<
>

Análise: Com F1 2020, até o piloto mais novato não queima na largada

play
Zanardi relembra relação com Ayrton Senna: 'Foi um grande modelo pra mim' (1:27)

Ex-piloto da Fórmula 1 e atualmente competindo no paraciclismo é o convidado do Bola da Vez de Casa deste sábado, às 22h00 na ESPN Brasil (1:27)

Em meio a tantas impressões e opiniões que o jogo “F1 2020” vem gerando nas redes sociais, achei nada mais justo do que assumir o meu lugar de fala como um “não-jogador” de simuladores de corrida para esta análise aqui no ESPN Esports Brasil.

Para ser bem honesto, eu não acelerava pelas pistas virtuais de Fórmula 1 desde o “F1 2012”. Trata-se de uma categoria que sempre gostei, mas nunca tive muita paciência para assistir. Relação contraditória, eu sei, mas que aposto que muitos de vocês também se familiarizam.

Então já encarei meu retorno aos autódromos virtuais com o mais novo título da Codemasters de forma muito nostálgica. Não escondia para os meus colegas de redação a empolgação em voltar a correr com um carro de F1. E deu bom!

A introdução deste minha análise não é por acaso: “F1 2020” consegue atrair novos públicos - ou aqueles perdidos pelo meio do caminho, como eu - e, ainda assim, acolhe o fã de carteirinha da franquia.

Antes mesmo de eu detalhar minha experiência com os modos de jogo, é preciso trazer o componente (termo FUNDAMENTAL para o jogo; você entenderá depois) principal deste texto de análise.

Exatamente para atrair novos jogadores, a Codemasters se preocupou em desenvolver dois estilos de direção. Antes de iniciar qualquer modo offline, é possível escolher uma direção padrão - que tem as mesmas mecânicas das edições anteriores - ou então uma direção mais acessível. Se você está iniciando sua jornada pelo automobilismo virtual, ou se está retornando à franquia após anos igual eu, a segunda opção é a única possível. Pelos menos para os primeiros contatos com o jogo.

O mais fundamental para um simulador de corrida é que você tenha uma experiência agradável. Assumir isso é, sem vergonha nenhuma, pilotar aquele W11 lindão da Mercedes com todas as assistências habilitadas. Dessa forma, o game te permite a focar apenas nas corridas enquanto cuida de todos os outros processos e dificuldades que aparecem pela frente.

As diferenças são significativas, principalmente em uma saída de curva ou então quando escapamos da pista e rodamos com o pneu fora do asfalto. Sem as assistências, pelo menos nesse contato inicial com o “F1 2020”, você desistiria do jogo logo na primeira corrida - talvez até mesmo na primeira curva.

É um ponto de acerto fundamental para uma franquia que tem a missão de lançar um título novo a cada ano. De certa forma, é também abocanhar parcela significativa de um público que não dava atenção para a série antes de entrarmos para a próxima geração de consoles - e converter esse pessoal para os futuros PlayStation 5 e Xbox Series X.

CARREIRA DE PILOTO

Tendo controle das pistas, o próximo passo é se aventurar nos modos disponíveis do jogo. “F1 2020” tem uma proposta muito claro nas corridas offline: é você ser desafiado a ter uma carreira de sucesso na elite do automobilismo virtual.

Com isso, você é convidado a criar a sua versão digital como piloto - e que será usada tanto para os modos Carreira e Minha Equipe (ou My Team). Por mais que a grande novidade da edição 2020 esteja na chegada do Minha Equipe, no qual você é dono e piloto de uma escuderia, meu primeiro passo com o título em mãos foi matar a saudade dos tempos de Carreira ainda pelo PlayStation 2.

Novidade que já estava presente no “F1 2019”, aqui é possível iniciar sua carreira como piloto de F1 atuando primeiramente pelo pelotão de acesso da F2. É possível correr algumas poucas corridas ou então uma temporada completa para você somar pontos e tentar a sorte na elite.

Só achei frustrante que, mesmo acabando em segundo lugar da classificação geral, o que de fato é atrair os olhos das principais equipes da F1, eu pudesse assinar sem grandes problemas com a Mercedes - e simplesmente deixar Hamilton ou Bottas de fora da temporada. Como gosto de inventar histórias enquanto me divirto no videogame, achei mais coerente começar na saudosa - porém melancólica - Williams.

Fiz uma temporada de 10 corridas, até mesmo para dar conta de experimentar os outros modos antes da publicação desta análise, e é uma experiência muito deliciosa. Deliciosa, porém, exaustiva.

