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O legado de Kobe Bryant vive através de Sabrina Ionescu, sensação do basquete feminino

Durante toda a carreira de Kobe Bryant e seu querido basquete, nos acostumamos a ver movimentos perfeitos, cestas praticamente impossíveis entrarem e a personificação da “mamba mentality”, aquela busca implacável pela excelência.

Nos anos seguintes à aposentadoria, essa mentalidade continuou existindo, mas foi redirecionada para as margens da quadra: reaparecendo como uma voz ativa pela valorização do basquete feminino.

Ser pai de quatro meninas fez com que o astro do Los Angeles Lakers se envolvesse integralmente com a causa. Gigi Bryant, que também morreu no acidente de helicóptero, era a mais apaixonada pelo basquete e sucessora natural do pai. Ela herdou a habilidade de fazer jogadas plásticas – como o seu “fadeaway”, arremesso convertido com o jogador projetando o corpo para trás.

A mambacita tinha o sonho de ser jogadora profissional e pretendia jogar pela UConn, dinastia dos esportes universitários. Kobe era amigo do técnico da equipe feminina, Geno Auriemma, e constantemente levava a família para assistir partidas. Comparecer aos jogos era um dos programas favoritos de pai e filha, sempre flagrados nas primeiras fileiras trocando análises sobre o que viam. Um ano antes do acidente, Kobe e Gigi foram a um da Universidade de Oregon.

Aquela era a casa de Sabrina Ionescu, estrela do basquete universitário e agora atleta do New York Liberty. Após a vitória, Kobe e Gigi foram até o vestiário parabenizá-la. E de um sonho em comum nasceu uma amizade. O Black Mamba virou mentor de Ionescu, passando a dar treinos para a jovem e estimular seu crescimento no basquete.

A cada performance de destaque ou triplo duplo, uma mensagem chegava no celular da jovem, especialmente quando anotou o 26º na carreira, recorde absoluto da NCAA (National Collegiate Athletic Association).

Ele ensinou para ela seu stepback, como um presente e um voto de confiança. Essa foi a maneira de dizer que se ela conseguisse adicionar a jogada ao seu arsenal seria impossível defendê-la. O Black Mamba ajudou ainda a melhorar a curvatura do arremesso e a angulação dos pés quando a bola saía de suas mãos.

Por causa da ótima leitura de jogo da garota, capaz de levar seus defensores para onde bem entender, Kobe a apelidou de Geppetto, mestre na arte da manipulação – uma referência ao personagem que criou a marionete Pinóquio.

No começo deste ano Sabrina tornou-se a primeira na história do basquete universitário a anotar dois mil pontos, mil assistências e mil rebotes – entre homens e mulheres. Ao atingir esse feito inapagável, mandava um recado importante: a semente plantada por Kobe Bryant estava florescendo através do basquete feminino.

A conquista veio no dia 24/2/2020. Coincidentemente a data faz uma emblemática referência aos números usados em quadra por Kobe (24) e Gigi (2). Horas antes Ionescu discursou no emocionante cerimonial organizado no Staples Center para homenagear a estrela e sua filha.

“Quando criança eu só conhecia uma maneira de jogar basquete: feroz, com foco obsessivo. Eu era assumidamente competitiva. Eu queria ser a melhor. Adorava o trabalho, mesmo quando era difícil, especialmente se era difícil. Eu sabia que era diferente, que minha motivação era diferente. Cresci assistindo Kobe Bryant, jogo após jogo, título após título, vivendo sua grandeza. Queria ser igual a ele, amar cada parte da competição...”, abriu o discurso.

Sabrina Ionescu aprendeu a ser competitiva na marra durante a infância. Ela e o irmão gêmeo, Eddy, costumavam jogar por horas nos parquinhos de Walnut Creek, na Califórnia. A rivalidade acirrada, empurrões e brigas faziam parte das partidas, muitas vezes disputadas com provocações em romeno, primeira língua da dupla. Os pais da família se mudaram da Romênia para os Estados Unidos, em 1990, sete anos antes de os gêmeos nascerem.

