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'Viram o futebol mais à frente': como o São Paulo de 92 foi escola e ajudou a 'formar o estilo' de Vítor Pereira no Corinthians

Corinthians de Vítor Pereira enfrenta neste domingo (22) o São Paulo, na Neo Química Arena. O time do Morumbi foi inspiração para o português sob o comando de Telê Santana, na década de 90


Embalado pela sequência de sete jogos sem derrotas, o Corinthians terá a missão de manter neste domingo (22), pela 7ª rodada do Campeonato Brasileiro, um dos tabus mais celebrados pelos torcedores: nunca ter perdido para o São Paulo dentro da Neo Química Arena. A partida marcará o primeiro clássico de Vítor Pereira como mandante pelo clube.

E não poderia acontecer diante de um rival com mais representatividade para o português.

Foi diante do time do Morumbi que o treinador fez sua estreia no comando do Corinthians, na fase de grupos Campeonato Paulista. Dias depois, já pelo mata-mata, a primeira turbulência: eliminação para o Tricolor na semifinal do Estadual, novamente dentro do Cícero Pompeu de Toledo.

Mas a relação de Vítor Pereira com o São Paulo vem de pelo menos duas décadas. O time que era comandado por Telê Santana no início da década de 90 foi apontado pelo treinador como uma de suas 'escolas' no futebol. Além do Tricolor, o português bebeu em outras duas fontes: o Barcelona de Johann Cruyff e o Milan de Arrigo Sacchi.

Quatro décadas atrás, aos 14 anos, o jovem Vítor sofria acompanhando a seleção brasileira na Copa do Mundo de 1982, e sofreu com a eliminação para a Itália. O Brasil, à época, tinha Telê Santana como comandante.

“Lembro das seleções do Brasil, algumas delas brilhantes. Algumas que me fizeram chorar. Em Portugal nossa segunda seleção sempre foi a brasileira. Me habituei a ver grandes jogadores brasileiros. Em termos de clubes, Telê Santana, Cruyff, Arrigo Sacchi e Guardiola são pessoas que viram o futebol mais à frente. Projetar um futebol de uma qualidade superior. São algumas das referências que tenho”, disse Vítor Pereira logo em sua apresentação como técnico do Corinthians, no início de março.

Contratado para liderar um processo de mudança de cultura no futebol alvinegro, o português tenta deixar no passado do clube o estilo de jogo reativo que marcou as últimas temporadas, algumas delas que terminaram inclusive com títulos. E muitos dos conceitos adotados desde a chegada da nova comissão técnica são quase um espelho daquilo que Telê Santana colocava em suas equipes.

Propor o jogo, ter o controle da partida a partir do domínio da bola, ser ofensivo e organizado dentro e fora de casa. Construir um resultado pelo próprio desempenho.

O que está acontecendo no futebol é que todo mundo espera para contra-atacar. Ninguém mais procura uma alternativa para mudar isso”, disse Telê em uma histórica entrevista dada em 1992 ao programa Roda Vida, da TV Cultura, antes mesmo que liderar o São Paulo contra o Barcelona na vitória por 2 a 1, pelo Mundial Interclubes daquele ano.

“É mais difícil você construir ou destruir uma casa? Às vezes leva um ano para construir e um segundo para destruir. É a mesma coisa com o futebol. Ajeitar um sistema ofensivo é muito mais difícil do que um defensivo”.

Ter a bola e propor o jogo é justamente o caminho que Vítor Pereira tem tentado adotar para construir seus resultados desde que chegou ao Corinthians. E tem conseguido avançar dentro da ideia de futebol na sequência invicta.

“Tenho minhas ideias. Ao longo da minha carreira, fui projetando uma metodologia de treino e um modelo de jogo, aquele jogo que gosto de ver. O que nós pretendemos é criar um jogo que coloque os jogadores confortáveis nele”.

“Jogar um jogo que nos permita ter mais bola, sermos dominantes com a posse, muita posse. Depois, para evitar correr para trás, precisamos ser agressivos na hora da perda da bola. São dois momentos do jogo para evitar que essa equipe faça quilômetros e quilômetros andando para trás e depois para frente”.

