O Counter-Strike não precisa do The International, só precisa de majors melhores

O palco do Faceit London Major após a vitória da Astralis. Joe Brady / FACEIT

Bastou uma edição “sem graça”, com pouquíssimos jogos interessantes, para todos caírem na real: os majors de Counter-Strike: Global Offensive precisam de mudanças. O torneio, antes amplamente aguardado, já não empolga.

Muitos motivos são apontados para isso. O formato suíço, a “expansão” para 24 times, a premiação que já não salta mais aos olhos quando comparada às outras e por aí vai.

A situação fica ainda mais triste quando os jogadores olham para o “filho querido” da Valve, o Dota 2 - que tem calendário prévio, apoio da desenvolvedora ao longo do ano, sistema de ranking próprio, uma maneira muito mais eficiente de financiamento coletivo e o The International.

O último, inclusive, é o sonho de muitos. Uma celebração do jogo e o título definitivo para estabelecer o grande time da temporada - mas não precisamos dele.

Com os devidos ajustes, o sistema “descentralizado” dos majors pode ser muito mais empolgante, como já foi um dia. Neste texto, apresento três pontos que acredito que mudariam essa realidade.

RETORNO DOS TRÊS MAJORS

Quando a Valve decidiu diminuir o número de majors de três para dois em 2016, a justificativa foi o grande número de eventos para o final daquela temporada. A medida parece ter feito sucesso e se mantém até hoje, dois anos depois.

Apesar disso, eu ainda acredito que o número de três majors é o ideal. Assim, é possível registrar três momentos distintos da temporada e premiar as equipes que se destacam neles.

O primeiro, obviamente, deve “abrir” o ano - em meados de fevereiro. Não necessariamente ser o pontapé inicial do calendário, mas estar entre os primeiros torneios internacionais e mostrar qual equipe ficou mais forte após as festas de final de ano e as eventuais transferências do período.

Além disso, seria possível sediar os minors de maneira mais enxuta em janeiro, preenchendo o início do calendário com jogos importantes e construindo a “hype” para o major, que viria em pouco tempo,

O período ideal para o segundo é julho - fechando a primeira metade da temporada e antecedendo a pausa de meio do ano. Assim, nenhum time é obrigado a diminuir a parada, que já virou tradicional, e disputar a competição ainda um pouco fora de ritmo - já que agosto costuma ser um mês de muitas trocas nas escalações.

Para fechar o ano, o terceiro major pode acontecer em novembro, encerrando o calendário dos grandes torneios internacionais. Assim, é possível que o principal time dos últimos meses do ano seja coroado e os jogadores consigam antecipar as férias de final de ano - voltando a ativa mais cedo em 2018 para iniciar a preparação para o major, ou minor, seguinte.

INSTAURANDO IDENTIDADES

A comparação entre os majors e os torneios Grand Slam do tênis são constantes. Assim como no CS:GO, o tênis não tem um “mundial - ao menos um que tenha mais prestígio que os Grand Slams -, mas sim uma série de competições internacionais, sendo quatro delas especiais.

Os Grand Slams (um termo que, originalmente, era usado para se referir aos quatro torneios em sua totalidade) sãos os mais prestigiosos e tradicionais por vários fatores, incluindo tradição, premiação e pontuação no ranking da ATP.

Além disso, os torneios têm identidade própria, como o saibro de Roland Garros ou as restrições de vestimenta de Wimbledon (onde todos os atletas têm de vestir branco). Falta isso nos majors de CS - instaurar identidades.

Há vários modos de criar atmosferas únicas e tradicionais para os majors, mas vou destacar duas: local e formato.

A cidade sede dos majors têm de virar uma tradição. Cidades como Katowice, na Polônia, e Colônia, na Alemanha, se transformaram em verdadeiros símbolos de Counter-Strike nos últimos anos e essa identidade precisa ser explorada.

Até pelo bom espaçamento das datas, seria uma ideia interessante fixar a IEM Katowice e a ESL One Cologne como os dois primeiros majors anuais. Assim, seria possível criar uma tradição (que já está aí, começada) e ajudar a deixar os majors ainda mais únicos.

Deixar dois dos três principais eventos do ano na Europa (e não da mesma organizadora) não parece algo muito interessante do ponto de vista global, mas não é como se os melhores times e os principais eventos do calendário atual já não estivessem por lá. Majors ou não, esses dois torneios irão acontecer do mesmo jeito - então por que não fixá-los com um status que eles conquistaram por merecimento?

Sendo assim, ainda haveria espaço para o último: um major itinerante. Fechar a temporada com um grande torneio na Ásia, nas Américas ou na Oceania é uma ótima ideia do ponto de vista da democratização dos majors e também comercial - já que o evento de encerramento tende a chamar mais atenção que os outros.

Outro ponto que ajuda na identidade é o formato. Em época de indefinição quase que geral de qual é a melhor maneira de disputar a competição, por que não ter os três majors com formatos de disputa diferente?

Grupos GSL, sistema suíço, eliminação dupla… Não importa as variações e o formato usado, é possível tornar os majors ainda mais únicos se cada um deles tiver uma forma de disputa distinta e marcante.

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Por último, mas não menos importante, o dinheiro. Já faz um tempo que pagar US$ 1 milhão não cresce os olhos de público, jogadores e indústria. Principalmente quando o TI, também apoiado pela Valve, distribuiu US$ 25 milhões em sua última edição.

Até os próprios torneios de CS:GO já deixaram essa marca para trás. WESG e Eleague já igualaram, ou superaram, essa quantia em seis oportunidades.

Está na hora de subir a premiação dos majors. Dois anos depois do prêmio ter saltado de US$ 250 mil para US$ 1 milhão, não tem que como imaginar que a Valve não consiga abrir a carteira e pelo menos duplicar essa quantia.

Talvez ela nem precise disso. Basta criar uma forma mais eficiente de financiamento coletivo - já que os adesivos não contribuem diretamente para a premiação e, pelo relato dos jogadores, também não paga valores espantosos.

Toda comunidade teria prazer em ajudar na premiação do major, assim como acontece no próprio Dota e no League of Legends, por exemplo. Trazer de volta as “caixas de esports” usadas no passado, ou criar uma espécie de “battle pass” para os majors, são duas boas saídas.

NÃO É SÓ ISSO

A discussão é muito mais longa que isso - principalmente quanto ao sistema de Legends -, mas esses três elementos são bons pontos de partida para uma discussão que se mostra cada vez mais necessária.

Discutir o futuro dos majors, a criação de um ranking estilo DPC e outros detalhes sobre os mundiais serão constantes nos próximos meses, já que o próximo torneio sancionado pela Valve só acontecerá em 2019.

Até lá nos resta dialogar, torcer, e implorar um pouco pela atenção de Gabe Newell.