A pandemia de coronavírus mudou os planos de Ionescu. No ano passado ela optou por ficar mais um ano na Universidade em vez de se inscrever para o draft da WNBA. Ela sentia que ainda tinha uma missão a cumprir: voltar para a faculdade e conquistar o título por Oregon, mesmo sabendo que seria a principal escolha da liga norte-americana de basquete feminino já em 2019 – quando o seu Ducks caiu no Final Four para a equipe texana da Universidade de Baylor. O campeonato acabou cancelado por causa da crise de saúde mundial, impedindo qualquer desfecho.

Em abril, como esperado, ela foi selecionada como a escolha de número um da WNBA, pelo New York Liberty, em uma cerimônia virtual. Assim, tornou-se a primeira jogadora draftada sob o novo acordo coletivo da liga. As atletas lutaram exaustivamente para conseguir aprová-lo e, assim, atenuar as diferenças abissais entre o basquete feminino e o masculino nos Estados Unidos (embora isso não seja exclusividade do país).

O teto salarial previsto dobrou em relação ao acordo anterior e direitos importantes foram conquistados, como licença-maternidade, auxílio para cuidados infantis e melhoras nas condições de viagens, com voos na classe econômica e quartos individuais. Até então o mais comum era que, com salários baixos, esportistas buscassem jogar no exterior durante as férias (especialmente na Europa e na Ásia) para complementar a renda, ficando mais sujeitas a lesões.

Quando o acordo coletivo foi aprovado, dias antes do acidente de helicóptero, Kobe se disse feliz: “Ainda há muito espaço para crescer, mas esse foi um passo enorme na direção certa”, disse em entrevista.

O ex-jogador da NBA Tony Parker, quatro vezes campeão com o San Antonio Spurs, revelou recentemente que a última conversa que teve com o astro dos Lakers foi sobre como os dois poderiam promover o basquete feminino. Parker se aposentou no ano passado e hoje é dono do Asvel Lyon Villeurbanne, clube na França com times femininos e masculinos. Sabrina Ionescu repostou nas redes sociais a entrevista e fez um apelo, dizendo que as atletas e o esporte ainda precisam desse incentivo.

Durante a cerimônia de despedida de seu ídolo, mentor e amigo, Kobe Bryant, transmitida para o mundo todo, reconheceu sua importância nesse processo de valorização:

“Eu queria ser parte da geração que mudou o basquete para Gigi e suas colegas de equipe. Onde nascer uma mulher não significasse nascer um passo atrás, onde a grandeza não fosse dividida por gênero”.

No último ano a descendente de romenos virou uma sensação, capaz de lotar arenas com fãs ávidos por vê-la representando mulheres no esporte. Nesta última temporada o Oregon Ducks levou uma média de dez mil torcedores por jogo às arquibancadas, conferindo ao basquete feminino um tanto do respeito e visibilidade que merece.

Atletas da NBA se renderam ao seu jogo. Stephen Curry rasgou elogios à jovem ao assistir in loco a um jogo dela. Com apenas 22 anos, conquistou o respeito de estrelas como LeBron James, que a chamou de “rainha Sabrina” após anotar 17 pontos, 10 rebotes e 10 assistências em uma partida no começo do ano.

Sabrina Ionescu é o presente de um futuro sonhado por Kobe Bryant, pai de quatro meninas, para sua sucessora nas quadras Gigi Bryant e todas que assim como ela amam o jogo.

“Você me colocou debaixo da sua asa e acreditou mais em mim do que eu mesma. Eu só tenho uma escolha. Viver o seu legado. Você vai viver para sempre através de mim”, despediu-se Sabrina do Black Mamba em um post. Ela ainda manda mensagens no celular dele, mesmo sabendo que não haverá resposta.