<
>

Pelo R6, Ar7hur abre caminho para técnicos brasileiros no exterior: 'Quebrei essa barreira'

play
"O Brasil ter vencido um campeonato mundial, mostra que o cenário é consolidado", diz diretor de Rainbow 6 (4:45)

Ao ESPN Esports, o responsável pela marca do jogo, Alexandre Remy, revelou que a Ubisoft tem planos de voltar a promover torneios no País e como a empresa enxerga o cenário nacional (4:45)

Livre no mercado desde a saída conturbada da equipe de Rainbow Six Siege da Nora Rengo, o técnico Ar7hur se vê em condições de, definitivamente, trilhar uma carreira internacional pela categoria.

Aberto a equipes de qualquer região, o brasileiro não esconde o desejo de fazer história no exterior - ainda mais tendo em vista os cenários de América do Norte e Europa.

Mesmo com poucos anos de competitivo, Ar7hur já tem uma bagagem boa nas costas: são trabalhos pela japonesa Nora-Renga e, antes, pela brasileira Ninjas in Pyjamas.

“A soma da minha experiência nos dois times é sim suficiente para eu trabalhar com uma equipe de ponta de qualquer região. Acho que consigo contribuir sem nenhuma dúvida”, disse em entrevista exclusiva ao ESPN Esports Brasil.

E não se trata de um discurso descolado da realidade não. O treinador tem seu argumento. “A gente vê muitas vezes lá fora técnicos com pouquíssima experiência em times de ponta na Europa e na América do Norte, então eu acho que é só questão de tempo.”

Primeiro brasileiro a atuar em um time fora do Brasil, Ar7hur acredita que sua história até aqui serviu para quebrar barreiras de preconceito com profissionais do país lá no exterior. Mas ele pontuou isso em duas perspectivas.

“Em relação ao cenário brasileiro, aos profissionais brasileiros, sim, acho que quebrei essa barreira de uma certa maneira porque a grande maioria não está assim tão confortável para trabalhar só com o inglês”, contextualizou sobre ser referência para outros compatriotas se arriscarem fora do país.

“Mas acho que mundialmente é difícil”, comentou pela perspectiva do olhar estrangeiro para o Brasil. “Se você ver o que os principais nomes de R6 falam em relação às regiões, eles estão sempre colocando o Brasil, a LATAM, como terceira região. E Ásia-Pacífico como quarta.”

“Então eu só quebrei essa barreira até um certo ponto. Talvez aos olhos de times da Europa e da América do Norte eu só trabalhei nas regiões 3 e 4, então, pra maioria dos times lá de fora, eu tenho mais a provar.”

Situação, porém, encarada sem ansiedade por Ar7hur. “É uma questão de oportunidade, independente da onde eu for trabalhar agora. É fazer um bom trabalho para que esses times lá de fora possam me ver como um técnico mais experiente, que vai estar apto a trabalhar em outros times de ponta aqui no Brasil e na Ásia.”

E falando sobre trabalho, Ar7hur comentou que até o momento recebeu sondagens de times do exterior apenas. Conversas sobre valor, mas tudo de forma inicial ainda. Sondagens. Ainda assim, se pudesse escolher em qual circuito atuaria como técnico, ele surpreendeu na resposta de certa forma. “Continuaria na Ásia.”

NORA, KIZOKU, R6 JAPONÊS E ZICO

O desejo de Ar7hur em seguir na Ásia não é por acaso. “Eu realmente gostei da experiência, gostei muito dos fãs e da maneira dos times trabalharem. Muita disciplina, muita disciplina mesmo.”

“Não queria ter saído tão cedo, ainda mais dessa maneira”, lamentou ao referenciar as polêmicas envolvendo a Nora-Rengo. “Então gostaria sim de uma nova oportunidade na Ásia, talvez um time coreano ou até mesmo japonês. Acho que o R6 de lá tem tudo pra ser topo do mundo.”

Sobre a Nora, o técnico comentou algumas coisas que havia deixado de fora do seu comunicado oficial de desligamento. “Outras lines, de outros jogos, de Valorant, estavam fazendo essa reclamação [salários atrasados]. Denúncias sobre até prêmios não pagos, que o dinheiro das skins, do programa piloto do R6, também não estava chegando. Essa parte eu não sei como comentar porque é relacionado com os jogadores.”

A Nora-Rengo virou manchete por conta de problemas financeiros envolvendo o dono kizoku, até então visto como uma das figuras mais carismáticas do R6 internacional.

Quando houve o vazamento na imprensa estrangeira sobre a falta de pagamentos, kizoku sumiu do radar. “ Eu fui tentando entrar em contato com ele, ele foi me respondendo cada vez menos.”

“Tentei falar com ele por meio do nosso manager e também pelo novo administrador que a Nora escolheu pra substituir e eu vi que não conseguiria resolver isso. Ele estava enrolando o manager, o novo administrador e me enrolando ao mesmo tempo. Não vejo mais futuro no time, infelizmente”, lamentou.

ROTINA DO OUTRO LADO DO MUNDO

Contratado em janeiro pela Nora-Rengo, Ar7hur trabalhava no Brasil mesmo. A saída dele da NiP até então se deu muito por motivos familiares: o treinador precisava permanecer junto aos seus parentes em Juiz de Fora, Minas Gerais, o que impossibilitava trabalhar no modelo de gaming house.

Com a Nora, ele pôde atuar de forma remota. Mas e o fuso-horário de trabalhar com uma organização que está sediada no outro lado do mundo?

