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Flamengo Esports vive crise nos bastidores com acusações de chantagem, armadilha e até espionagem

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"Não estávamos bem como time", conta Tutsz sobre playoffs da Primeira Etapa de 2021 do CBLoL (3:40)

O meio do Flamengo também fala sobre começar nas quartas de final ao invés da semi (3:40)

Clube entrou no cenário eletrônico há quatro anos e virou um dos gigantes nele, mas acumula uma série de problemas e polêmicas, que vão de atraso de pagamentos até acusação de chantagem e espionagem


Quatro anos após sua entrada triunfante no cenário de esports, o Flamengo Esports encontra-se em uma posição delicada. Polêmicas nas redes sociais, atraso de pagamentos, comunicados insensíveis, campanhas ruins e até mesmo acusações de chantagem, armadilha e espionagem relatados pelo treinador Abaxial e outras fontes são alguns dos problemas que acompanham o braço de esports do clube rubro-negro ao longo dos últimos anos em sua passagem pelo cenário competitivo de League of Legends.

A apuração feita pelo ESPN Esports Brasil acerca da situação do Flamengo Esports ouviu diversas pessoas relacionadas à organização, de jogadores a membros do estafe (conjunto dos funcionários de uma empresa), e também traz informações públicas relatadas por jogadores, empresários e treinadores que passaram pelo clube nos últimos anos.

A reportagem também entrou em contato com a Simplicity Esports, atual detentora da marca do Flamengo Esports, que prontamente aceitou responder todas as questões levantadas nesta matéria.

O passado e o contexto

Para entender melhor a apuração sobre a situação da agremiação carioca dentro dos esports, é necessário olhar - mesmo que rapidamente - para o passado. Inicialmente gerido pela Go4It Capital, o Flamengo Esports começou sua caminhada no cenário de esports oficialmente no último trimestre de 2017 e tinha como alguns dos objetivos expandir as áreas de atuação do clube em outras modalidades e também de se aproximar do seu público mais jovem.

Montando um elenco que carregava um potencial enorme, já que contava com grandes nomes do meio, como brTT e esA, o time rubro-negro logo começou a deixar sua marca no cenário de League of Legends (LoL) e rapidamente subiu à liga principal: o Campeonato Brasileiro de League of Legends (CBLoL). E com isso também pavimentou o caminho e o interesse para novas modalidades.

O Flamengo colecionou bons momentos, sagrou-se campeão no segundo split de 2019 e os esforços do clube para se tornar uma das maiores marcas do cenário de League of Legends atraíram olhares curiosos para fazer com que a mesma se tornasse ainda maior.

A despeito de problemas pontuais, como a contratação conturbada de brTT, sanada recentemente em um processo judicial, a passagem da Go4it no comando dos esports rubro-negro foi marcada por um grande sucesso: o da subida do Circuito Desafiante à conquista do título em 2019 (como sair da segunda divisão em um ano e no seguinte já ganhar o título da primeira).

A escolha da Go4It e a chegada da Simplicity One

Ao se tornar também investidora global da organização europeia G2 Esports, a Go4It precisou fazer uma escolha e optou por deixar a gerência da marca do Flamengo nos esports - devido às regras da própria Riot Games que impedem que uma empresa seja licenciada ou dona de dois times na mesma divisão do circuito oficial, mesmo que em ligas diferentes - e abriu espaço para que outras empresas pudessem assumir as rédeas do projeto.

Entre as empresas que buscavam assumir o comando do Flamengo Esports, duas estariam interessadas em gerenciar e administrar esta área do clube: a brasileira Team oNe e a norte-americana Simplicity Esports and Gaming Company. No fim, elas se uniram.

Assim, foi criada a joint venture - parceria entre empresas já existentes que tem o objetivo de começar uma atividade em comum - Simplicity One. Com a ajuda da própria Riot Games, ambas as empresas entraram oficialmente no CBLoL em janeiro de 2020.

O clube dourado (Team oNe) seria responsável por toda infraestrutura brasileira, como cuidar de pagamentos, fornecer um centro de treinamento, administração da equipe, captação de patrocinadores e outras tarefas, enquanto a Simplicity seria responsável pela parte financeira, expansão da marca nos EUA, contratação de talentos internacionais e contaria também com a consultoria da OutField Consulting, que seria encarregada pela parte comercial para a Simplicity e o Flamengo Esports - e que também conta com Pedro Oliveira, um dos investidores e membro do conselho da Team oNe.

