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De técnico querido por brasileiros a mercado impecável: como Frankfurt chegou à final da Europa League

Com temporada fora do planejado pela diretoria, Eintracht Frankfurt chega à final da Europa League


Ganhar a Europa League não estava no planejamento financeiro do Eintracht Frankfurt, mas essa possibilidade acabou se tornando algo viável e próximo de acontecer graças a uma combinação de fatores, dentro e fora do campo. A mais marcante foi a sinergia com sua torcida, algo que chamou atenção no mundo inteiro quando a torcida do time alemão invadiu o Camp Nou para a partida contra o Barcelona.

Mas há também o trabalho de mercado por trás de um time que perdeu a grande estrela da temporada passada, vendeu mais do que gastou no mercado, buscou um novo técnico e viu toda essa combinação funcionar. E muito bem, a ponto de estar na decisão da Europa League a ser disputada nesta quarta-feira (18), às 16h (de Brasília), contra o Rangers, em Sevilha, com transmissão ao vivo pela ESPN no Star+.

De acordo com dados do site Transfermarkt, o Frankfurt foi o sétimo clube da Alemanha que mais lucrou nas janelas de transferência de 2021/22 entre chegadas e saídas de atletas, com um saldo de 14,55 milhões de euros (R$ 77 milhões). Boa parte do que lucrou veio da saída de André Silva para o RB Leipzig, um atacante que marcou 28 gols na Bundesliga 20/21, menos apenas que os 41 de Robert Lewandowski.

Tendo perdido o grande destaque de sua temporada anterior, o Frankfurt fez um mercado sem gastar muito e apostando em jovens que chegaram para serem peças importantes, casos do volante Kristijan Jakic (25 anos), do ala Ansgar Knauff (20 anos, emprestado em janeiro pelo Borussia Dortmund), dos meias Jesper Lindström e Jens Petter Hauge (ambos de 22 anos) e do atacante Rafael Borré (26 anos).

O valor total de reforços do clube - apontado pelo Transfermarkt - foi inferior a 14 milhões de euros (R$ 74 milhões), sendo apenas o 11º que mais desembolsou em atletas no país.

Substituto de André Silva, o colombiano Borré veio de graça do River, ao mesmo passo que o investimento mais caro foi Lindström (7 milhões de euros ou R$ 37 milhões, segundo o Transfermarkt), que chegou como um dos destaques do Brondby campeão dinamarquês de 2020/21.

Das principais chegadas, o único que não decolou foi o centroavante Sam Lammers, emprestado pela Atalanta, o que diminui bem pouco o ótimo aproveitamento dos alemães nas duas janelas desta campanha.

O começo do jovem time do Frankfurt não foi fácil, com apenas uma vitória nas dez primeiras rodadas da Bundesliga (curiosamente diante do poderoso Bayern de Munique), mas depois venceu seis das sete partidas seguintes, encerrando a primeira metade da competição na sexta posição com 27 pontos, dois a menos do que o terceiro colocado Freiburg.

"Sabíamos que éramos muitos jogadores novos no elenco e que ia ser complicado, porque fomos nos adaptando e nos conhecendo. Sabíamos as diferentes culturas e os diferentes clubes de onde cada um vem, cada um tem sua forma de jogar em seu clube", declarou Borré em entrevista durante a pausa de inverno da Bundesliga.

Na sequência da competição, porém, o Frankfurt não manteve o embalo e fechou o Campeonato Alemão na modesta 11ª colocação. Por outro lado, soube priorizar a Europa League e, em caso de título, se classificará à próxima Champions League.

A evolução da jovem equipe, que passou por Barcelona e West Ham e que segue invicta na Europa League, tem em Oliver Glasner o principal responsável. Sua carreira evoluiu de forma impressionante nos últimos cinco anos, indo da segunda divisão austríaca a uma final continental no intervalo.

Glasner assumiu em 2015 nas funções de diretor esportivo e técnico do LASK Linz, um clube que foi parar na terceira divisão austríaca em 2012 por problemas financeiros. Quando o técnico chegou, o time estava no segundo escalão, e ele o guiou à elite em 2016/17 com o título da competição.

Já em 2017/18, em sua primeira Bundesliga desde a volta ao topo, o clube conseguiu um quarto lugar, seu melhor desempenho na elite desde 1986/87, e que rendeu uma vaga nas fases preliminares da Europa League. Em 2018/19, o LASK foi vice-campeão, igualando o seu feito de 1961/62 e tendo o melhor desempenho desde o primeiro e único título em 1965.

