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Após morte de torcedora iraniana, Fifa planeja visitar o país para se reunir com autoridades e discutir o caso

Na Copa do Mundo, torcedores lutam pelos direitos da iranianas frequentarem estádios de futebol AUL ELLIS/AFP

Autoridades da Fifa visitarão o Irã após a morte da torcedora que ateou fogo no próprio corpo após ter sido presa ao tentar invadir um estádio de futebol para assistir a uma partida, disse um porta-voz a Reuters nesta quarta-feira.

Sahar Khodayari, conhecida como ‘Blue Girl’ (Garota Azul) por conta das cores de seu time do coração, Esteghlal, morreu no hospital na última segunda-feira após atear fogo no próprio corpo porque podia ser presa por seis meses após ter tentado entrar num estádio de futebol para assistir a um jogo vestida de homem.

Enquanto mulheres estrangeiras são permitidas a terem acesso limitado nas partidas, as iranianas estão banidas do estádio desde a Revolução Islâmica, em 1979.

Um porta-voz da Fifa disse que as reuniões com oficiais do futebol do Irã, que estão previstas para cerca de duas semanas, faziam parte dos preparativos para os jogos classificatórios do Irã para a Copa do Mundo, que vai enfrentar o Cambodia em casa no dia 10 de outubro, mas não foram uma resposta específica para a morte de Sahar.

As autoridades da Fifa, no entanto, verificarão os preparativos feitos pela Federação Iraniana para permitir às mulheres o acesso a esta partida. O presidente da Fifa, Gianni Infantino, já havia pedido às autoridades do Irã que tomassem medidas concretas para permitir que mulheres iranianas e estrangeiras comprassem ingresso e entrassem nos jogos.

A morte de Khodayari causou uma indignação generalizada dentro e fora do país e, mas mídias sociais, houveram pedidos para que a federação de futebol iraniana fosse suspensa ou banida. O popular músico iraniano Arash Sobhani, do grupo Kiosk, estava entre os que foram a público para protestar e disse à Reuters que Infantino precisava agir.

“Ele precisa tomar uma atitude e fazer o que é certo. Banir a federação iraniana até que eles permitam que as mulheres frequentem o estádio. Isso deve simplesmente ser como os homens”, ele disse.

Em um comunicado divulgado na terça-feira, a Fifa expressou as condolências e reiterou: "Nossos pedidos às autoridades iranianas para garantir a liberdade e a segurança de qualquer mulher envolvida nessa luta legítima para acabar com a proibição de mulheres no Irã". O chefe de gabinete do presidente iraniano Hassan Rouhani, disse na quarta-feira que as mulheres seriam permitidas nos estádios se a linguagem obscena nos gritos da torcida e a violência esporádica fossem contidas. "Não vemos problema de as mulheres frequentarem se a atmosfera nos estádios for conveniente. Mas com tanta linguagem suja entre torcedores e violência, isso não é aconselhável", disse Mahmoud Vaezi em entrevistas.

Ele disse que o ministro do esporte entraria em contato com líderes de grupos de apoiadores para "melhorar a atmosfera do ponto de vista moral" e áreas especiais para mulheres seriam montadas nos estádios.

"Se houver uma atmosfera bem-educada nos estádios, não temos objeção [a permitir mulheres]", disse Vaezi a repórteres após uma reunião do gabinete.

A seleção do Irã venceu uma partida eliminatória da Copa do Mundo em Hong Kong por 2 a 0 na terça-feira. O capitão Masoud Shojaei divulgou uma declaração no Instagram, descrevendo o jogo como "a vitória mais amarga e triste da equipe nacional".

“Marcamos dois gols e vencemos o jogo em campo. Mas perdemos porque Sahar não está mais entre nós”, escreveu ele. "Vergonha para mim por não ter sido capaz de fazer nada e vergonha para aqueles que tiraram o direito mais óbvio de Sahar e de todas as Sahars."

O ex-capitão da Austrália e ativista de direitos humanos Craig Foster disse à Reuters que a Fifa precisava impor suas próprias regras. "Os estatutos da Fifa dizem que a discriminação em razão do sexo é punível com suspensão ou expulsão", disse ele.

“Apesar da incrível coragem das fãs do sexo feminino e da organização Open Stadiums, dos jogadores do sexo masculino que se manifestaram a favor das mulheres, o jogo não auxiliou. Se não vale a pena respeitar os estatutos, retire-os e permita que o futebol seja honesto com as mulheres do Irã. Porque no momento, apesar da promessa, a igualdade é uma mentira ”, acrescentou.

Havia sinais de que a situação das torcedoras estava mudando quando um grupo de mulheres foi autorizada a participar da segunda etapa da final da Liga dos Campeões da Ásia em Teerã, em novembro do ano passado.

Infantino estava presente no Estádio Azadi quando o Persepolis jogou contra o Kashima Antlers, do Japão, em frente a mais de mil torcedoras em uma seção no estádio designada a família.

Isso ocorreu após esforços conjuntos de grupos protestantes dentro e fora do Irã, apoiados por jogadores e pelo ex-técnico da seleção nacional, Carlos Queiroz. Era esperado um avanço, após a conversa entre Infantino e Rouhani, e esperava-se que mais concessões fossem feitas em relação a nação islâmica conservadora.

Torcedoras, no entanto, continuaram a ter negado o acesso aos jogos. No amistoso do Irã contra a Síria em junho, as mulheres foram deixadas para fora do Estádio Azadi e detidas por forças de segurança.