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Mulheres em posição de liderança dentro do esporte e como o golfe tem colaborado para isto

*Africa Madueño Alarcon; Diretora de recrutamento da IJGA (International Junior Golf Academy) na América Latina

O esporte é uma atividade cultural que, quando praticada equitativamente e com justiça, enriquece a sociedade e a aproximação dos países, promovendo integração, cooperação, responsabilidade e superação, fatores que ajudam a desenvolver o ser humano como um todo.

Apesar do grande aumento da participação feminina nos esportes ao redor do mundo, o papel da mulher na indústria esportiva ainda é muito pequeno. Temos poucas treinadoras, donas de equipes profissionais, presidentes de federações e, sem representatividade das mulheres em papéis de liderança e de tomadas de decisões, as oportunidades igualitárias não serão alcançadas.

Desde 1991, qualquer esporte novo a ser incluído nos Jogos Olímpicos precisava ter categorias masculina e feminina. Estima-se que em Tóquio-2020, 48,8% de atletas sejam mulheres. Mesmo assim, o percentual delas como treinadoras na Rio-2016 era somente de 11%.

O número de mulheres dentro do Comitê Olímpico Internacional (COI) é de 34.3%. Apenas 13 mulheres são presidentes de Comitês Olímpicos nacionais. Um grande crescimento desde que a primeira mulher foi aceita, em 1990, mas ainda uma minoria.

A participação da maioria dos homens na indústria do esporte é tão normal que às vezes nem reparamos a ausência de mulheres. E não me refiro às atletas profissionais que lutam por premiações, mas as do mercado de trabalho do mundo esportivo.

Da mesma maneira que acontece no mundo corporativo, a entrada de homens e mulheres no mercado de trabalho é basicamente igual, assim como a porcentagem de graduação universitária, mas à medida que vamos subindo nas posições de liderança, o ar vai ficando rarefeito para as mulheres e estas permanecem em posições de baixa autoridade. São menos de 6% de mulheres CEO’s dentro das 500 maiores empresas da revista Fortune.

Protegendo os interesses das mulheres no esporte: Title IX

Desde o lançamento do Title IX em 1972 durante o governo do Presidente Nixon, a participação das mulheres no esporte escolar e universitário cresceu exponencialmente. Basicamente, o que aconteceu nos Estados Unidos com a aprovação do Title IX foi obrigar as escolas e universidades que recebiam fundos do governo (ou seja, a maioria) a oferecerem oportunidades iguais na prática esportiva a meninas e meninos.

Esta lei visava proteger as meninas de assédios e intimidações dentro dos programas esportivos, mas não só os estudantes: funcionárias e assistentes esportivas também estavam inclusas nesta lei.

“Ninguém nos Estados Unidos deve, baseado no sexo, ser excluído de participar, ter seus benefícios negados ou ser sujeito à discriminação em nenhum programa educacional ou atividade que receba financiamento federal”, dizia o Title IX em 1972.

O desafio à mudança: The Brighton Declaration

O Brighton Declaration é um tratado internacional criado pelo International Working Group (IWG) em 1994, que visa criar um mapa de inclusão igualitária para as mulheres no esporte.

Este tratado, assinado pela maioria das entidades governamentais e esportivas do mundo (com algumas exceções), provoca a criação de estratégias e ações com a intenção de aumentar a participação das mulheres em todos os níveis do esporte, em todas as funções.

Em 2014, foi reformado e nomeado Brighton Plus Helsinki 2014 Declaration on Women and Sport sob o lema: "Lead the Change, Be the Change” (Lidere a mudança, seja a mudança – em tradução livre). Este tratado internacional não é imposto, mas é um compromisso que cada organização assina e se compromete a criar ações inclusivas que tenham um impacto na sociedade. A lista dos países signatários pode ser encontrada aqui.

O golfe incentivando as mulheres no esporte

O golfe é um dos esportes onde a grande maioria dos participantes, dirigentes e profissionais da indústria, são homens. Mas o cenário pouco a pouco vem mudando graças a ações que dão destaque à eventos femininos, provando que existe demanda e público e que eventos femininos movimentam a economia e os próprios pilares do golfe.

Pela primeira vez na história, uma mulher é a presidente da Associação de Golfistas Profissionais (PGA). Suzy Whaley assumiu o cargo em 2018, 40 anos depois da primeira mulher ser aceita na entidade. Talvez tenha demorado, mas comparado com outros esportes, o golfe pode ser sim considerado progressista.

Na última semana, estive presente na Conferência Internacional de Golf Latino-Americana & Caribe do R&A, dirigida por Mark Lawrie, diretor LATAM e Caribe, o maior órgão governamental do golfe mundial e quem dita as regras e diretrizes do esporte.

Nesta convenção, tive a oportunidade de falar sobre o papel da mulher na indústria do golfe para uma plateia de 80% homens com apenas uma mulher, que era a presidente de federação (Diana Mejia, de El Salvador). A receptividade foi enorme e a intenção das federações em aumentar o número de mulheres no esporte ultrapassa os objetivos financeiros.

O R&A incentiva as federações internacionais a aumentar a inclusão feminina através do Women in Golf Charter.

O estatuto, assim como o Brighton Plus Helsinki 2014 Declaration on Women and Sport, visa incentivar os órgãos a criarem mais oportunidades de participação e liderança das mulheres no golfe. Não são todos os órgãos que assinam, assim como não são todos os que aplicam.

Como muitos estatutos, as entidades assinam com boas intenções, mas sem a verdadeira intenção de colocar em prática ou sem o acompanhamento dos órgãos que as criaram, o que não ajuda muito na inclusão feminina.

A razão? Ainda temos uma representação ínfima dentro das posições de liderança na indústria do esporte e, sem uma mulher para advogar pelos direitos das outras dentro das entidades que ditam as ações de um país, essas assinaturas ainda vão ser só "pra inglês ver”.