Em novembro de 2013, Søren Bjerg deixava a Dinamarca aos 17 anos para jogar League of Legends profissionalmente nos Estados Unidos. Vindo de uma carreira bem sucedida na antiga EU LCS, o reforço do Team SoloMid era uma grande promessa do cenário competitivo.
Ao longo de sete anos, Bjergsen consolidou sua promessa. O mid laner levantou o troféu da LCS seis vezes e subiu cinco vezes ao palco do Campeonato Mundial para representar a América do Norte. Em outubro de 2020, a lenda do cenário norte-americano anunciou sua aposentadoria dos palcos — e sua nova função como treinador do time que o consagrou.
Em maio de 2017, eu, redatora deste artigo, tinha 18 anos de idade e um sonho latente de viver de esports. Apaixonada pelo cenário competitivo de League of Legends desde menina, simpatizei com a TSM pelo desempenho na liga norte-americana e me tornei fã de Bjergsen pela TSM. No Mid Season Invitational daquele ano, pude vê-los pessoalmente pela primeira vez.
Esse artigo, no entanto, não é sobre mim. É sobre como a simpatia do mid laner me trouxe até aqui. É sobre o quanto a resiliência de Bjergsen, peça-chave em todas as formações do Team SoloMid desde 2013, fez com que uma fã de esports fosse incentivada diariamente a não desistir do que eu almejava.
E, pra ser honesta, eu não sabia direito o que Bjerg almejava. Tornar-se o maior competidor da história da LCS? Isolar a TSM na contagem de títulos? Vencer o Campeonato Mundial? Não sei. O que eu sabia era o que eu via acompanhando a liga norte-americana: todo final de split tinha a marca da TSM. Independente do objetivo final, o trajeto era dar tudo de si e vencer a liga local, semestre após semestre, ano após ano.
Para mim, a importância de Bjergsen nos esports tem a ver com o que ele significa enquanto ídolo. Não é, necessariamente, sobre o desempenho dele na rota em jogos específicos da LCS ou do Mundial. É sobre como ele lida com o fato de que milhares de adolescentes ao redor do mundo se inspiram nele, em suas ações, em seus feitos.
Trago para perto porque ouço diariamente histórias de adolescentes salvos por seus ídolos. Hoje em dia, sou uma jornalista de esports formada, tenho anos de experiência na área e conheci histórias de dezenas de outros jogadores — alguns que já são ídolos, outros que buscam alcançar os seus.
“Comecei a jogar me inspirando no Kami”, me dizem alguns mid laners brasileiros, de coração aberto, sobre o veterano que aliou suas conquistas profissionais com o carinho massivo do público. Com quase 10 anos de carreira, brTT segue firme com sede de títulos, inspirando jogadores a cada partida competitiva em que comparece.
Bjergsen foi e é um ídolo que tem noção e responsabilidade com sua própria influência.
Em maio de 2017, após uma vitória suada contra a Gigabyte Marines, o mid laner e seus companheiros de equipe atenderam a uma fã trêmula e presentearam-a com autógrafos e palavras de carinho. Minha vida mudou por influência de Bjergsen — decidi, no ato, que entraria na área de esports, custe o que custar. E que o encontraria de novo, como profissional da área.
A retórica veio cedo. Em outubro de 2018, também em São Paulo, reencontrei Bjergsen, já como jornalista, para uma entrevista. O mid laner veio a mim com a mesma leveza e respondeu, sem pesar, questões sobre a campanha complicada na LCS e a não-participação no Mundial. Falou do Brasil, da TSM e de seu momento, sem a noção de que estava protagonizando um dos momentos mais especiais da vida de uma fã.
Com o maior mid laner da história da TSM, aprendi que sonhos são possíveis e que qualquer coisa é atingível se o foco e o esforço forem fixos e constantes. Conto minha história por acreditar piamente que ela é semelhante às de milhares de fãs ao redor do mundo. Lendas nunca morrem, e o legado de Bjergsen é inspiração para qualquer profissional que ainda se aventurará no League of Legends e nos esports.
Quando soube de sua aposentadoria no competitivo, meu coração apertou, claro — mas a felicidade prevaleceu. O mid laner, agora, será treinador do time que tem a história intimamente ligada à sua.
Não acredito que exista posição melhor para inspirar pessoas a seguirem firmemente seus objetivos do que a de um técnico. Em 2020, Bjergsen deixa os Campos de Justiça para abrir caminho a dezenas de novas estrelas do esporte que o consagrou. E, ídolo que é, terá sua história e seu conhecimento como ferramentas para, sim, conseguir novos títulos, mas, acima de tudo, criar novas histórias, novos ídolos, novas lendas.
Obrigada, Bjergsen.
*Evelyn Mackus é jornalista, caster de esports e colunista sobre cenário feminino no ESPN Esports Brasil. Siga-a no Twitter e no Instagram.