E é aqui que, segundo fontes ouvidas pelo ESPN Esports Brasil, os principais problemas da organização começaram a acontecer.

Pagar do Brasil ou dos EUA? Um problemaço

Começando a temporada 2021 recebendo emprestado alguns jogadores - ‘de graça’, segundo a apuração - em contrato com a Team oNe, sendo esses Ranger e Absolut como titulares, e Jojo, Asta, Aslan e Vert como substitutos, a gestão Simplicity One trouxe em seus primeiros meses diversos problemas, sendo o mais evidente o atraso salarial dos atletas e profissionais da comissão técnica lá presentes. Na ocasião, o atraso demorou até 20 dias após a data acordada para os pagamentos.

Na época, os problemas foram causados devido a um gargalo entre as empresas Team oNe e Simplicity, em que a organização brasileira seria a responsável em realizar o pagamento, fazendo a transferência dos valores para os membros do projeto enquanto a norte-americana não encontrava uma forma de eliminar os obstáculos burocráticos para fazer a transferência diretamente a seus atletas.

Sobre esse problema, Jed Kaplan, presidente da Simplicity, respondeu: “Somos uma empresa pública norte-americana e todas as despesas precisam ser pagas de forma mensal. Não podemos fazer um aporte financeiro de uma despesa que ainda não existe e sempre que tentamos enviar dinheiro para o Brasil, nos deparamos com um problema logístico. Não é como nos Estados Unidos, onde faço uma transferência e, literalmente, em meia-hora está disponível na conta do beneficiado.”

“Na verdade, temos pedido literalmente há alguns anos, quase desde o primeiro dia de funcionamento, a possibilidade de pagar os funcionários diretamente daqui [EUA] para nos livrar daquele logístico intermediário do sistema bancário do Brasil. Ainda estamos conversando com a Riot sobre isso e é algo que queremos fazer porque o dinheiro está vindo daqui de qualquer maneira, então, não há razão para que não possamos pagar as pessoas diretamente daqui, a menos que haja uma regra em algum lugar que não conhecemos”, acrescentou o executivo.

A separação

O problema acima e a polêmica da dispensa dos jogadores Luskka, Vert, Aslan, wyLL e o técnico sul-coreano Stardust em meio a um contexto de início de pandemia causada pela COVID-19 foram o estopim para a separação entre as empresas, fazendo com que em abril do último ano a Team oNe saísse do gerenciamento da equipe de esports do Flamengo, com a Simplicity assumindo os compromissos da organização brasileira no projeto.

A equipe formada na época por WooFe, Ranger, Goku, Absolut e Luci (com Jojo assumindo a titularidade posteriormente devido à volta de Luci para a Coreia por problemas de saúde) alcançou o título de vice-campeã na primeira etapa de 2020, o que para alguns foi uma surpresa, como no caso de Goku e Djoko.

Em sua participação no Combo Podcast, Goku afirmou que durante o começo da pandemia, em 2020, os jogadores não tinham mais acesso ao centro de treinamento da Team oNe - localizado no Shopping D, na zona Norte de São Paulo - devido às restrições da pandemia e tiveram que levar os equipamentos para a casa que o jogador dividia com os sul-coreanos.

Durante o uso da casa como centro de treinamento, o ex-mid laner rubro-negro afirmou que teve que arcar com grande parte dos custos. “Eu lembro que essa época foi complicada porque eu tive que bancar muita coisa no começo, por exemplo, água. A Simplicity ajudou depois, mas por muito tempo eu tive que bancar sozinho”, disse o jogador durante o papo.

“Era uma situação que ou a gente se virava com o que a gente tinha ou a gente não ia treinar e não ia jogar. Por mais que isso tenha acontecido, era tanta coisa pra se preocupar (…) Posso dizer com prioridade, o Goku foi extremamente altruísta e aberto a fazer essa mudança, porque se não fosse isso a gente não teria treinado, nem sei como íamos jogar o CBLoL”, completou Djoko, treinador da equipe na época.

