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Jogo em família: Pai e filho ajudam a movimentar o competitivo de Vainglory na América do Sul

TaZy, filho de Nanicão e jogador de Vainglory Arquivo Pessoal

Não é difícil, mas também não é rotineiro encontrar uma família inteira que é unida no amor pelos esports. No entanto, foi uma delas que encontrei enquanto estava procurando por mais informações do campeonato de Vainglory que seria realizado na World Electronic Sports Games.

Nesta busca por informações, acabei conhecendo Lucio Mauro “Nanicão” Alves, médico do trabalho de 47 anos e pai de dois filhos que tem como “segunda profissão” ajudar o cenário competitivo de Vainglory no Brasil. Em entrevista, Nanicão “abriu a casa” ao ESPN Esports Brasil e contou a história de como a família Alves acabou conhecendo e se apaixonando pelo MOBA mobile da Super Evil Megacorp.

Voltando em sua infância, Nanicão revela que ele os cinco irmãos nunca tiveram fácil acesso ao mundo eletrônico na adolescência, mas que lembra “como se fosse hoje” o dia em que convenceram o pai a comprar um Atari. “Foi uma festa em casa. Eu e meus irmãos sempre fomos atletas da natação, e nas horas vagas corríamos para a diversão eletrônica sempre que era possível, mas nunca imaginamos que um dia chegaríamos ao cenário atual”, confessa.

Como todo estudante de Medicina, Nanicão teve que deixar os jogos um pouco de lado durante a faculdade, mas nunca se afastou por completo. O médico conta que sempre acompanhou futebol e costumava jogar um título chamado Brasfoot, que acredita ter sido o primeiro a ser jogado com o filho mais velho, Luiz Felipe - hoje com 17 anos.

“Daí vieram outros jogos de computador e os jogos de consoles que entraram com uma força ainda maior na nossa vida”, lembra. “Vieram os jogos de PlayStation e depois veio o Nintendo Wii com o foco de buscar algo que tivesse mais interação da família e que pudesse gerar alguma atividade física associada - afinal de contas, vem sempre a mente de um pai médico os problemas que podem surgir decorrente do sedentarismo”.

Mas os jogos não ficaram só entre pai e filho. Nanicão comenta que, na verdade, o primeiro contato com jogos online foram entre ele e a esposa - “um daqueles jogos de fazenda no Orkut. Eu e minha esposa [Edlucy] jogávamos bastante nas horas vagas”. Com a chegada dos smartphones e a facilidade de se ter jogos no bolso, o médico diz que ele e a esposa acabaram “se envolvendo ainda mais neste cenário”, mas que acredita ter sido o sobrinho Igor a aumentar o interesse do filho Luiz Felipe “TaZy” Abreu Alves por jogos online pela diferença de idade. “O Luiz Felipe é oito anos mais novo que o primo”.

ENTRANDO NO MUNDO DE VAINGLORY

Nanicão revela que o primeiro contato que teve com Vainglory foi através do filho, que jogava bastante com um colega de escola, e que sua primeira reação foi ficar preocupado com a segurança do filho. “Vi que aos poucos meu filho estava migrando dos jogos do console para o celular e comecei a ficar preocupado com o envolvimento dele em um jogo que era online, e ainda por cima no celular, e que ele tinha ‘amigos’ virtuais jogando com ele a toda hora e que tinham contatos por canais de voz. A proximidade dele com ‘estranhos’ me assustou”, confessa.

O pai afirma que sua maior preocupação não eram as horas que o filho passava jogando, mas “o contato com desconhecidos do outro lado”. Entretanto, enquanto muitos pais tomariam a decisão de proibir o contato do filho com o jogo, Nanicao decidiu por um caminho diferente: “comecei a olhar o jogo de uma forma diferente e tentar entender um pouco mais do cenário, então começar a jogar para ter acesso a informações do jogo e das pessoas que jogavam com o meu filho”.

Apesar de ter entrado no Vainglory com o “propósito mais de vigiar os contatos do meu filho do que propriamente por interesse pelo jogo”, o médico pegou o gosto pela coisa. “Foi assim que aprendi a gostar do jogo, da sua jogabilidade e design gráfico, muito diferente de outros jogos que já tinha visto ou ouvido falar”, afirma.

Uma vez jogador de Vainglory, não é difícil tomar conhecimento do competitivo do jogo. Para Nanicão, este conhecimento veio através do próprio filho em uma conversa há cerca de dois anos. “Em um certo dia, depois de uma sequência de derrotas, meu filho estava bem triste e desapontado, diria até que estava um pouco depressivo. Então sentei com ele, como pai, para entender o que estava acontecendo. Ele me disse que estava muito triste, e foi então que tive meu primeiro grande ‘choque’ de realidade”, lembra.

