A Escola Estadual Azevedo Júnior ficou ocupada por 45 dias por mais de 150 alunos. Era a forma de protestar contra a reestruturação da rede pública de ensino, proposta pelo Governo Estadual de São Paulo em 2015. Patrycia Ferreira foi quem puxou o movimento no colégio que fica no bairro da Vila Belmiro, em Santos.
No intervalo entre uma aula e outra, falou com os colegas, explicou o que era o movimento estudantil, pediu apoio. Em apenas um dia, se organizaram em grupos. Tinha a turma da cozinha, quem cuidava das salas de aula que viraram dormitórios, quem acompanhava a movimentação em outras escolas ocupadas em São Paulo...
“Eu já estava no terceiro ano do ensino médio, mas tinha mais dois irmãos que estudavam naquela escola, a luta já não era mais por mim, era por eles. Eu tinha a opção de me acomodar ou lutar, decidi lutar”, conta.
A principal preocupação era que os irmãos perdessem o direito de estudar perto de casa. Gastar com transporte para ir à escola seria um peso no orçamento da família.
Patrycia é a sexta de nove filhos da dona Nancy. Desde menina, trabalhou para ajudar a mãe solteira. Deixou de lado, por muito tempo, o sonho de ser atleta profissional para trabalhar.
“Minha mãe é tudo na minha vida, é o melhor de mim. Minha maior preocupação sempre foi minha família, meu coração palpitava quando eu pensava em ter que me dividir entre eles e o futsal”, diz.
Enquanto conseguiu, conciliou tudo: treinos, o trabalho como garçonete em um buffet e a escola. Estudante dedicada, sempre participativa do grêmio estudantil. Foi capaz de puxar um movimento de ocupação, mas se viu derrotada pelas frustrações da vida. Não sabia como lidar com a ausência do pai, que abandonou a família quando ela tinha apenas dois anos de idade.
“Sei que ele foi jogador de futebol profissional, mas nunca soube a história dele, não sei em que times jogou. Sentia falta de ter o incentivo dele, queria que ele estivesse lá para me levar para treinar. Eu tinha um trauma e fiquei revoltada quando era adolescente. Aos 17 anos, comecei a beber, como um refúgio pra isso. Não deixava minhas obrigações, mas, durante um tempo, a bebida foi meu refúgio para isso”, lembra.
Mas ela tinha a dona Nancy, que sempre foi sua maior força, que esteve sempre na arquibancada gritando em todos os jogos. Foi a mãe que ajudou a manter a filha firme no melhor caminho, foi ela quem incentivou Patrycia a retomar seu maior sonho.
“Meu sonho era ser jogadora profissional de futsal, mas no Brasil, isso seria ainda mais difícil. Então fui para o futebol de campo”, explica.
Procurada por um antigo treinador, Thiago Santana, ela foi jogar futebol amador no Cubatão Futebol Clube, na cidade de Cubatão, litoral paulista. Chamou atenção e foi convidada para participar de uma seletiva da ONG Futebol Social. Foi uma das oito escolhidas em uma peneira com 500 atletas para participar de um campeonato mundial de Showbol, no México.
“Ali eu tive certeza que o futebol tinha mais a me oferecer, eu não podia deixar passar. Eu sabia que podia mais, que o futebol poderia ser um trabalho de verdade, que eu poderia ajudar minha família com isso”.
Depois de um ano dedicada só ao futebol, uma oportunidade inesperada surgiu. A amiga de infância - e também jogadora - Andreza, foi chamada para jogar em Portugal. O time precisava de uma atacante, ela indicou Patrycia e as duas foram contratadas. Hoje defendem o Francos, time da primeira divisão do futebol português. Só aos 23 anos, enfim, ela se tornou jogadora profissional, oportunidade que nunca surgiu no Brasil.
“Sou muito decepcionada com o futebol brasileiro. No Brasil, as jogadoras são abandonadas, esquecidas. Eu fui esquecida, deixei de acreditar no futebol. O Brasil me fez acreditar que eu não teria oportunidade de ser jogadora, o país me decepcionou como atleta e como pessoa”, desabafa.
“O Brasil erra muito em relação ao futebol feminino. O Santos, por exemplo. Fiz muitas peneiras lá. Eles fazem uma peneira com mil atletas, saem duas, isso é desumano. Nunca tive uma oportunidade, as meninas de Santos não têm uma oportunidade. O principal nome do time hoje é a Sole James, que é argentina. O Brasil perde muito nisso, cresce o olho pelo nome, não pela qualidade da jogadora. Não que ela não tenha qualidade, mas tem muita jogadora boa que não tem chance no país, não tem valor”, conclui.
Hoje, a atacante vive seu grande sonho de jogar na Europa, e nem a pandemia de coronavírus foi capaz de atrapalhar esse momento tão especial. As amigas chegaram à Portugal em janeiro desse ano. Com apenas dois jogos oficiais, o campeonato foi paralisado. Agora, aos poucos, os treinos vão sendo retomados. Em setembro, o Português feminino está de volta.
O período de quarentena longe da família foi bem proveitoso. Patrycia pode exercitar outro talento: escrever! Os textos viraram letras de funk. A história de vida da atacante é o principal tema das músicas, que inspiram e contam histórias bem parecidas com as de outras pessoas.
“Sempre gostei muito de cantar, mas nunca achei que tinha esse dom. A música era só uma forma de expor meu sofrimento, de expor um pouco mais de mim. Eu não tenho mais vergonha de expor quem eu sou, e depois que comecei a escrever e mostrar minhas letras, agreguei muita gente, as letras inspiram pessoas. Não quero mais parar de escrever, já penso até em conciliar a música e o futebol”, comenta.
E toda essa história rendeu à Patrycia bem mais que uma chance no futebol e boas letras de funk.
“Hoje eu me sinto alguém melhor, entendo quem eu sou. O movimento estudantil me mostrou que eu precisava lutar por uma causa maior. Não me enxergava como alguém engajada socialmente, sempre morei em morro, em comunidade, mas não entendia a luta que eu tinha. Depois entendi que era preciso lutar para ser bem-sucedida sendo uma mulher negra vinda da periferia. Dependia de mim e da minha luta para sermos pessoas melhores, para conquistarmos o melhor. Hoje, eu tenho a oportunidade de chegar ainda mais longe por merecimento e tenho certeza que isso vai me fazer sentir ainda maior”, conclui.