Investimentos duvidosos e até espionagem

Na segunda metade de 2020, a organização sequer alcançou os playoffs do CBLoL. Em meados do segundo split do campeonato, Jed Kaplan, mandatário da Simplicity, foi às redes sociais demonstrar sua insatisfação com a performance do time - algo que faz com frequência - e publicou um gif de um boneco queimando dinheiro, como se os investimentos tivessem sido jogados no lixo, o que acabou pegando mal na comunidade e gerou críticas de diversas frentes dos esports.

Fontes consultadas pela reportagem afirmam que sempre foi difícil tratar de dinheiro com Kaplan e que isto sempre gerou desavenças. Além dos salários atrasados, o presidente não via motivo no alto valor de muitos dos investimentos feitos, como o do técnico sul-coreano Stardust. Atuando no cenário brasileiro entre os meses de janeiro e abril de 2020 pelo Fla, hoje o coach foi alçado ao estrelato ao comandar a equipe da T1 no Worlds 2021 ao lado de Faker.

A reportagem também levantou que muitas dificuldades são provenientes de conseguir justificar o financiamento com a Simplicity; em muitas situações, membros do projeto tiveram que gastar dinheiro de seu próprio bolso para arcar com despesas que deveriam ser responsabilidade da própria organização ou recorrer à ajuda de outras organizações/empresas parceiras. Um exemplo disso são as mesas usadas pela equipe durante o primeiro split de 2020.

“Usaram as mesas da Team oNe para poder ter condição de jogar o CBLoL, que ia voltar. Era difícil conseguir mesa porque o cara [Jed Kaplan] não liberava dinheiro (...) Eu não imaginava que um cara tão podre de rico ia prometer coisas mais de uma vez e voltar atrás”, revelou uma das fontes ouvidas pela ESPN.

Deu-se, então, algo bem curioso, uma espécie de racha dentro da Simplicity. Isto porque o modo de operação da gestão e do estafe brasileiros gerou uma desconfiança, não justificada, segundo as fontes ouvidas, por parte do comando norte-americano. Fontes acreditam que os dirigentes incluíram Gidd Sasser - atual diretor de esports do Fla -, Tyler “CrazyLegs” e Debbie para cuidar da parte estratégica do time no segundo split de 2020 como uma forma de ‘espionar’ o trabalho que estava sendo feito.

Durante conversa com a redação no dia 10 de novembro, Roman Franklin, CEO da Simplicity Esports, falou sobre a presença dos profissionais nos treinos. “Gidd e Tyler estavam ambos na equipe do Simplicity antes do Flamengo, eles estão com a gente há anos. Eles estavam observando, tentamos implementar Tyler como um coach de draft, mas não combinava com o sistema, não combinava com o estilo de Djoko. Na prática, ele não atuou como um coach, esse era nosso plano original, mas não funcionou com o sistema do Djoko, então, ele se tornou um observador. Eles não estavam envolvidos nas decisões da equipe”, afirmou.

Alegando que os profissionais que hoje estão à frente da empresa não “tinham ideia do que estavam fazendo”, uma das fontes revela que os próprios jogadores pediam para que Gidd e Tyler saíssem da sala de treino (do Discord, plataforma usada para tal) porque eles “só atrapalhavam".

“Eram mais espiões deles [da Simplicity] do que qualquer coisa (...) Eles [Simplicity] queriam saber de tudo o que estava acontecendo sem perguntar, era como se estivessem desconfiados de que as coisas não estavam sendo feitas da forma certa”, afirmou outra fonte ouvida.

2021 com velhos (e novos) problemas

Em 2021, a questão financeira voltou a ser tema de instabilidades no time. Segundo a apuração, os pagamentos dos funcionários voltaram a atrasar por diversas vezes, gerando até mesmo problemas com o reembolso de valores gastos pela administração brasileira com despesas.

Jed Kaplan falou à ESPN sobre as dificuldades de fazer as transferências entre os sistemas bancários norte-americano e brasileiro, também afirmou que todos os funcionários do Flamengo Esports haviam sido pagos e que existia apenas uma pessoa (cujo nome não foi revelado) que o clube ainda estava resolvendo a questão.

Roman Franklin, CEO da Simplicity Esports, complementou: “Lembre-se que não é só com o sistema bancário brasileiro que estamos lidando em todos os cenários. Tivemos coreanos, treinadores de outras regiões, bancos europeus. Você tem todos esses sistemas bancários diferentes porque contratamos estrangeiros que não são cidadãos do Brasil, então, não é só com o sistema bancário brasileiro que estamos lidando.”

