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Após polêmica com NEOM, Riot Games estabelecerá comitê de ética e conselho de negócios globais

A Riot Games estabelecerá um conselho global de negócios e um comitê de ética após a controvérsia interna e externa em torno de uma parceria anteriormente firmada com a NEOM, empreendimento urbano apoiado pelo estado da Arábia Saudita, disse a empresa a funcionários em uma teleconferência na quinta-feira (6).

O estabelecimento do conselho de negócios globais virá com um novo rastreador de negócios interno que fornecerá transparência em toda a empresa para todo o desenvolvimento de negócios e acordos de patrocínio que ocorram nas operações globais da Riot. O conselho contará com representantes da equipe global de esports, da divisão de impacto social da Riot, a Karma, e suas equipes jurídicas e de diversidade e inclusão. O conselho responderá ao vice-presidente sênior da Riot, Mark Sottosanti, e ao chefe de desenvolvimento corporativo e de negócios, Brian Cho.

"A intenção é que todos nós tenhamos voz para levantar uma bandeira e que isso seja seguido", disse o presidente da Riot, Dylan Jadeja, aos funcionários na ligação. “Essa equipe, esse departamento, também será responsável por formalizar e reforçar o processo de avaliação do negócio”.

O comitê de ética separado surge após a empresa consultar seu conselho de diretores e consultores externos. Jadeja disse aos funcionários que o comitê estará envolvido na avaliação de negócios, discutindo a direção e filosofia da empresa e avaliando os relacionamentos que a empresa mantém com parceiros globais, incluindo os países em que opera.

"Não comentaremos os detalhes de uma conversa interna", disse o porta-voz da Riot, Joe Hixson, em um comunicado na quinta-feira. "Estamos em processo de reavaliação de nossos processos internos para garantir que nada como isso aconteça novamente."

Em 29 de julho, o Campeonato Europeu de League of Legends (League of Legends European Championship, LEC) anunciou uma parceria com a NEOM, uma cidade futurística de $500 bilhões no Oriente Médio, apoiada pela Arábia Saudita e supervisionada pelo príncipe herdeiro saudita Mohammad Bin Salman.

Em poucas horas, comentaristas e outros funcionários da Riot ameaçaram boicotar a transmissão até que o negócio fosse cancelado, citando preocupações sobre o tratamento da Arábia Saudita a LGBTs. Na Arábia Saudita, que segue a lei islâmica Sharia, é ilegal ser gay ou transgênero. A punição inclui multas, chicotadas públicas, castração e várias formas de prisão, de acordo com um relatório do The Guardian. A Riot cancelou o acordo NEOM 16 horas após seu anúncio.

Na ligação de quinta-feira, o CEO da Riot, Nicolo Laurent, e membros de sua equipe executiva se desculparam pelas falhas na comunicação e no processo que fizeram com que muitos Rioters em todo o mundo se sentissem chateados e silenciados. Laurent também reafirmou seu desejo de impulsionar a presença da Riot em todo o mundo, incluindo na Arábia Saudita e no Oriente Médio, e descreveu o processo em que o acordo NEOM foi construído.

Laurent também discutiu a importância da Riot trabalhar com entidades governamentais, citando seu relacionamento com o governo chinês como a principal razão para que ela seja capaz de realizar o Campeonato Mundial de League of Legends de 2020 em uma bolha, semelhante à NBA e NHL, em Xangai, apesar da pandemia de coronavírus.

Um potencial acordo entre a NEOM e a Riot foi apresentado pela Lagardère Sports and Entertainment, a agência francesa responsável pelo patrocínio e vendas da LEC. A partir daí, a equipe interna de desenvolvimento de negócios da Riot na Europa, Oriente Médio e África avaliou o negócio e seguiu em frente.

Neste processo, um e-mail foi enviado para Laurent e vários executivos, mas nenhum deles aprovou ou reprovou, levando a equipe de desenvolvimento de negócios responsável a acreditar que não havia problema em prosseguir. Na chamada, Laurent destacou que a equipe global de esports - liderada pelo chefe do departamento Jon Needham em Los Angeles - não tinha poder de veto sobre a decisão, algo que a Riot espera consertar com o estabelecimento de seu novo conselho de negócios.

Funcionários e comentaristas da LEC foram notificados menos de 24 horas antes do anúncio do acordo NEOM. Quando anunciado, quase todo o elenco — incluindo os veteranos Quickshot e Sjokz e a analista Froskurinn, que é lésbica — se manifestaram contra o acordo nas redes sociais, declarando que se sentiram decepcionados e traídos.

"É decepcionante porque esta é a LEC", escreveu Froskurinn no Twitter. "É minha equipe, meu produto, meus gerentes, meu escritório. Minha família. Minha casa. Não é alguém longe em uma sede que eu não conheço. É devastador porque eu conheço quem fez essas escolhas e me sinto silenciada.”

Na ligação de quinta-feira, Laurent, a diretora de diversidade Angela Roseboro e a diretora de recursos humanos Emily Winkle falaram sobre o sentimento interno que foi ecoado pelo elenco da LEC. Na semana passada, a Riot realizou uma série de sessões de perguntas e respostas no dia em que o acordo foi anunciado, bem como uma sessão Unplugged com a liderança no dia seguinte ao cancelamento. Laurent disse que a equipe executiva veio despreparada para a sessão Unplugged da semana passada, o que deixou muitos Rioters desapontados.

Roseboro e Winkle falaram sobre serem capazes de aprender com esses momentos e garantir que todas as vozes dentro da Riot sejam ouvidas. Winkle e Roseboro foram recrutados para a Riot no final de 2018 e início de 2019 após um relatório do Kotaku que expôs publicamente uma cultura interna da Riot de misoginia e comportamento impróprio em relação aos funcionários. Winkle trabalhou anteriormente na Caruso, uma empresa imobiliária, bem como na Caesars Entertainment e na Activision Blizzard. Roseboro trabalhou no Dropbox por mais de um ano em diversidade e inclusão, função pela qual agora é responsável na Riot.

*Originalmente publicado no ESPN Esports