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De Aracaju aos céus: A história de Mateus Portilho, brasileiro Head de Social Media da Cloud9

Matheus Portilho, Head de Social Media da Cloud9 Divulgação

De maneira geral, no esporte e nos esports, nossos personagens principais são sempre os jogadores. Por merecimento eles são os principais protagonistas das conversas sobre uma partida seja em lives, seja em salas do Discord e - em um passado recente - em papos de bar. Mas é importante que todos entendam que no ecossistema esportivo existem pessoas e onde elas existem, e coexistem, há sempre mais histórias que merecem ser contadas.

De todas as opções disponíveis, minha rede social favorita é o Twitter e há 3 anos acompanho de longe o Head de Social Media da Cloud9. A organização, fundada pelo americano Jack Etienne, está presente em diversas modalidades e em 2018 recebeu um investimento de cinquenta milhões de dólares e foi eleita – também em 2018 – pela Forbes a empresa de esports mais valiosa do mundo. Dando voz nas redes sociais para esse time, além de uma equipe gigante e capacitada, está a pessoa que mencionei acima: Mateus Portilho.

No auge dos seus 22 anos, o Portilho vem passando por uma transição bem interessante desde que foi demitido da Immortals por um “tweet antiprofissional e fora da linha do que a organização representa”. Inclusive é aí que a história do Portilho começa na Cloud9.

Em 2017, ano em que a equipe de CSGO da Immortals, liderada por kNg, chegou à final do Major de Krakovia, mas não conseguiu chegar no horário para o primeiro mapa da final na DreamHack Montreal. Punições executadas, justificativas dadas e boatos ao vento, o canadense - já aposentado FNS – disse que a pior parte do dia foi perder a semifinal pra um time no qual 3 jogadores estavam de ressaca.

O jogo em questão foi justamente a semifinal entre CLG e Immortals, no qual a IMT venceu por dois mapas a zero com um desempenho fora da caixinha de kNg na Inferno. Respondendo ao tweet, o “crazy dog” brasileiro respondeu abertamente na rede social para FNS “Prove it or I kill you”. A resposta, interpretada por alguns como uma provocação devido ao último mapa do confronto, gerou polêmica na comunidade norte-americana e acabou por resultar no desligamento do jogador brasileiro.

Alguns dias depois, Portilho, em resposta a Gabriel Fallen, usando o perfil da organização fez alusão ao ocorrido e foi demitido. Resultando no eterno meme que gerou sua demissão.

"Quando eu fiz o tweet o Noah me chamou pro escritório da Immortals, na hora eu estava na casa do time de League of Legends. Quando cheguei lá estavam ele e meu chefe. Durante a reunião o Noah me disse que aquela tinha sido minha terceira falha e por isso eu estava sendo demitido e que eu deveria arrumar minhas coisas em dois dias, pois iriam comprar uma passagem pra que eu pudesse voltar pro Brasil. Na hora acabei chorando, saí da sala e fui direto pra minha mesa recolher minhas coisas e minha bandeira do Brasil que sempre fica comigo. Honestamente, foi meio humilhante como tudo aconteceu", conta Matheus.

Em casa, Portilho fez um texto público se desculpando e, após alguns minutos, recebeu inúmeros convites para testes e trabalhos. O primeiro deles do próprio fundador da Cloud9, Jack Etienne. “Deu uns 20 ou 30 minutos e o Jack me ligou oferecendo uma proposta pra fazer um teste na C9 durante o mundial de LoL no qual eles iriam enfrentar a Team one. A primeira coisa que eu fiz foi mandar uma mensagem pro [jornalista] Roque Marques, porque a gente conversava muito e a opinião dele me ajudou. Logo depois, várias outras equipes começaram a me mandar propostas. Na hora fiquei feliz, mas fiquei em choque porque de qualquer forma eu ia ter que voltar pra casa".

De volta a Aracaju, ainda sem avisar sua família, Portilho apareceu na casa dos seus pais, Cecília e Armando. "Cheguei com minhas malas e um teclado e minha mãe perguntou ‘O que aconteceu Mateuzinho?’. Expliquei toda a situação, meu pai ficou nervoso com o Noah, começou a chorar na minha frente, mas expliquei que os erros foram meus e que a responsabilidade era minha".

E foi justamente depois da conversa com sua família e a explicação sobre o novo emprego que as coisas mudaram. “A partir desse momento minha família me apoiou e em fevereiro de 2018 fui novamente para os Estados Unidos. Eles me deram total suporte e principalmente confiança. Eu senti que não só tinha superado meus erros, como estava mais preparado por ter passado pelo que passei e por ter minha família apoiando, dessa vez, incondicionalmente”.

Finalmente, nas nuvens!

Depois de aceitar a proposta de teste na C9, Portilho ficou oito meses trabalhando com o time da Overwatch League de Jack, London Spitfire, até finalmente começar a cuidar de posts e estratégia da conta oficial da equipe.

"Quando entrei na Cloud9, no início de 2018, fiquei trabalhando muito na Spitfire e toda vez que eu tinha ideias pro perfil da Cloud9 precisava pedir permissão. E quando acabou a temporada na Overwatch League, o Jack falou que gostaria que eu ficasse mais focado na Cloud9 porque ele, especificamente, estava gostando do que eu estava fazendo. Foi um processo de aceitação difícil. Minha gerente sempre estava com o pé atrás comigo devido ao meu histórico. Só em agosto de 2018 eu consegui ter, de fato, uma liberdade. Mesmo assim só consegui mesmo trabalhar de maneira mais livre quando as pessoas que não confiavam muito em mim saíram. Então foi um processo, primeiro o de ganhar liberdade e só depois o de me sentir de fato livre e com autonomia”.