"Não foi uma maneira muito profissional [demissão do jogador], meio que fechou com chave de ouro a minha estadia lá. Tem muitas coisas que eu acho que deveriam ter sido feitas de forma diferente e essa foi uma delas. Pô, pelo menos me dá uma hora para eu pensar em alguma coisa, agora me liga 'você está demitido' e pronto o anúncio já está ali, é muito amador né?" Ranger, no Combo Podcast

“Com toda a certeza nós comunicamos [as dificuldades para transferir o dinheiro] para a equipe do Flamengo Esports no Brasil e é o trabalho deles [avisar], presumimos que eles estão comunicando isso aos jogadores, membros da equipe e aqueles que são afetados”, adicionou Franklin.

Sem comida? Mãe de jogador teve que cozinhar

Durante o período de 2021, o time Academy do Fla esteve hospedado e atuava em um hostel localizado no Alto de Pinheiros, região Oeste de São Paulo. Entretanto, a reportagem apurou que os funcionários do estafe do Flamengo Esports faziam os pagamentos da estadia dos jogadores usando suas reservas pessoais e não eram reembolsados pela Simplicity.

Uma das consequências que o atraso nos pagamentos acarretou foi em problemas com a alimentação destes atletas do Academy. De acordo com uma das fontes, em certos dias os jogadores não tinham sequer comida o suficiente e tinham que pedir para que suas mães a fizessem para que eles pudessem se alimentar.

“Descobrimos depois que o split acabou que uma mãe fez isso. Mais uma vez, os fundos estavam lá e fomos informados de que pagaríamos uma empregada e uma cozinheira para preparar a comida para a casa. Nossa equipe local nunca deveria ter deixado isso acontecer, e eles deveriam ter nos comunicado imediatamente para que pudesse ser investigado e resolvido”, rebateu Roman Franklin, sobre o tema, à reportagem.

“É por isso que estamos implementando linhas diretas de comunicação entre a gestão da Simplicity e os jogadores. São múltiplas as ocorrências em que enviamos fundos extras para jantares de comemoração ou jantares de preparação para a equipe antes de um grande jogo”, completou.

Ainda no primeiro split deste ano, o Flamengo teve um início avassalador no sistema de franquias do CBLoL, isso é inegável. No entanto, uma das fontes, assim como Goku e Djoko, viram as vitórias do Flamengo como “um milagre”. A equipe principal, que chegou a alcançar dez vitórias consecutivas durante a fase regular do CBLoL antes de perder sua primeira partida, acabou enfrentando novamente problemas de infraestrutura, pressão da torcida, problemas na gestão e também todo o estresse causado pelo técnico Pades, conforme noticiado pelo portal GloboEsporte.com.

A apuração do portal revela, por meio de declarações de membros da equipe que fizeram parte do plantel rubro-negro durante a passagem do técnico turco - que chegou ao Flamengo Esports em novembro de 2020 -, que a postura muito agressiva e ríspida adotada por Pades fazia com que o clima nos treinos ficassem muito pesados.

Uma das fontes consultadas pelo ESPN Esports Brasil revelou que a equipe teve que treinar durante todo o split com “computadores antigos” e que alguns dos membros sequer tinham uma máquina para poder trabalhar de forma efetiva. Foi então que surgiu uma parceria com a On e-Stadium, arena localizada no bairro paulistano da Aclimação. Os jogadores e técnicos treinavam e atuavam usando a estrutura da arena.

Ciente dos problemas enfrentados pela equipe por não ter uma estrutura própria, Jed Kaplan afirmou que a partir do próximo ano o Flamengo Esports terá um centro de treinamento e voltou a jogar a culpa na administração brasileira.

“Nós sabemos disso e está sendo trabalhado. Precisamos de consistência, precisamos de um lugar que seja nosso, um lugar onde as pessoas possam ir e se sentir confortáveis ​​e estamos trabalhando nisso. Nessa próxima temporada, vamos ter um lugar.”

