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‌#GameSemPreconceito: projeto mostra a realidade das meninas nos games

Com relatos de diversas meninas e o que elas já passaram, o projeto tem a intenção de ajudar as mulheres a terem seu espaço no mundo dos games GameSemPreconceito

Nesta sexta-feira (26) começa a fase qualificatória do Circuito Feminino de Rainbow Six Siege 2021, onde todas as equipes inscritas nessa etapa disputarão as seis vagas para o torneio que distribuirá - ao longo do ano - uma premiação total de R$300 mil.

É a primeira vez que a Ubisoft aposta em uma premiação alta para o circuito feminino e isso gerou bastante murmurinho entre o cenário como um todo. O que aconteceu foi uma grande comoção em relação a alta premiação do campeonato feminino e a falta de investimento em campeonatos da Série B.

E isso só deixa escancarado o que já estamos cansados de saber: o mundo do esports ainda é muito machista e não existe solidariedade com o cenário feminino. Tendo passado por diversas situações desagradáveis de machismo dentro e fora do jogo, Gabriela “GaB” Scheffer resolveu fazer algo pelas mulheres do cenário de Rainbow Six Siege e lançou seu projeto chamado Game Sem Preconceito.

O #GameSemPreconceito é um projeto voltado para mostrar o lado das meninas dentro do cenário de R6 ou qualquer outro game, e o que realmente acontece no dia-a-dia delas. “Muitos meninos, por influência de um amigo que não tem uma índole bacana, acabam praticando atos de machismo… a ideia é que essas pessoas assistam os vídeos e se perguntem ‘e se fosse minha irmã, minha mãe… e se fosse eu? Como seria?’, sabe?”, diz GaB.

Ela também conta que a ideia para o projeto surgiu após participar de um programa chamado Força Tarefa do Rainbox Six Siege, um quadro onde eles levam jogadores e casters do cenário para conversar e, durante toda a entrevista, ela se sentiu muito desconfortável e passou por momentos constrangedores e realmente pesados com relação a xingamentos dos espectadores.

“Eu passei por uns momentos muito constrangedores, sabe? Como assédio e umas coisas bem pesadas… tanto que nem coloquei nada no vídeo sobre isso porque eram coisas realmente pesadas. Depois que aconteceu isso eu fiquei super mal e percebi que muita gente também tava criticando o que tinha acontecido, toda a questão do machismo que rolou nesse dia… aí eu pensei ‘por que não falar sobre isso?’, aproveitar esse momento e fazer algo voltado para o R6 para combater todo esse machismo, porque é algo que eu nunca tinha visto no cenário de Rainbow Six”, relembra GaB.

O projeto começou tímido e Gabriela se juntou com uma amiga jornalista para que pudessem pensar no que seria interessante trazer no primeiro momento. “Falei pra minha amiga que eu precisava de ajuda e, como ela é estudante de jornalismo, ela tinha bastante noção do que poderíamos abordar. Aí conversamos e decidimos que o primeiro passo era criar um nome e a hashtag, então criamos o #gamesempreconceito e fizemos a primeira parte do vídeo de lançamento, que é a introdução, onde contamos um pouco mais sobre a história de algumas minas nos jogos, quantas meninas jogam hoje no Brasil e essas coisas”, comenta.

“Teve várias pessoas me chamando e perguntando por que eu coloquei minha adversária (jogadora da Black Dragons) no vídeo do projeto e assim, esse projeto não é pra mim, não é algo da FURY, não é time, não é algo da Black Dragons, é para todas as mulheres, independente de serem ou não adversárias in game. É um projeto para todo o cenário feminino de R6 e também de outros jogos, claro”, ressalta GaB.

É de extrema importância que projetos como o Game Sem Preconceito da GaB tenham muita visibilidade por que, assim, ajudamos o cenário a se estabelecer - independente do jogo - e lutamos cada vez mais contra todo o machismo já enraizado nesse cenário.

O cenário feminino de R6 também precisa de alguém que olhe por ele, e quem melhor do que a Ubisoft e a própria comunidade para isso? Uma comparação do Circuito Feminino do ano passado para o de 2021 é a questão - já levantada aqui - dos prêmios. Enquanto o Circuito de 2020 premiou as meninas com periféricos ou créditos in game, o de 2021 trouxe uma esperança e brilho nos olhos maior para todas as meninas: uma alta premiação em dinheiro.

Isso é algo que GaB também comentou, “eu já tive bastante vontade de participar de campeonatos grandes de R6, campeonatos que dizem ser ‘mistos’, mas muito por causa da premiação e do nome desses campeonatos. Nossos campeonatos ainda são pequenos demais e não valorizam as meninas do jeito que deveriam… só agora a Ubisoft tá começando a investir melhor nisso”.

Cenário misto de R6: mito ou verdade?

Na teoria, todo cenário de esports deveria ser misto, é o que promete o League of Legends, Valorant, CS:GO, Rainbow Six Siege e outros games, mas na prática… ah, na prática isso fica mais difícil.

A pergunta que sempre fica: quantos times mistos existem por aí no cenário de esports? É possível contar nos dedos. “Esse negócio de time misto atualmente fica só no gogó, sabe? Por que você vê que muitos homens não colocam uma mulher sequer no time, independente da posição, analista, coach, manager ou - principalmente - player. Eu sempre falo que eu só vou acreditar mesmo em time misto quando eu realmente ver mulheres lá dentro desses times”, acrescenta GaB.

“É muito fácil falar que é misto quando você monta um time de meninas, se inscreve no campeonato e vai jogar, mas você não vê nenhuma mulher introduzida dentro do time deles, no meio de meninos, então esse também é um assunto que é delicado, muitos caras não concordam com isso e é sempre um motivo de briga. Mas a realidade é essa, atualmente, o cenário de R6 não é misto”, completa.

E é claro que as meninas querem mostrar para o que vieram e participar de campeonatos grandes, mas como fazer isso se o cenário não dá abertura? Se o que era pra ser misto vira majoritariamente masculino e cheio de preconceitos? E é por isso que o cenário precisa de mais torneios femininos.

“O meu trabalho com esse projeto é mostrar exatamente isso, sabe? O dia-a-dia das meninas aqui dentro, o que acontece com a gente in game e fora dele também. Trazer um pouco pra vida real também, não ficar só no jogo. Abordar a questão do machismo no cenário e tentar reverter - nem que seja um pouco - tudo isso”, diz GaB.