“Falei para ele que era para parar com esse negócio de jogos eletrônicos, pois estava fazendo mal para ele e que os jogos deveriam servir para diversão e entretenimento, e que se isso não estava acontecendo era o momento dele repensar e de parar de jogar. Ele, com seus menos de 15 anos, me deu uma primeira lição e respondeu: ‘Quem disse que jogo para me divertir?’. E continuou: ‘É verdade que gosto muito do jogo e me divirto com ele, mas não jogo para isso. Jogo para ser o melhor do mundo na minha posição. Quero ser campeão mundial de Vainglory’. E isso fez com que eu mudasse o rumo da conversa e parasse para repensar o que realmente estava acontecendo na vida do meu filho”, continuou.

Foi então que pai e filho passaram a acompanhar o competitivo de Vainglory - com Luiz Felipe chegando a competir em diversos times. Entretanto, a falta de um competitivo “sólido” acabou acordando outro desejo em Nanicão: o de ajudar a comunidade da América do Sul. “Eu sempre via que os campeonatos eram, salvo algumas exceções, pouco organizados e que não existiam muitas ações para o cenário competitivo”, conta. “Assisti o mundial de Vanglory em 2017 com o meu filho e me apaixonei pelo jogo, mas em 2018 não existiram muitos torneios competitivos em nossa comunidade e o jogo passou por uma grande transformação com a modalidade 5v5 no início do ano”.

O médico revela que não era fácil ver a frustração do filho e dos amigos em não terem muitas oportunidades no competitivo, e que se emocionou quando a equipe de Luiz Felipe (a The Sanctum) conseguiu disputar as finais de um campeonato amador contra o time da LOUD, que representou o Brasil na WESG. “Nunca pensei que ele fosse chegar tão longe! Foi gratificante ver a realização dele, mas ainda assim vi muitas dificuldades para os jogadores em nossa comunidade, sempre preterida às demais comunidades globais”, conta. “Então pensei: por que não utilizar a minha experiência de gestão de equipes e estratégias em grandes empresas para ajudar a todos da comunidade?”

Com a decisão tomada, pai e filho elaboraram uma pesquisa respondida por mais de 500 jogadores (e ainda aberta) para ter uma base do que fazer para ajudar a comunidade. O resultado foi a Primeira Liga de Vainglory da comunidade da América do Sul, que ainda está em fase experimental e pela qual os jogadores podem se cadastrar e participar de eventos do jogo.

“Falo em fase experimental pois ainda estamos tentando entender melhor todo este cenário competitivo e queremos ver a reação da comunidade para saber se podemos e/ou devemos investir mais neste projeto”, explica Nanicão. “Tivemos uma surpresa positiva, pois a Super Evil Megacorp abraçou o projeto e apoiou o mesmo rapidamente, divulgando a pesquisa e o site da Liga dentro do próprio jogo e o vídeo promocional da Liga na página oficial do Facebook, e isso deu mais credibilidade ao projeto”.

Nanicão conta que a Liga já promoveu dois eventos em pouco menos de dois meses de criação. O primeiro teve 18 equipes composta por três jogadores cada, enquanto o segundo teve um total de 162 jogadores e um total de 20 equipes. “A Liga já tem mais de 250 jogadores cadastrados e a busca por ela tem aumentado”, diz orgulhoso. “Não é fácil promover todo este projeto, mas conseguimos três pequenos patrocinadores (que não são da área) que tem apoiado o projeto, mas ainda é muito pouco frente às necessidades da comunidade”.

O médico aproveita para lembrar, também, que a organização da Liga exige determinação e comprometimento não só dos organizadores, mas também dos jogadores e das equipes, que costumam se desestimular com frequência e desistir dos campeonatos. “Pessoalmente, peço para que não desistam e persistam no cenário competitivo. Ele ainda é pequeno, mas tenho percebido um crescimento nos últimos tempos”, pede Nanicão. “Muitos players e equipes ficam com uma expectativa muito grande de um possível apoio da SEMC, mas se esquecem que podemos ter ‘vida’ competitiva sem que a desenvolvedora seja a precursora e executora destes eventos”.

Ele continua: “Costumo falar com os meus filhos (como chamo a todos os jogadores) que juntos somos mais fortes, e que se queremos um cenário diferente no futuro, dependeremos do que faremos no presente. Acho que esta é a dificuldade maior no momento. Chamar a responsabilidade para o desenvolvimento do cenário competitivo para os próprios jogadores, manter a motivação para continuar neste cenário, mesmo que ainda com pouco investimento da iniciativa privada. A responsabilidade é de todos”.

Luiz Felipe adiciona que o competitivo de Vainglory “está parado” e que precisa de mudanças. “Acho que a desenvolvedora do jogo deveria melhorar a maneira que olha para a região da América do Sul e nos valorizar um pouco mais”, crava. “Atualmente, os jogadores que estão liderando a lista dos melhores do ranking global da modalidade do 5v5 são todos do nosso servidor, mas mesmo assim faltam campeonatos oficiais por aqui. O que temos tido hoje são esforços isolados de algumas pessoas, como nós, que proporcionam alguns campeonatos para movimentação do servidor. Isso é ótimo, mas é pouco para considerar o jogo como uma possibilidade de gerar jogadores profissionais. Falta apoio de patrocinadores às equipes e jogadores e isso é muito ruim para o competitivo”.