“Eu vou esclarecer. A diferença é que agora nós [Simplicity] estamos trabalhando nisso, no passado confiamos no nosso pessoal que estava no Brasil com o Flamengo Esports para cuidar dessas coisas, mas agora estamos trabalhando nisso. No passado, quando havia problemas e não tínhamos um lugar, essa não era nossa decisão de não ter um lugar. Agora é nossa decisão de ter um lugar porque agora estamos envolvidos, estamos empurrando e fazendo acontecer”, disse Roman Franklin.

O ‘imbróglio’ Fred Tannure

Outro problema dentro do Flamengo Esports foi revelado durante o bate papo do Combo Podcast com Kakavel. O dirigente da Team oNe revelou que Fred Tannure, gerente de esports do Flamengo, ainda não havia assinado o distrato com a empresa, apesar de ter sido demitido há mais de um mês em relação ao dia em que a conversa aconteceu.

O ex-gerente do Flamengo Esports chegou à Simplicity após ser responsável pelo marketing do Flamengo e era tido como um elo entre o braço de esports e o clube de futebol. O desligamento de Tannure foi revelado às 21h do sábado 14 de agosto por meio do perfil oficial de Jed Kaplan; e às 23h do mesmo dia no do Flamengo Esports.

“Para o Djoko eu não falei para sair fora (...) pro Tannure eu falei todos os dias para pular fora. Ele me ligava e falava: ‘Eu larguei tudo por causa disso aqui [Flamengo eSports], meu filho é pequeno, o que eu vou fazer?', eu falei ‘Pula fora’. Ele falou assim: 'Eu não tô servindo de nada, tenho cargo de gestor, mas eu não posso tomar decisão, o cara [Jed Kaplan] não deixa eu tomar decisão’”, revelou Kakavel sobre conversas com Fred Tannure durante sua passagem pelo Flamengo.

À ESPN, Jed Kaplan falou sobre a saída de Fred Tannure da posição que ocupava e contou sobre o fato do ex-gerente de esports ter recebido uma proposta para continuar na empresa - a qual o ex-diretor recusou. O dirigente não entrou em detalhes sobre o distrato do profissional.

“Na verdade, o que eu escrevi foi que ele não era mais o gerente. O Fred recebeu proposta para outra posição. Ele não aceitou isso, não demitimos o Fred da Simplicity Esports, apenas o removemos de sua posição cuidando das coisas para nós no Brasil. Foi oferecido outro cargo, que, aliás, foi o cargo, pelo que eu sei, que ele ocupou no clube do Flamengo. Ele optou por não aceitar”, detalhou Jed.

Segundo Fred Tannure, ambas as partes estão trabalhando juntas para resolver este imbróglio: "Desde que a Simplicity decidiu encerrar meu contrato, estamos tratando de questões contratuais pendentes, de modo que seguimos buscando um entendimento que seja adequado para ambas as partes."

Pagamento com ações. Armadilha?

As complicações com pagamentos continuaram no Flamengo, mas desta vez com uma nova modalidade: distribuindo ações da Simplicity. A prática começou ainda durante o período inicial da pandemia causada pela COVID-19, quando Jed Kaplan passou a pagar parte do salário de muitos de seus funcionários de estafe através de ações da Simplicity Esports and Company.

Algumas das fontes consultadas pela reportagem acreditam que o esquema adotado pelo presidente da Simplicity de pagamento através de ações foi feito intencionalmente para complicar a vida daqueles que as recebiam.

“O problema delas não são as ações em si, o grande problema é que ele fez de uma maneira que é muito difícil de vender. A promessa era que se as pessoas não quisessem, podiam vendê-las e receber o dinheiro. Mas ele fez isso em um mercado secundário dos Estados Unidos, o que torna o processo de liquidação difícil de ser realizado (...) Parece que foi uma armadilha, essa é a sensação que dá”, disse uma das fontes.

Sobre o assunto, Jed Kaplan afirmou que não existem restrições das ações em estoque para que aqueles que receberam não possam vendê-las. “Não estamos impedindo ninguém de vender as ações. Eles podem não conseguir transferi-las para certas corretoras porque ainda estamos nos mercados de balcão (distribuições, compra e venda de ações realizadas fora da bolsa de valores)”, explicou o dirigente.

“Quem acredita que não pode vender suas ações é alguém que foi mal informado”, disse o CEO Roman Franklin. “E não tem nada a ver conosco, não estamos restringindo ninguém. Não há restrições para as ações de ninguém”, voltou a reiterar Jed.

