Não importa a história, algumas características de jogadoras de futebol se repetem de umas para as outras. Família humilde, preconceito e familiares que não dão apoio são sempre as mais citadas. Mas Katrine Costa tem algo que a diferenciou.
Atualmente, ela joga no meio-campo do Grêmio e vai enfrentar o Internacional, seu ex-clube, na final do Campeonato Gaúcho no próximo domingo (1). E apesar da família humilde e de sempre precisar jogar no meio dos meninos, apoio dos familiares foi o que não a faltou ao longo da vida.
Natural de Fortaleza, a jogadora de 21 anos começou a se interessar pelo futebol por conta do pai e, principalmente, do avô. Criada pelos avós porque a mãe trabalhava muito, Katrine começou a jogar futebol de areia por influência do pai, que a levava sempre para a praia.
Durante uma dessas brincadeiras na areia, ela teve a oportunidade de fazer um teste e passou. Mas antes mesmo de saber que tinha habilidades com a bola de futebol, ela tinha uma outra ‘função’ na infância. O avô, Seu Raimundo, tinha fundado um time familiar em Fortaleza, o Payssandu. Nele, atuavam os tios e primos de Katrine e lá, ela tinha um papel diferente.
“Eu e meu primo éramos mascotes do time. O meu avô me deu o meu primeiro uniforme, que era do time dele e mandou fazer dois, para mim e para o meu primo”, contou Katrine. “Eu ficava no meio dos jogadores nas orações, eles me levantavam e eu adorava”, relembrou a jogadora.
A dura saída de casa
Filha única e criada pelos avós, Katrine saiu de casa com apenas 15 anos e partiu de Fortaleza para o Sul. Lá, ela passou a morar em um alojamento na cidade de Tapejara, Rio Grande do Sul, mas confessou ter pensado em desistir.
“Nos primeiros dias eu chorava muito. Sou filha única, fiquei com muita saudade de casa, estava muito longe. Deu até vontade de desistir, sabe? Porque eu me sentia muito sozinha, como eu era muito mimada pela minha mãe, eu sentia falta daquilo. Mas eu aguentei até o final”, contou.
E a persistência deu certo. Ela já fez parte do elenco do Corinthians, quando tinha parceria com o Audax. Após a separação, ficou no Audax, depois passou pelo Internacional e agora está no Grêmio.
E não apenas clubes, ela também tem história na seleção brasileira. Apesar de ainda não ter sido convocada para a principal, ela já passou pela base sub-15, sub-17 e sub-20.
Convocação para a Copa do Mundo e a perda do avô
Katrine foi uma das convocadas da seleção sub-20 para disputar a Copa do Mundo da categoria em 2018. Eis que no primeiro dia de concentração, uma notícia devastadora: Seu Raimundo faleceu. Concentrada na Granja Comary, ela foi até Fortaleza para velar o avô e depois, retornou a seleção brasileira.
“Foi uma perda muito grande para mim porque eu tinha ele como um herói. Toda vez que eu chegava em casa, ele perguntava como tinha sido, se eu tinha me machucado... E ele e minha avó me criaram”, relembrou Katrine.
Para ela, foi difícil continuar. Ela chorava todos os dias e não entendia o motivo de ter perdido o avô. Mas mesmo assim, partiu para a França com a equipe e deu o seu melhor dentro de campo.
“Foi um momento difícil, eu estava feliz por ter voltado. Fiquei longe da seleção por um ano por uma lesão no joelho, fiquei fora do Sul Americano e voltei para o Mundial. Então foi um momento de alegria e ao mesmo tempo, de tristeza”, desabafou.
Apesar do Brasil ter sido eliminado ainda na fase de grupos, Katrine foi titular em todos os jogos e se sentiu bem jogando. “Pensei que ele estava me vendo e não queria que eu ficasse assim. Virou uma inspiração para mim”, disse.
O sustento para a família
Katrine considera que tudo o que conquistou até hoje, foi graças ao futebol. Através de uma bolsa de estudos, teve a chance de se formar em um colégio particular. E mais do que isso, hoje em dia é ela quem ajuda a sustentar a família.
A mãe continua morando com o pai em Fortaleza e ela relembra como era a casa deles antes de conseguir viver do futebol. “Antes eu não tinha nada. Minha casa não tinha nem um banheiro. A sala, a cozinha e o quarto era uma coisa só. E hoje já não é mais isso”, disse.
“Sou muito grata a Deus por ter me dado esse dom. Se não fosse isso, nem sei o que estaria fazendo da minha vida. Estou ganhando o meu dinheiro fazendo o que eu amo”, contou Katrine.
“A minha mãe ainda é meio tímida para pedir as coisas, sabe. Mas eu falo para ela que tudo o que tenho é por causa dela. Às vezes, ela deixava de comprar pão para ela, para deixar dinheiro da passagem para eu treinar”, falou.
Para a jogadora, o que ela faz pela família ainda é pouco perto de tudo o que a família já fez por ela.
Como é jogar um Grenal
Domingo acontece a grande decisão do Campeonato Gaúcho. Katrine já jogou três ‘Grenal’ só esse ano e já sabe o que é sentir a emoção de um clássico em uma final, já que no ano passado, também foi finalista do Gaúcho, mas do lado do Internacional.
O título foi do Grêmio, que venceu as Gurias Coloradas nos pênaltis e, este ano, a expectativa é que o Tricolor Gaúcho seja bi.
“Vai ser um jogo difícil como sempre foi, nada está ganho. Do mesmo jeito que nossa equipe é forte, a do Inter também é. Espero que seja um jogo que não aconteça agressão, por ser um clássico e que a gente tenha sabedoria para jogar”, falou Katrine.
Em relação a torcida, a jogadora diz que os times sempre recebem muito apoio, mas nada se compara a São Paulo. “A gente fala que é o lugar do futebol feminino. É onde é ‘top’ para quem quer jogar. Mas aos poucos os outros lugares estão crescendo também, as pessoas estão conhecendo o futebol feminino e estão começando a gostar”, disse.
Com a esperança que as torcidas lotem o estádio como no masculino, a decisão será no Estádio 19 de outubro, em Ijuí, a partir das 16h (de Brasília) neste domingo. Os ingressos estão sendo vendidos na bilheteria e o setor geral custa R$20, a arquibancada do pavilhão social R$30 e as cadeiras, R$40.