O grande trabalho de Glasner chamou atenção do Wolfsburg, que o contratou no meio de 2019. Depois de um sétimo lugar na primeira temporada, o que rendeu uma classificação à Europa League, o treinador austríaco levou o Wolfsburg à quarta colocação na Bundesliga 2020/21, classificando os Lobos à sua terceira participação na Champions League na história, a primeira em seis anos.

Apesar da oportunidade de participar da fase de grupos da principal competição da Europa pela primeira vez, Glasner trocou o Wolfsburg pelo Frankfurt, que terminou o Campeonato Alemão passado um ponto e uma posição atrás. Em seu novo time, o austríaco de 47 anos implementou um jogo vertical e muito eficiente, sendo que sua posse de bola é inferior a 50% na Bundesliga e na Europa League.

Quem o conhece de perto

Qual é a principal qualidade dele como técnico? "Persistência e intensidade nos treinos. Se não está do jeito que ele quer, fica treinando até estar. Aprendi muito nos dois anos que trabalhei com ele, foram meus dois últimos anos como jogador. Digo até hoje que antes dele eu era atleta, e nesses dois últimos anos quem virei profissional. Parei no meu auge física e tecnicamente", afirmou Fabiano, que foi comandado por Glasner no LASK Linz, da Áustria, entre 2015 e 2017.

E como é Glasner além do trabalho? "Muito educado com os jogadores, um austríaco atípico, procurava sempre estar conversando com os estrangeiros, perguntava se estava tudo bem com a família, que queria comer feijoada... Coisas que parecem normal, mas se tratando de um austríaco não é, eles são muito pé atrás com estrangeiros, ali percebi que ele era diferente", disse o ex-atacante, que marcou um total de 23 gols em duas edições da segunda divisão austríaca e foi peça importante no acesso e título em 2016-17.

Fabiano não foi o único brasileiro que teve uma parceria de sucesso com Glasner. O lateral-esquerdo Paulo Otávio também era peça importante do time que conseguiu a promoção à elite do Campeonato Austríaco e até chegou a ser contratado pelo treinador pelo Wolfsburg em 2019, depois de uma passagem do defensor pelo Ingolstadt.

"Antes de ir ao Ingolstadt, eu machuquei o joelho, e ali foi um momento que me senti muito acolhido por ele (Glasner), porque foi uma distensão do tendão, não chegou a romper o tendão, graças a Deus, mas ele me viu muito abatido, e tínhamos acabado de voltar de férias", contou Paulo Otávio, em entrevista concedida em 2020.

"Paulo, o que você está sentindo?", perguntou o técnico. "Eu estou com medo", respondeu o brasileiro, que desabou no choro e foi consolado por um abraço do treinador. "Fica tranquilo, eu já tive essa lesão, pode ficar sossegado".

A relação de confiança mútua, no entanto, durou apenas uma temporada, porque veio a proposta do Ingolstadt, uma transferência apoiada pelo próprio Glasner. "Olha, eu não gostaria que você fosse, mas para sua carreira vai ser muito bom, vai de olhos fechados e dê o seu melhor, que tenho certeza que você vai conseguir voos maiores".

Paulo Otávio ficou por dois anos no clube bávaro e conseguiria o seu imaginado voo maior, mas talvez ele não imaginasse que este viria com Glasner, que foi contratado pelo Wolfsburg no meio de 2019.

"Quando ele assinou com o Wolfsburg, eu brinquei com o Fabiano: ‘Bem que seu pai poderia levar a gente de volta’", afirmou o lateral-esquerdo, que acabou de fato levado pelo velho conhecido.

Outro brasileiro que jogou com Glasner no LASK e foi contratado por ele no Wolfsburg é o atacante Victor Sá, hoje no Botafogo.

"Ele ama o Paulo e o Victor. Era para eles terem ido para o Frankfurt junto com ele. São jogadores de confiança, principalmente o Paulo Otávio. Ele gosta do Brasil e dos brasileiros, muito mais dos que correm (risos)", brincou Fabiano.

No elenco atual do Frankfurt, há um brasileiro que se consolidou de vez como titular nesta temporada. O zagueiro Tuta veio do São Paulo no começo de 2019, foi emprestado ao Kortrijk (Bélgica) e passou a ser utilizado somente na temporada passada, ganhando a titularidade no segundo turno da Bundesliga 20-21.

Sob o comando de Glasner, o atleta de 22 anos foi titular a temporada toda, iniciando 36 dos 47 jogos oficiais do time em 2021-22. Agora, vive a expectativa do jogo mais importante de sua carreira, a decisão contra o Rangers nesta quarta-feira no Estádio Ramón Sánchez Pizjuán.