Segundo essas fontes, alguns funcionários estão há tempos tentando liquidar as ações sem nenhum sucesso. “Eu acredito que, se demora mais de um ano para conseguirem resolver esse tipo de coisa, é jogo sujo“, disse uma das pessoas ouvidas.

Clima de terror no treinos? Abaxial nega

Voltando ao primeiro split de 2021, o Flamengo, sem dúvidas, começou o ano de franquias com resultados estrondosos, dominando completamente a Fase de Pontos durante muitas semanas e terminando esta em primeiro lugar da tabela.

Entretanto, além dos problemas com a infraestrutura citados acima, os atletas rubro-negros também sofreram psicologicamente devido ao método de coaching adotado por Pades, o técnico turco, que chegou à organização para aplicar um método de coaching mais rígido, recomendado pela gestão norte-americana.

“Quando a influência do estafe começou a entrar na cabeça dos jogadores, começou a declinar, sabe? O primeiro split foi algo que eu nunca vivenciei (...) Foi um nível que era bizarro, a gente estava ganhando de 10 a 0 no campeonato e os treinos estavam com clima de morte, coisa de jogador falar: ‘Eu não aguento estar aqui dentro, não quero estar aqui. Eu me sinto mal, tô sendo, sei lá, violentado psicologicamente’”, comentou Ranger durante o Combo Podcast.

“Aconteceu com o Netuno o que tinha acontecido com o Absolut antes, com o time. Todos os jogadores brasileiros em algum ponto falaram: ‘Não quero estar aqui, quero jogar no Academy, me tira. A gente não quer estar aqui’”, completou o jogador.

A apuração feita pelo ESPN Esports Brasil revelou que em diversos momentos Jed Kaplan teria coagido funcionários e ameaçado acabar com a carreira de alguns dos profissionais que já passaram ou ainda representam a organização, sendo um deles o treinador Abaxial, que aceitou falar e revelar seu nome para esta reportagem.

"Quando deixei o time, eu fui chantageado pelo Jed Kaplan. A situação era que eu não concordava com certas coisas sobre como o Pades treinava, houve uma vez que reclamei e eles não queriam saber - apenas para que fique claro, não tenho problemas com o Pades", contou Abaxial, treinador que vestiu o manto rubro-negro durante 2021.

Perguntado pela reportagem acerca das acusações da criação de um ambiente com clima de terror através de ameaças e coação, o dirigente comentou: “Isso é mil por cento falso. Nunca ameaçamos ou dissemos coisas do tipo a ninguém, seja um jogador ou um treinador, nunca fiz isso em nenhum dos meus negócios e certamente não o faria neste.”

Segundo o treinador norte-americano que chegou ao clube em dezembro de 2020, a chantagem aconteceu por conta de uma cláusula em seu contrato que deixava claro que, caso este fosse rescindido antes do período previsto, Abaxial receberia um determinado valor.

"Quando ele [Jed] decidiu me despedir, ele me ligou. Eu tinha um valor ‘x’ como taxa de rescisão em meu contrato que, se eles me cortassem do projeto antes do tempo, eu receberia esse valor. A demissão veio depois que perdemos para a paiN por 3 a 2 nos playoffs. Depois disso, teve um call entre eu, Jed e um gerenciador do time - que não vou falar quem é. O Jed falou 'Você perdeu essa semifinal sozinho. Você é literalmente a única razão pela qual a gente perdeu. Você está fora do time e não vou pagar o dinheiro da terminação no seu contrato. Se você quer esse dinheiro, vou falar pra todo mundo sobre seu comportamento aqui'”, detalhou o treinador.

“Ele disse especificamente: ‘Vamos deixar que [todos] saibam o que você fez’. Na mente dele, eu estava tentando dar uma facada nas costas do Pades quando reclamei sobre seus métodos de treinamento, queria depor [derrubar] ele ou isso ou aquilo e também que eu estava criando um problema para resolver sozinho”, explicou Abaxial.

