Felipão me deu a instrução, eu lembro direitinho, o Roque chegou perto de mim também e falou: 'Olha, você está aqui por um motivo: é pelo seu talento! Vai lá, entra, joga, se diverte e aproveita'. Lembro direitinho da imagem do Roque me dando esse conselho", recordou o melhor do mundo de 2007, que era o mais jovem daquele elenco.

"Demonstra mais uma vez como que eles cuidavam de mim, como me abraçaram nessa conquista. E aí jogo meus 23 minutos. O sonho era... Tudo que eu fazia era em direção ao gol, eu queria ter a chance de fazer um gol da Copa (risos)", confessou.

Hoje trilhando caminho para ser dirigente esportivo, Kaká também esbanjou sinceridade ao falar da preparação bagunçada da seleção brasileira antes do Mundial de 2006.

A concentração do Brasil, feita na cidade suíça de Weggis, foi marcada por muita farra, com constantes invasões de gramado por parte dos torcedores para tirar fotos e clima de "jogos universitários".

"Eu sou uma pessoa que gosto muito da preparação. De se preparar, de entender, de ver como é que é, de aumentar mesmo minha chance de dar certo. Não sei quem vai ganhar, a chance de perder... É um jogo, e é ótimo que seja dessa forma. Mas eu acho que a gente poderia ter melhorado a nossa...", admitiu.

Confira abaixo a entrevista completa no player e também alguns dos principais trechos do papo com Kaká:

A 'fogueira das vaidades' em 2002

Durante a Copa do Mundo de 2002, eu fui vendo as coisas e tendo consciência maior ao longo da minha vida e da minha carreira. E realmente ali era um ambiente familiar, porque quem estava no banco eram grandes jogadores de grandes clubes, mas não eram caras fáceis de lidar no dia-a-dia mesmo.

Por exemplo: estava o Vampeta, estava o Edílson, estava o Luizão, estava o Júnior, estava o próprio Denílson. No banco ainda tinha eu, Belletti, Dida, Rogério Ceni... São grandes nomes e, pô, os caras no banco, todo mundo acha que tem que jogar, né?

Então, o Felipão ali, no dia-a-dia, tentava sempre mostrar a importância de todo mundo e mostrar que sendo campeão, todo mundo ganha... Convergir esses interesses diferentes na mesma direção era uma habilidade muito grande do Felipão.

Faz 20 anos que fomos campeões, e você não vê nenhuma declaração fora de lugar, de alguém falando que: "Ah, eu acho que poderia ter jogado mais", coisas assim. Você não vê, não tem nenhum momento naquela Copa, nenhuma faísca com relação a essas situações. Então realmente foi a "família Scolari". O Felipão soube realmente montar esse quebra-cabeça.

Quem foi o culpado pela bagunça na preparação em 2006?

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2:06

Kaká revela quais derrotas mais pesaram e o que poderia ter sido diferente: 'Cicatriz muito grande'; VEJA

Jogador concedeu entrevista exclusiva ao PodCopa, podcast da ESPN

Olha, tem muito "disse-me-disse" nessa situação...

Eu tenho três derrotas que eu falo sempre na minha carreira: 2005, com o Milan na final da Champions; 2006, essa quarta de final com a França; e 2010, com a Holanda. São derrotas que me ensinaram muito, mas que deixam uma marca, uma cicatriz muito grande. Então difícil falar qual das duas pesou mais. 2010, talvez, eu tinha até uma responsabilidade maior, você tem uma experiência maior. A forma que foi construído ali, a gente veio com tudo, aquela seleção ganhou tudo que disputou e perdeu nas quartas da Copa. Então as vezes é por esses pequenos detalhes.

Em 2006, futebol é essa imprevisibilidade, e é isso que faz com que seja um esporte maravilhoso. E aí a gente vai buscando peças, ah, pode ser por isso ou não, como fazer para aumentar nossas chances de ganhar. E aí de novo a gente volta na preparação, né?

Eu sou uma pessoa que gosto muito da preparação. De se preparar, de entender, de ver como é que é, de aumentar mesmo minha chance de dar certo. Não sei quem vai ganhar, a chance de perder... É um jogo, e é ótimo que seja dessa forma. Mas eu acho que a gente poderia ter melhorado a nossa... Aumentado as nossas chances.

Então a frustração não é com o resultado, querendo ou não a gente não controla, mas putz... Podia se preparar de uma forma diferente..

E aí todo mundo sempre fala: "Mas tem alguém que foi o culpado?". Eu acho que todo mundo foi... Acho que todos. Os atletas, por não falarem: "Pô, vamos mudar isso aqui, não está legal". A comissão técnica também não intervir, quem fez a parte da organização também não... Enfim, acho que todo mundo contribui para essa não boa preparação de 2006.

Mas o Zidane do jeito que estava, o Henry do jeito que estava, enfim. A França também era uma seleção espetacular, né?

Os favoritos de Kaká para a Copa do Mundo do Qatar

Minha opinião é que o Brasil está entre os favoritos. E aí tem dois pontos que eu acho que é muito favorável para o Brasil: manutenção do treinador, pois o Tite já viveu Copa, já perdeu uma Copa, ele sabe o que é uma Copa do Mundo. E aí ele tem quatro anos de preparação, testa os meninos, vê como é que é, vê diferentes situações, joga, convoca, enfim. Ele conhece esse time, ele sabe com quem ele pode contar, ele sabe com quem ele não pode contar, e esse é um ponto, para mim, que é muito forte e positivo da seleção brasileira.

Segundo: essa mescla da experiência com a juventude. E uma juventude não qualquer, é uma juventude campeã da Champions League, uma juventude que está saindo de clubes médios da Europa e indo para clubes grandes, uma juventude qualificada misturada com uma experiência extremamente qualificada. Então isso também, para mim, é um ponto muito positivo que a gente tem, além da qualidade dos nossos jogadores, que são muitas.

O único ponto que eu acho que a gente perde um pouco é de não ter a competição contra os europeus pré-Copa. Não porque seja novidade, porque hoje não é novidade, você assiste o mundo inteiro, os meninos jogam entre eles lá na Europa e, assim, se conhecem. Agora, eu acho que você cresce muito quando você compete com gente de alto nível. Se o Brasil... Pensando no Brasil de alto nível, ele não competiu com alto nível.

Tirando a Argentina, que pode estar num alto nível, as outras seleções estão num nível médio/baixo daquilo que o Brasil tem competido. Eu acho que, como grupo, essa competição fez falta e vai fazer falta até lá. Mas acredito que o Brasil chega como favorito.

E aí França, Espanha, time muito jovem, mas muito qualificado também, Argentina, acho que eles chegam com um time muito forte, extremamente talentoso, extremamente experiente, já calejado aí, já apanharam e já conquistaram, e acredito também nessas seleções. Lógico que é sempre uma surpresa. A Alemanha é uma serpente, perigosíssima. Mas acho que esse grupo, França, Brasil, Espanha e Argentina. Meus favoritos seriam esses quatro.