Caso você se comprometa a contemplar todos os estágios antes de partir para a corrida oficial, a jornada será desafiadora já que são três sessões de treinos livres, uma etapa classificatória e, por fim, a corrida em si. Ou seja, um GP completo te exige pelo menos 1h30 de dedicação que, óbvio, não precisam ser jogadas sequencialmente - e ainda é possível simular os treinos livres.

O bacana, até mesmo voltando para a perspectiva do jogador casual, é que “F1 2020” te prende com desafios durante os treinos livres. Enquanto você se familiariza com o traçado, você soma pontos de experiência fundamentais para aprimorar o seu carro ao longo da temporada - e não tem satisfação melhor do que sentir a melhora do possante ao decorrer dos Grandes Prêmios.

Único ponto que achei pouco didático foi na parte de componentes. O carro conta com alguns setores que englobam o motor. A medida que a temporada passa, os componentes se desgastam. Achei essa parte “orgânica, mas não muito” se assim posso dizer. Depois de um tempo, compreendi melhor sobre quais componentes e quando precisava alterar.

Em uma escuderia menor, inclusive, isso se passa a ser uma missão mais árdua do que correr propriamente nas pistas. Se você vai no modo automático, sem correr atrás de vídeos no YouTube ou dicas de amigos, o cenário passa a ficar mais entendível sim - mas arrisco dizer que com as chances de você arruinar uma temporada inteira exatamente por estar usando ela como laboratório para compreender melhor como funciona essa parte de funcionamento do carro.

Antes tarde do que nunca, porém… Eu sugiro que você se atente bem a esses “bastidores” que “F1 2020” oferece na administração do seu próprio carro, senão você pode acabar se dando mal como eu…

Se vale outro ponto de frustração com a minha experiência em “F1 2020” no modo Carreira: é muito decepcionante que, mesmo eu tendo somado apenas 8 pontos na classificação geral do campeonato, eu pudesse assinar com a Mercedes ou então com a Ferrari mesmo não sendo nem de longe um dos pilotos de destaque da temporada. Optei em renovar com a Williams, era o que a minha consciência me permitia.

O modo Minha Equipe não será tão diferente na prática quanto ao do Carreira. A questão é que os bastidores ficam ainda mais importantes. Como dono da equipe, você é levado a tomar decisões administrativas que impactarão no sucesso ou fracasso naquela temporada. Com pouco dinheiro de início, não dá para se ter o melhor piloto e um dos melhores pilotos.

Paciência e sabedoria serão ainda mais necessários para você administrar a equipe enquanto também se preocupa em correr. Inclusive, o painel de menu do modo conta com mais detalhes relevantes do cenário automobilístico - como status de todos os pilotos, seja da F1 ou então da F2 - do que no modo Carreira. E eu senti que o mesmo poderia ter sido adotado para os dois modos.

Não é exagero nenhum falar que o Minha Equipe é um Carreira mais turbinado, então, passada minha experiência com ele, faço as mesmas considerações que fiz nos parágrafos acima. Mas confesso que não é um modo que me atrai muito, uma vez que o conflito de interesses está explicitamente escancarado já que você é o dono da equipe!

DETALHES QUE IMPORTAM

Falar de “F1 2020” é contemplar os detalhes que tornam o título um jogo muito gostoso - de ser jogado ou até mesmo assistido apenas. A diferença está nos detalhes. É possível sentir o “ronco” diferente de cada motor, sendo que até mesmo o mais leigo de Fórmula 1 conseguirá ouvir a diferença de um motor Honda para um da Mercedes.

A edição deste ano ainda permite que você jogue no multiplayer local, ou seja, o velho e famoso tela dividida. Modo que estava ausente na franquia há alguns anos, ele volta em boa hora quando, novamente reforço, o game se preocupa em acolher o jogador mais casual possível.

VALE A PENA?

Precisando se reinventar ainda mais, “F1 2020” consegue dar fôlego para a franquia com adições que abraçam principalmente um novo público, mas sem deixar o fã de carteirinha insatisfeito. Como jogador casual que não botava as mãos na franquia desde 2012, vejo como um grande entretenimento em tempos de quarentena.

“F1 2020” consegue tirar o seu melhor e, a cada corrida, você fica cada vez mais entretido com o jogo. Mesmo que possa demorar para entender um pouco a dinâmica dos componentes do seu carro, é um game que apresenta uma curva de aprendizado bem gratificante. É recompensador ter maior autonomia do próprio carro e também das pistas.

É um jogo responsivo e que, no tempo certo, você vai moldando ao seu jeito. Com “F1 2020”, você não precisa queimar a largada.