No geral, o Flamengo Esports durante todo esse tempo sobre a gestão da Simplicity teve um clima de desordem e confusão entre as gestões norte-americana e brasileira, gerando desentendimentos entre ambas. Isso é visível ao escutar depoimentos como o de Ranger, no Combo Podcast, no qual o jogador afirmou que “não sabia quem era chefe de quem lá dentro, quem tinha mais autoridade que quem. Era uma coisa esquisita, eu reportava as coisas para um grupo de pessoas, pros brasileiros (...) mas não sei, era muito esquisito as coisas que aconteciam. Parecia que estava sempre em desordem.”

Sobre o assunto de resolução de problemas e contato com a equipe brasileira que cuidava das coisas do Flamengo Esports, Jed Kaplan declarou: “Em um certo momento, descobrimos que as pessoas [da equipe] foram avisadas para não nos contatar nos EUA. Isso não é saudável. Se somos nós quem temos que consertar um problema, como posso consertar algo que não sei que existe?”

Flamengo Esports à venda? ‘Isto é falso!’

Segundo informações obtidas pela ESPN, as coisas não param por aí. Hoje sem contar com grandes patrocinadores e uma estrutura própria, a ideia de Jed Kaplan de transformar o Flamengo eSports na “primeira equipe de esports da América Latina com projeção internacional” parece não ser algo que vá acontecer.

Durante a apuração, um relato específico foi comum entre as fontes envolvidas, que revelaram que o grupo da Simplicity “não possui o mínimo de conhecimento acerca do cenário de esports brasileiro” e que o objetivo de Jed Kaplan é focado na valorização da marca Flamengo Esports no mercado para posteriormente vendê-la.

“Existe o que a Simplicity fala e o que ela faz. Eles jogam o Flamengo pra cima, em questão de prioridade, fazem tudo como se eles quisessem investir e como se quisessem que o Flamengo vá para cima. Na realidade, o que o Jed quer é vender, ele quer que a vaga se valorize para vender depois. Isso condiz com o que acontece, tudo de mídia e de ouvir a torcida. Eles sempre colocam a torcida antes da parte competitiva, sempre”, disse uma das fontes.

Quando perguntado sobre os planos futuros da Simplicity para o Flamengo Esports e se, entre eles, existia a ideia de vender a marca em um futuro próximo, Jed Kaplan afirmou: “Não estamos procurando vendê-la, estamos nisso para o longo prazo. Amamos a Riot, achamos que a liga é muito bem administrada. Entraram em contato para comprar, mas nunca vendemos, então isso é falso. Não estamos vendendo, não está à venda.”

“Isso é cem por cento falso [...] Você pode esperar que continuemos a trabalhar com o clube de futebol para tentar expandir a marca e fazê-la crescer internacionalmente e torná-la a primeira organização de esportes eletrônicos global a sair do Brasil”, completou Roman Franklin.

Os problemas causados pela gestão Simplicity dentro do Flamengo Esports foram tão impactantes que, hoje, estes criam um fantasma na organização de que a mesma é um péssimo lugar para se trabalhar.

Um dos rumores que circulam nos bastidores, segundo uma das fontes, é o de que “ninguém quer ir para o Flamengo, todo mundo tá com medo. É bem ruim o que ele [Jed Kaplan] fez para o cenário. Ele impactou negativamente a vida de muita gente, ele atrapalhou a vida de muita gente.”

O contrato de licenciamento do Flamengo eSports com a Simplicity é válido até o final de 2022. No entanto, segundo Kakavel no Combo Podcast, a empresa norte-americana “precisa com urgência reler o contrato de licenciamento, porque as atitudes que eles estão tomando dá o poder do Flamengo quebrar o contrato”.

“Não dá para falar de cláusulas específicas, mas uma das coisas que tem dentro do contrato é comprometimento com a marca Flamengo. A partir do momento que você começa a demitir pessoas no Twitter, causar conflito e não sei o que, você começa a depreciar a marca”, completou.

Ainda segundo a apuração feita pela redação, a Riot Games já está ciente de muitos dos problemas citados acima e realizando uma investigação interna para decidir a melhor forma de lidar com a situação.

Por enquanto, após todas as polêmicas, o torcedor rubro-negro virtual segue no escuro, tentando entender como o Flamengo Esports vai se reerguer em 2022. Os dirigentes do time comentaram à reportagem do ESPN Esports Brasil que têm planos “ousados e consistentes” para o futuro do Urubu e que vão revelá-los em breve. É esperar.