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Por que o torneio de Smash da Evo Japan pode premiar só um controle ao vencedor

Super Smash Bros. Ultimate foi lançado para o Nintendo Switch em dezembro de 2018. Divulgação/Nintendo

Quase 3 mil pessoas estão inscritas para o torneio de Super Smash Bros. Ultimate na Evo Japan, que acontece neste final de semana. O interesse foi tão grande que a organização do evento precisou limitar o número de inscritos. Mesmo assim, pode ser que o grande vencedor receba apenas uma edição especial do controle Switch Pro como premiação.

Sim, é isso mesmo que você leu: um controle.

O fato ganhou repercussão nesta semana após a publicação de um tweet que mostrava a premiação dos torneios divulgada pelo site oficial da Evo Japan. Enquanto o primeiro lugar de Street Fighter V e Tekken 7 pode embolsar 1 milhão de ienes — aproximadamente 38 mil reais — o campeão de Super Smash vai receber “um Nintendo Switch Pro Controller (com uma marca dourada de Smash)”.

Soa absurdo, mas isso não faz o fato ser menos possível — e como principais motivos estão as leis japonesas em relação a premiações e apostas e a falta de interesse da Nintendo em prestigiar os esports.

ESPORTS NO JAPÃO

Já se perguntou porque existem tantos torneios na China e na Coreia do Sul, mas poucos no Japão? Não é apenas falta de interesse das empresas em levar torneios para o país, mas a própria legislação japonesa que causa alguns obstáculos.

No Japão, existe uma legislação centenária que restringe a prática de apostas. Um exemplo é a interpretação de um código penal de 1882, confirmado pela Suprema Corte em 1950, que impede que a taxa de inscrição/entrada em competições de qualquer tipo sejam usadas como premiação — diga-se de passagem, o modo mais conhecido de angariar premiação para torneios de jogos de luta.

Entre o fim da década de 70 e o início da década de 80, quando os videogames começavam a aparecer cada vez mais, a Yakuza instalou máquinas virtuais de poker voltadas para apostas. Eis que, em seu intuito de ir atrás da organização criminosa, a legislação japonesa acabou incluindo os videogames na lista de proibições relacionadas a apostas, e isso continua até hoje.

Assim, nenhum torneio de jogos ou esporte eletrônico pode premiar mais que 100 mil ienes — aproximadamente 3,8 mil reais. Imagine fazer um major e dar apenas 3,8 mil reais de premiação para o primeiro lugar? Algo impensável quando o campeão do CBLoL, por exemplo, recebe 70 mil reais, não é?

Bom, mas existe uma liga japonesa de League of Legends. E também há alguns torneios acontecendo por lá. E a premiação da EVO Japan para os outros jogos serão altas. Como isso acontece?

Existem duas situações. A primeira é uma “voltinha” na lei que permite que patrocinadores aumentem a premiação de um torneio no lugar da empresa organizadora/desenvolvedora. No entanto, a “voltinha” não deixa de ser perigosa, já que um patrocinador pode acabar sendo considerado parte da organização de um torneio. Além disso, há outras legislações do Japão que buscam combater monopólio, prêmios injustificáveis e representações enganosas e que também podem ser utilizadas para cortar uma premiação.

Assim, algumas organizações surgiram no Japão a partir de 2015 para tentar legitimar o esporte eletrônico e permitir que jogadores profissionais recebam os prêmios que merecem. O ano de 2018 foi marcante nesta questão, pois três organizações diferentes se uniram para formar a Japanese Esports Union, a JeSU.

Um dos pontos mais importantes da JeSU foi a criação de uma licença para jogadores profissionais como um método para evitar a lei anti-apostas do país. Tais licenças são definidas por meio de empresas-parceiras da JeSU, como a Capcom e a SEGA, que decidem os jogadores que serão licenciados e poderão receber uma premiação maior que a permitida pela lei japonesa. Até fevereiro de 2019, cerca de 130 jogadores haviam sido licenciados pela JeSU.

Bom, isso explica a possibilidade de jogadores de League of Legends, Street Fighter V, Tekken 7 e outros jogos terem uma premiação decente, mas não explica o campeão ganhar um controle. E daí entra a questão da Nintendo.

NINTENDO E A NEGAÇÃO DOS ESPORTS

A Nintendo tem um posicionamento um pouco contraditório em relação aos esportes eletrônicos. Ao ver o cenário competitivo de jogos como um “inimigo” ao estilo “família” de seus jogos, a empresa nunca investiu muito na área — o que, em minha opinião, também pode ter afetado o crescimento de um cenário competitivo no Japão, um lugar tão apaixonado e influenciado pela Nintendo.

Para não dizer que a Nintendo nunca fez nada, ela realiza, sim, torneios ocasionais de Splatoon e até de Super Smash Bros. em eventos como a E3. Mas, ao contrário da Capcom, SEGA, Namco, entre outras, não colabora com a premiação de torneios como a EVO para fomentar o cenário.

A falta de interesse da Nintento no competitivo significa que ela não é uma parceira da JeSU e, por isso, não pode contribuir para que os finalistas de Super Smash no Japão — e espeficiamente na EVO Japan — recebam uma premiação maior.

Então, embora possa haver um anúncio de última hora para trazer uma nova premiação ao vencedor de Smash na EVO Japan, é muito provável que o prêmio seja apenas um controle. Uma prova amarga de como leis e pensamentos antiquados ainda podem afetar o esporte eletrônico em pleno 2020.