“A parte da rotina era tranquila porque a maior parte dos treinos, assim como no Brasil, é na parte da noite. Então começava oito, por aí, e ia até uma da manhã lá. O que pra mim é nove até uma da tarde. Então eu estava trabalhando na maior parte da manhã”, contextualizou.

“Algumas vezes a gente tinha jogos contra [times] japoneses que aconteciam durante a madrugada, mas essa coisa de fuso-horário, que muita gente me pergunta, era tranquilo.”

Ar7hur também detalhou como era o dia a dia com o elenco da Nora-Rengo e os desafios de se comunicar com eles. A conversa era sempre em inglês. No início, a organização disponibilizou tradutores, mas o investimento não foi pra frente.

“O trabalho estava demorando pra chegar”, explicou. “Depois que entraram SouLBoi e Simotuki, eles têm um inglês melhor, então eu falava direto com o time mesmo. Tentava traduzir o máximo de coisas possível, fazia vídeos para eles tentando deixar tudo bem explicado, e a gente conseguia se entender bem. O time estava tendo uma melhora nesses últimos dois meses.”

Falando sobre melhora, Ar7hur foi questionado sobre o baixo desempenho da Nora em 2020. “Não foi o que a gente esperava”, admitiu sem rodeios.

“Foi um ano extremamente turbulento para o time. Quando entrei no início do ano, a gente já teve uma mudança de line imediata, que já estava programada antes mesmo de eu entrar.”

As turbulências, segundo Ar7hur, também se deram por conta de uma relação difícil com o próprio kizoku. “Alguns jogadores tinham dificuldade de lidar com ele”, pincelou.

E o técnico precisou lidar com uma bola de neve. Em função da troca geral de elenco pouco antes do início do novo competitivo global estabelecido pela Ubisoft, ele já teve pouco tempo de trabalho. Essa inconstância no elenco se deu em outros momentos, por questões médicas ou técnicas.

Alterações que comprometeram o trabalho como um todo. “A gente ficou nesse alto e baixo, sabe? A gente não conseguiu manter uma consistência infelizmente.”

ESTILO DE JOGO JAPONÊS

“É um estilo de jogo muito mais agressivo”, resumiu Ar7hur quando questionado sobre o meta japonês. “É uma região que está sempre buscando a trocação. É uma região muito mais agressiva do que a região LATAM, aqui do Brasil. Alguns times tem cinco jogadores que os cinco são fraggers, são jogadores agressivos. E isso é uma coisa um pouco difícil de você substituir peças, mudar funções.”

“Todo mundo quer jogar muito agressivo, então teve um trabalho muito grande da minha parte em passar para eles um lado mais tático. Era algo que faltava na Nora e falta na maioria dos times asiáticos, mas também é muito interessante de ver. É um meta que você vai ver muitos operadores agressivos.”

Dessa forma, como explicou o treinador, é muito comum ver operadores como Finka, Montagne e Lion nas partidas por lá. “É muito divertido de ver, mas é uma região que ainda precisa crescer taticamente.”

RELAÇÃO COM BRASIL E ZICO

Apreciador de futebol e fã de Super Campeões, Ar7hur comentou que sua experiência pela Nora-Rengo não chegou a ter nenhuma comparação com a forma como o Japão trata o futebol brasileiro.

Estamos falando de um país que tem Zico como um dos grandes ídolos. Mas Ar7hur foi Ar7hur mesmo. Ele não chegou a ser chamado de Zico do R6. “Queria eu, imagina?”, respondeu em meio a gargalhadas.

O prestígio com Ar7hur se deu de outra forma. “Não chegou a ter essas comparações em relação ao futebol, mas muito se falava por ter trabalhado na NiP. Foi a primeira vez que um time japonês contratou um técnico de fora.”

“Muito se falava disso, sobre a expectativa se o time iria melhorar com um técnico de outra nacionalidade. Os fãs japoneses estavam sempre muito empolgados e eram carinhosos”, relatou.

Ainda assim, é possível traçar um paralelo da experiência de Ar7hur na Nora-Renga com o futebol. No Japão, os técnicos brasileiros fizeram história. E até mesmo pela marginalização que LATAM e APAC sofrem diante de América do Norte e Europa, ele entende que é possível que países como o Japão virem a nova casa de treinadores do Brasil.

É o “efeito” Zico.

“Acho que isso faz todo o sentido até porque a região da Ásia-Pacífico vê a nossa região, o Brasil especialmente, como Tier-1. Eles lá não têm esse preconceito, eles sabem que a região deles, no momento, é ainda a que precisa se desenvolver mais. Então pra eles, dar uma oportunidade para um técnico como eu é algo que eles consideram muito a frente do momento que eles estão agora.”

“E não só eu”, ressaltou. “Eles têm também o GiG, coach da Giants que é britânico. Então eles estão dando chances para técnicos de fora porque, pra eles, é muito bom. Eles pegam técnicos que já têm experiência em regiões mais desenvolvidas e que podem colaborar para o desenvolvimento deles.”

Por fim, Ar7hur não não esqueceu das suas raízes não. Trabalhar no Brasil é sempre uma opção, mas, hoje, pelas questões familiares, precisaria ser em um esquema remoto.

“Eu não descarto o cenário brasileiro não. A grande maioria está vivendo em GH lá em São Paulo e isso, no momento, estou descartando. Meu foco seria em um trabalho online como analista ou segundo coach. Mas não descarto não.”