Aquela final do Mundial Interclubes de 1992 deve ter sido 'devorada' diversas vezes ao longo dos anos por Vítor Pereira e sua comissão técnica. Aquele marcou um confronto único entre duas de suas referências: o Barcelona, comandado pelo holandês Johan Cruyff, contra o São Paulo treinado por Telê Santana.

Minha tese de mestrado foi sobre o Barcelona do Johan Cruyff. Todos nós temos uma ideia de jogo predileta. A minha é essa. Podia mencionar o Milan do Arrigo Sacchi, o São Paulo do Telê Santana. No nosso cérebro está definido o que é um jogo de qualidade. Outros preferem uma equipe que defenda bem, e acham aquilo bonito. Somos diferentes, é normal”, disse Vitor Pereira em entrevista ao Mais Futebol, de Portugal, em 2021.

“Atacar, dominar, transição defensiva agressiva, ter bola, não deixar o adversário chegar até o nosso gol. Nós temos de estar sempre preparados para abafar, só em último recurso é que vamos defender. Eu, defensivamente, organizo a equipe facilmente. É o mais fácil. Difícil é organizar ofensivamente e sempre em condições de anular as iniciativas do adversário”.

“Mas dou mérito a quem compacta e não permite ao adversário entrar. Agora, o futebol de especulação não é o meu futebol. Estar à espera de um erro e ir à frente fazer um gol”.

Líder do Campeonato Brasileiro até o início da rodada, classificado para as oitavas de final da Copa do Brasil e com chances altas de avançar à mesma fase pela Conmebol Libertadores, o Corinthians tem sete jogos seguidos desde a última derrota, no clássico contra o Palmeiras, há quase um mês.

Desde então foram nove gols marcados e três sofridos que construíram vitórias importantes dentro da Neo Química Arena e empates importantes fora de casa. Ainda que em evolução, o desempenho alvinegro já inspira confiança dos torcedores. E parte significativa dos resultados foi construída graças à rotação do elenco, que tem oportunizado cada vez mais jogadores ao longo da temporada, inclusive 'fora de posição'.

Lucas Piton na direta ou Gustavo Mosquito na lateral? Essa variacao já era defendida por Telê em 1992.

“A minha maior satisfação um dia seria dirigir um time como a Holanda de 74. Um time que às vezes tinha o Cruyff de lateral-direito, e se tivesse que jogar na lateral-esquerda, na ponta. Todos em qualquer posição. Essa é uma equipe de futebol, que se movimenta o tempo todo. A gente faz isso aqui no São Paulo com alguns jogadores...Antonio Carlos, Cafu, Leonardo”, disse o técnico no mesmo Roda Viva.

“Aqui no Brasil não se admita que um Sócrates desse um carrinho para tomar bola, um Zico. O craque não podia dar um carrinho. O futebol mudou. E todo mundo tem que mudar também. Aqui o Brasil o craque fica esperando o cabeça bagre tomar a bola e entregar para ele jogar. Isso não existe mais no futebol”.

Neste domingo, quando completa 88 dias desde o anúncio da contratação, Vítor Pereira terá outra missão importante desde que chegou ao Corinthians: vencer o primeiro clássico. Mas como tem defendido desde a primeira entrevista no CT Joaquim Grava, o português entende que está mais perto do triunfo quando joga bem.

Assim como para o português, Telê também defendia que vencer a qualquer custo não era a opção escolhida.

“Cansei de ouvir e ler que 'o Brasil joga bonito, mas perde...prefiro jogar feio e ganhar'. Isso é uma balela. Eu não pego jogador para enfeitar jogada. É jogar o futebol que nós gostamos. Quem gosta de futebol quer ver aquele futebol de 82. O futebol é para ser jogado assim, com quem sabe jogar, com quem tem técnica. Você não pode chegar lá e falar para o Zico ficar atrás dando bico para frente”.

“O resultado também [dá prazer], mas não pensa que eu fico igual a muitos dizem: eu quero ganhar com gol de mão, aos 47 minutos, e impedido. Não me satisfaz. Não é trabalho meu, não fiz nada para merecer isso. Eu fico envergonhado de receber o bicho. Fico envergonhado de receber uma gratificação por ganhar um jogo assim. Quando me perguntam: você prefere jogar bonito e perder ou jogar feio e vencer? Eu prefiro o bom futebol. Tudo mundo prefere. Não é melhor do que ver pontapé?”.