Técnica do Equador, Emily Lima analisa o futebol no país e agradece Brasil: 'Foi onde tudo aconteceu para mim como treinadora'

Em dezembro de 2019, Emily Lima tomou um novo rumo na carreira de treinadora e foi para outro país. A ex-técnica da seleção brasileira e do Santos assinou com o Equador um contrato de três anos, com o objetivo de classificar a seleção equatoriana para a Copa do Mundo feminina de 2023.

Emily está vivendo em Quito, na casa da seleção, mas a partir de maio, com o final do Sul Americano Sub-17, ela e sua comissão ficarão em Guayaquil, onde fica a federação do país. Ela está responsável pelas convocações das seleções sub-20 e 17 para a competição.

“Agora estou só com a 17 e 20, porque a gente ainda não montou uma comissão técnica e aí, o gerente geral e o presidente me pediram para ficar com essas por agora, mas meu foco é somente com a principal e fazer a coordenação técnica com a base”, disse Emily em entrevista exclusiva para o espnW.com.br, complementando que, acabando o Sul Americano, independente de classificação ou não da base, ela volta com a comissão da principal para se preparar para as Datas Fifa em junho.

O desenvolvimento do futebol no Equador

Emily observa que o país está desenvolvendo não apenas o futebol feminino, mas o futebol como um todo. Para a técnica, o Equador ainda está bem atrás de outros países já mais desenvolvidos e ela conta: “O ano passado eles fizeram a primeira liga profissional, e foi bastante reconhecida, foi um sucesso, na final tinha 28 mil pessoas em Cuenca, e o time de Cuenca foi campeão. Já para um início, foi significativo”.

A televisão local já fechou um acordo com a federação equatoriana e vai transmitir algumas partidas, além de uma vez por semana, ter um resumo sobre futebol feminino na TV.

Sobre sua relação com a federação, Emily ainda faz parte do Comitê de Futebol Feminino e ela conta que está tendo bastante voz. Na semana passada, ela apresentou o calendário das seleções e se reuniu com as equipes para ver o que poderiam melhorar e fortalecer a liga.

“Tem muitas ideias legais, ideias boas, e a federação está aberta a ouvir”, contou a comandante, que completou: “A gente tenta, não que vai ser o que eu estou dizendo, mas a gente tenta contribuir com alguma coisa porque eles têm ideias muito boas”.

Paciência: projeto a longo prazo

Apesar da federação equatoriana querer revolucionar o futebol no país, engana-se quem pensa que será uma mudança a curto prazo. Para isso, paciência. Emily Lima conta que vê um processo de mudança muito interessante acontecendo, mas alerta: “Não é de hoje para amanhã. Acredito que vai ser daqui 3 anos. Nem sei se essa gestão vai estar para colher os frutos, mas acho que estão dando um pontapé bem interessante”.

A ideia da federação não é classificar a base necessariamente para este Sul Americano. Emily garante que as equipes farão de tudo para conseguir a classificação, mas a ideia depois da chegada dela é classificar só para a próxima edição, em 2022.

A prova de que o futebol está tomando um novo rumo no Equador também parte da seleção masculina, que anunciou em janeiro a contratação de Jordi Cruyff, holandês filho do ídolo do Barcelona e do Ajax Johan Cruyff e também, Antonio Cordón como diretor esportivo da federação. Antonio já foi dirigente do Villareal e do Monaco.

E o Brasil?

“Sempre quando dou entrevista no Brasil todo mundo me pergunta isso e vou dar a mesma resposta”, disse Emily, rindo e afirmando que todas as suas forças estão projetadas para o Equador. Mas ela também não deixa de citar que, para ela, a contratação de Pia Sundhage foi algo muito positivo para a seleção brasileira.

“Eu estive com ela na final do Paulista, trocamos um pouco de ideia, ela pediu para que depois do jogo a gente conversasse um pouco sobre o que eu achava, de algumas jogadoras e do jogo em si. Tudo o que ela conquistou é porque ela é o que é e acho que foi uma grande contratação”, disse.

Emily tinha muito claro para si que não seguiria no Brasil. A treinadora afirmou que vê o país em uma evolução muito interessante, apesar de terem muitos oportunistas querendo encontrar seu lugar no futebol feminino. “Tem muito oportunista que tá tomando o lugar de muita gente experiente e a gente vê isso diariamente. A gente vê isso em todos os clubes”, falou.

Para ela, o oportunismo é algo que incomoda muito. E ela também aproveita para ressaltar que criou problemas de ambiente em clube e seleção por ser exigente e querer trabalhar demais. “Isso é algo muito positivo que encontro aqui, e ainda comentei com o nosso gerente que graças a Deus aqui eu tenho mais pessoas do meu lado que gostam de trabalhar”, complementou.

Emily finaliza dizendo que realmente precisava de um lugar diferente e uma mentalidade diferente para “poder trabalhar em paz”, mas não deixa de citar que tem muitas coisas boas do Brasil para implementar no novo país e reconhecer que foi onde sua profissão cresceu e se desenvolveu.

“Foi onde tudo aconteceu para mim como treinadora. Então eu não posso deixar tudo o que eu passei e falar ‘tava tudo errado’. Tem muita coisa boa que aprendi e que com certeza vai me ajudar muito agora no meu trabalho aqui”, finalizou a técnica.