Mesmo tendo retomado a confiança em seu trabalho - e principalmente em si mesmo -, o brasileirinho de Aracaju, teve muita ajuda do time. Claramente, Jack Ettiene foi e é uma das principais pessoas a apoiar o Portilho, mas, segundo ele, outras pessoas também o acolheram muito bem, pessoalmente e profissionalmente. “O Jack confia em mim e me apoia bastante, claro, mas além do Jack eu devo muito a outras pessoas, principalmente a Alyeska, ao Linku e o Dom Gardner, que é um dos meus melhores amigos, e até a minha chefe da época de Immortals a Rachael Barisich. Todos eles tiveram um papel muito importante pra mim, não só pelo suporte, parceria e confiança profissional, mas também no aspecto pessoal”.

Com liberdade e autonomia conquistadas dentro da empresa, o próximo passo obviamente foi o de conquistar a torcida da equipe.

“A reação do público, quando percebeu que a Cloud9 estava mais divertida comigo e com o Linku no comando, foi muito boa. O público percebeu que a gente tava tendo de fato um conteúdo mais proprietário. Antes era algo mais focado em patrocinadores. Então a gente definiu toda uma estratégia de uma persona mais “trollzinha”, mas que também tivesse seriedade para abarcar os patrocinadores. O resultado foi uma mescla entre muito do que a Cloud9 já era e queria como marca e clube, com o que a gente achava que seria bem recebido pelo público. Não foi algo da noite pro dia, foi um processo, mas deu muito certo”.

Não à toa, há pouco tempo a Cloud9 chegou a marca de um milhão de seguidores no twitter, feito que nos Estados Unidos foi alcançado apenas por TSM e Faze Clan. Na Europa por Fnatic e G2. E no Brasil, por ninguém. Além disso, o sucesso da estratégia deu ao Portilho ainda mais segurança pra voltar a arriscar seu emprego com tweets totalmente “antiprofissionais”.

No dia 3 de novembro, logo quando as contagens da eleição norte-americana haviam começado, Donald Trump se encontrava a frente de Joseph Biden e Portilho teve mais uma ideia. E publicou esse tweet:

Dando um contexto: a Cloud9 é conhecida por conseguir virar situações complicadas em confrontos melhores de cinco, ou seja, estar perdendo por duas partidas e virar o confronto para um 3-2 (um reverse sweep). E isso já virou um meme do time e seus torcedores. Então, toda vez que a intenção é dar uma “zicada” eles fazem essa brincadeira de já dar a vitória do adversário como certa.

“Na hora que tive a ideia mandei uma mensagem pro Jack (dono da equipe). Ele disse que eu tinha que fazer aquele post e que se a coisa saísse do controle a culpa seria totalmente dele. Mesmo confiando muito no Jack, naquele momento fiquei meio ansioso, a situação disparou um gatilho em mim - acho que ainda tenho um pouco de trauma de tudo o que rolou na Immortals. Bom, o Jack autorizou, eu fiz a postagem e de fato muita gente lembrou do episódio da Immortals, mas dessa vez eu tinha total apoio da organização que represento”.

A postagem hoje tem cerca de vinte mil curtidas, mais de mil comentários e mil retweets. A Cloud9 foi a única equipe de Esports da LCS a de alguma forma utilizar o momento eleitoral americano para produzir conteúdo e se posicionar. Concordando ou não com a postagem, a C9 foi a única equipe com coragem para abordar o assunto e com inteligência suficiente ao utilizar um meme da própria equipe. O post de fato foi um sucesso e o Portilho, continua empregado.

Social media merece respeito

No Brasil existe um meme que coloca a culpa no estagiário por todo tipo de erro ou postagens mais descontraídas e “diferentonas”. E é justamente essa a próxima barreira que Mateus quer ajudar a desmistificar e derrubar principalmente no Brasil.

"Social Media é um trabalho novo e muita gente, principalmente aqueles que não trabalham com marca e comunicação, acham que é um trabalho irrelevante feito pelo filho do chefe, primo do chefe ou até mesmo o estagiário. Eu tenho certeza que ao longo dos anos esse vai ser considerado um trabalho muito importante e acho que as pessoas que trabalham com o que eu trabalho não podem se deixar ser desrespeitadas. O papel do social media é alavancar a marca, no meu caso a equipe e os jogadores. Então o social media é uma função ligada a marketing que visa aumentar alcance e relevância. É um papel de extrema importância, a gente acaba sendo a voz diária da empresa ou da marca. Como é que as pessoas podem achar que um trabalho desses é feito apenas pelo estagiário sabe”.

"O papel do social media é alavancar a marca, no meu caso a equipe e os jogadores" Mateus Portilho, head de Social Media na Cloud9

Nos últimos meses Portilho vem participando de palestras e até mesmo dando aulas sobre a sua profissão e ajudando a desmistificar muitas das coisas que acreditam ocorrer no dia a dia da profissão. Hoje, acho, que ele representa o que o Brasil e o mundo tem de melhor no mercado de esports quando o assunto é a construção de uma marca relevante com engajamento nas redes sociais, especificamente no League of Legends.

E justamente por isso essa é uma das grandes histórias a serem contadas, observadas e estudadas. Em 2020 o sistema de franquias chega ao Brasil e nada melhor do que uma história de sucesso pra mostrar aos nossos profissional de social dos nossos times que eles terão ainda mais importância na construção de marcas sólidas!