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Pioneira no automobilismo rebate versão de 'marmelada' em sua 1ª vitória e não liga para machismo: 'Nós só queremos ganhar'

Há 53 anos, Jennifer Nadin fazia história no automobilismo. Ao vencer a corrida inaugural da Fórmula Vee - categoria de monopostos - em Silverstone, na Inglaterra, Nadin se tornou a primeira mulher a ser reconhecida por ganhar uma prova de fórmula no automobilismo mundial.

A vitória, na época, porém, não foi aceita por todos do já então mundo machista. O site Formula Vee Centre explica a polêmica.

“A primeira corrida de FVee, em Silverstone, foi vencida por Jenny Nadin, apesar de o famoso jornalista Nick Brittan ter liderado a prova até a última volta, quando rodou. Segundo rumores, a vitória foi orquestrada pela VW, que tinha contrato com os dois pilotos, e haveria uma publicidade maior no caso do triunfo de uma mulher. Nick Brittan ficou com o título ao final das 12 etapas do campeonato (Nadin foi a vice-campeã) e acabou escolhido para representar a Grã-Bretanha no Campeonato Europeu da Zona Oeste, o embrião da VW para criar um campeonato mundial de FVee”.

Mike Haysey, que foi companheiro de Nadin na equipe VW de FVee na Inglaterra, comentou sobre o assunto em contato com a FVee brasileira.

"Fred, o chefe da equipe, e Nick devem ter chegado a um acordo para deixar a Jenny passar para gerar a publicidade e isso funcionou".

Em contato com o ESPN.com.br, Nadin, hoje com 77 anos e morando no seu país-natal na Inglaterra, relembrou aquela vitória em Silverstone.

"Eu ainda não estou convencida até hoje que minha vitória foi orquestrada. É claro que é completamente possível, mas Nick não estava imune a bater, como fez em Mônaco. Minhas memórias dele eram de uma pessoa intensamente competitiva. Eu não conheço qualquer piloto que desperdiçaria uma vitória, a não ser se fosse mandado pelo dono da equipe, como aconteceu com Nelson Piquet Jr.", analisou, relembrando o episódio do brasileiro em Cingapura-2008, onde ele bateu de propósito para ajudar Fernando Alonso a vencer.

Em entrevista ao site oficial da Fórmula Vee no Brasil, Nadin foi mais enfática.

"Se foi realmente uma vitória orquestrada pela Volkswagen, eu era talvez muito ingênua na época, nunca acreditei nisso. Hoje, pensando bem, sim, as montadoras irão usar garotas e mulheres apenas por publicidade. Claro, eu acho isso tão humilhante, mas sempre foi assim. Na minha opinião, o automobilismo era e continua sendo um esporte extremamente machista. Certamente por isso que o Nick colocou o desenho de lábios vermelhos no bico do meu carro. Mas tudo isso acabou me ajudando em meu primeiro ano na Fórmula Vee. Os homens não admitem serem derrotados por uma mulher".

E não é só no Reino Unido que o preconceito nas pistas aconteceu e segue acontecendo. A piloto Suzane Carvalho, única brasileira campeã no automobilismo e motociclismo e hoje instrutora na Fórmula Vee, também comentou o assunto.

"Eu sofri diversos preconceitos, coisas do tipo oferecerem vassoura, dizer que a mulher tem que ficar com a barriga encostada no fogão. As histórias que me contavam, por exemplo, que faziam sorteio pra ver quem ia me tirar da pista. E sofri preconceito não só por parte dos pilotos, mas também por parte dos chefes de equipe", disse Carvalho, ao canal do youtube da Fórmula Vee.

Jennifer Nadin voltou às suas origens após deixar a FVee e colecionou títulos e vitórias em diversas categorias de rali. Sua última disputa foi em Bogotá, na Colômbia, em 1991. Mesmo quando parou de correr, a pioneira da FVee inglesa não perdeu o espírito de aventura. E descobriu um novo esporte: o esqui.

"O esporte a motor tem uma ocupação 'gladiatorial'.Eu não conheço nenhuma mulher que se importa se está sendo reconhecida num mundo dominado por homens. Nós só queremos vencer. Claro que tem machismo, mas no fim das contas o que importa é performance e talento. Machismo é só mais uma 'arma no jogo' com a qual temos que lidar