A POSSIBILIDADE DE SER UM JOGADOR PROFISSIONAL

O esporte eletrônico não é algo novo, mas a ideia de se tornar um jogador profissional e viver disso está cada vez mais sólida. Essa é uma das possibilidades que Luiz Felipe, ou TaZy, vê para si no futuro.

Ao ESPN Esports Brasil, TaZy confirma a teoria do pai de que começou a ter interesse por videogames pela influência do primo e que se apaixonou por jogos ao ganhar um PlayStation 2 em 2012. No ano seguinte, foi a vez de conhecer os jogos mobile ao ganhar sua primeira tablet. “Descobri que no tablet existia um outro universo de jogos, que eram otimizados para a plataforma mobile. Então cheguei ao Vainglory, pelo qual sou apaixonado até hoje”, conta.

O jovem de 17 anos, que ainda está no Ensino Médio e fazendo um curso técnico de Mecânica Industrial, também comenta que não conhecia o mundo dos esportes eletrônicos antes do MOBA da Super Evil Megacorp. “Quando comecei a jogar Vainglory, eu não sabia muito sobre esportes eletrônicos, mas conheci simultaneamente o LoL por ser o mesmo estilo de jogo, e lendo mais sobre vi que poderia ser um estilo de vida, que é possível ‘ganhar a vida’ como um jogador. Fui percebendo que existiam (e existem) pessoas muito bem sucedidas que eram (ou são) jogadores profissionais e bem remunerados”, afirma.

Enquanto considera que se tornar um jogador profissional de Vainglory seria a realização de um sonho, TaZy revela que as coisas não são tão fáceis, mesmo quando se tem uma família que também gosta de videogames. “A minha família não gosta muito [da ideia de ser jogador profissional], mas sempre me apoia. Sempre há discussões porque infelizmente ainda não posso me dedicar 100% ao jogo, pois preciso estudar e ainda não dá para ter garantias do meu futuro como jogador de esportes eletrônicos”, conta. “Eu sempre penso em me formar também e estou estudando para isso, mas ser um jogador de Vainglory seria a realização de um grande sonho, e espero que um dia o Vainglory abra portas para isso. Quando isso acontecer, já estarei preparado”.

Já o apoio do pai é diferente, principalmente de um pai que é médico. Utilizando sua expertise, Nanicão comenta sobre como muitas pessoas acabam confundindo “compulsão por jogos eletrônicos” pela “vontade de se tornar um jogador profissional” e "dependência" pelas horas e horas de treinamento que ser um jogador profissional requer em qualquer esporte.

“Um atleta não consegue chegar ao topo de sua modalidade sem sacrifícios. Assim como em outros esportes de alto rendimento, temos benefícios [no eletrônico], como a melhora da coordenação motora, da velocidade de raciocínio e do reflexo, o aprendizado de conviver com outras pessoas e culturas, de superar frustrações e celebrar as conquistas, e também temos malefícios, como sedentarismo, o desenvolvimento de lesões osteomusculares e a possibilidade de desenvolvimento do que tem se chamado de ‘escapismo social’, que pode gerar problemas sociais e até provocar isolamento social em crianças que estão em formação”, lembra.

Nanicão considera essencial que os pais apoiem os filhos, sejam sempre presentes e entendam o momento certo de intervir, se necessário — quando notas baixas aparecem na escola, por exemplo. “Precisamos estar atendo às mudanças comportamentais que podem indicar que é o momento de intervir. Jamais podemos nos distanciar dos nossos filhos, pois isso aumentará o escapismo social deles. Precisamos aceitar tudo isso com naturalidade”, crava.

Para o médico, o maior exemplo de que seu tratamento com o filho deu certo é a resposta da própria comunidade. “Hoje em dia tem vários jogadores que falam assim para mim: ‘queria ter um pai como você’, ‘você pode me adotar?’, ‘além do seu filho você pode jogar comigo também?’. Você não imagina como isso é prazeroso. Sinto que eu estou fazendo um bem para esta garotada!”, comemora.

Nanicão também aproveitou para deixar um recado a outros pais que talvez estejam passando pela mesma situação. O conselho é simples: “Conversem com os seus filhos. Entendam o que eles buscam nos jogos eletrônicos. Não deixem que ‘pré-conceitos’ destruam um relacionamento de pais e filhos e não deixem que isso sepulte o sonho de um filho. O que eles podem estar buscando muitas vezes não é somente uma diversão”.

“Eu aprendi isso com o meu filho e hoje estamos mais juntos do que nunca”, ele continua. “Dou aqui meu depoimento, pois não há prazer maior que vencer junto com um filho. Um sonho que se sonha junto, se torna uma realidade. Vencemos a cada dia quando nos superamos. Mesmo que o resultado da partida não seja a vitória, meu prêmio maior é o reconhecimento do meu filho”.