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Ana Sátila no Olhar espnW: a fera da canoagem, o pai desbravador e o futuro que tem tudo para ser brilhante

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Ana Sátila fala sobre a pressão que sofreu nas Olimpíadas do Rio e assume: 'Nunca senti o que senti ali' (1:39)

Atleta da canoagem slalom é a convidada do Olhar espnW deste mês. Acompanhe AO VIVO às 19h na ESPN Extra e no WatchESPN (1:39)

Ana Sátila Vargas tem cara de menina, mas é uma fera madura das corredeiras, tanto no caiaque quanto na canoa. Ela é a convidada do Olhar espnW que será exibido nesta quarta-feira, dia 28 de agosto, às 19h (de Brasília), na ESPN Extra e no WatchESPN.

Com a apresentação de Marcela Rafael e participação dos jornalistas Bibiana Bolson e Marcelo Gomes, Ana Sátila abriu o coração e não fugiu de nenhum assunto, de nenhuma pergunta.

Contou toda a trajetória na canoagem desde que conheceu o esporte, aos 9 anos. Hoje, aos 23, Ana fala mais das alegrias do que dos perrengues que passou até se tornar uma das mais completas atletas da canoagem slalom da história do esporte no Brasil.

No programa, para lá de descontraído, Ana falou das pressões que sofreu nas duas participações em Jogos Olímpicos (Londres-2012 e Rio de Janeiro-2016), além das provas mais marcantes em Mundiais, Copas do Mundo e Campeonatos Pan-Americanos, aliás, nos estúdios da ESPN Brasil, Ana trouxe as duas medalhas de ouro conquistadas no Pan de Lima, no Peru.

A entrevista revelou a maturidade de uma atleta que assumiu não ter lidado bem com alguns fatores externos que comprometeram seu desempenho na Rio-16.

Entre os assuntos abordados estão o atual momento dos atletas e a falta de apoio ao alto rendimento, a conquista do Mundial Sub-23, o convite que ela recebeu para se naturalizar italiana e a superexposição que ela viveu quando entrou por várias vezes ao vivo nos principais telejornais do Brasil.

No trecho acima ela explica quais foram os fatores externos que a prejudicaram em seu desempenho nos Jogos do Rio.

Promessas de Primavera

Cláudio Vargas tem 68 anos e trabalha como pedreiro em Primavera do Leste. Foi assim que o pai de Ana e Omira conseguiu formar e introduzir as filhas no esporte.

Além das duas filhas, Ana (23) e Omira Maria (19), Cláudio também colocou na seleção brasileira outras duas irmãs que ele descobriu na escolinha de canoagem que tinha na cidade, Marina Souza e Beatriz Souza.

O pedreiro e descobridor de talentos trabalha na cidade de 60 mil habitantes, distante 220 km da capital mato-grossense, Cuiabá.

A saga de Cláudio e de suas filhas começou há 14 anos, quando ele as lançou no “Rio das Mortes”, uma corredeira cheia de pedras, peixes, sucuris e de muita adrenalina para explorar.

No início ele queria que as meninas aprendessem a nadar como ele, um veterano nadador apaixonado por maratonas aquáticas. Mas o Rio das Mortes deu vida a uma nova possibilidade de esporte à família Vargas, a canoagem slalom.

Logo Cláudio comprou um barco usado e pesado para a modalidade. Ele lembra que a primeira embarcação tinha mais de 13kg, e logo ele começou a construir obstáculos no rio para que suas filhas pudessem remar e treinar em uma espécie de pista, com barreiras improvisadas para a prática do esporte.

Nosso primeiro contato com a família Vargas aconteceu há 7 anos, no mesmo dia em que a filha mais velha, Ana, completava 16 anos de idade. A reportagem dos canais ESPN viajou a Primavera do Leste a fim de descobrir os segredos de uma adolescente que havia conquistado uma vaga olímpica aos 15 anos.

Na entrada da cidade logo avistamos o cartão de visita, um outdoor com a foto da canoísta Ana Sátila, parabenizando a atleta pela vaga para os Jogos de Londres-2012. Chegamos à casa da família no dia do aniversário da atleta.

Logo descobrimos que o pai Cláudio tinha feito a filha olímpica limpar a casa toda para nos receber. Logo conhecemos um pedreiro-garimpeiro de talentos e com a língua mais do que afiada.

Nas entrevistas, Cláudio fazia questão de falar que nunca ninguém ajudou sua filha na conquista da vaga e que estava cansado de promessas e tapinhas nas costas.

No vídeo acima, separamos um trecho da reportagem que fizemos à época. Gravamos pai e filha em mais um treino no Rio das Mortes, onde tudo começou.

Foram dois dias mergulhando na história dos Vargas, além de gravar com o prefeito, um dos homens mais poderosas da região no plantio de soja. Essa história é curiosa e mostra como funciona a política no Brasil.

Na noite do aniversário de Ana, fomos convidados a comparecer a uma festa que os empresários e políticos da cidade ofereceriam a ela em um restaurante. Eu, acompanhado do repórter cinematográfico Fábio Lonardi, fomos à festa apenas para gravar umas imagens, já que combinamos que ali não seria o lugar mais adequado para fazermos entrevistas.

No meio da festa, um cidadão me chamou a atenção.

Vi que, onde o Fábio estava gravando, um sujeito sempre aparecia a frente da câmera. Claro que desconfiei, mas logo me contaram: “Aquele é o prefeito da cidade, Getúlio Viana”, algum convidado que estava ao lado me informou, dizendo ainda que ele era muito rico, uma espécie de “rei da soja” da região.

Incomodado com a cena que se repetia, confesso que não deveria, mas resolvi agir em prol de uma família que eu havia acabado de conhecer. Logo me veio à cabeça as dificuldades financeiras contadas por Cláudio Vargas, que me contou que o único patrocínio que eles haviam conquistado era um auxílio de R$ 600 da prefeitura e outro vale mensal de R$ 600 de alimentação de um supermercado da cidade.

Se eles poderiam ter um patrocínio digno, na minha cabeça, a grande chance estava ali.

Foi aí que decidi convidar o prefeito para uma entrevista, mas com uma condição. Propus a ele que pensasse em um patrocínio de suas empresas privadas à atleta mais famosa da região. Perguntei se era possível firmar um compromisso de quatro anos, até os Jogos do Rio, pagando R$ 5 mil por mês. Pedi a ele que pensasse e, se topasse, que aparecesse no dia seguinte para anunciar o tal patrocínio para Ana e o pai Cláudio, que até hoje não sabiam da história.

Confesso que, depois que voltei ao hotel esperando o intenso dia que viria de gravações, me bateu um arrependimento. Acontece que, no dia seguinte, enquanto gravávamos com Ana e Cláudio em um parque da cidade, de longe avisto a caminhonete do prefeito chegando, sinal que ele havia topado fechar um patrocínio-privado com a então jovem promessa Ana Sátila.

Conforme o prometido, gravei com o prefeito, que assumiu o compromisso de apoiar, com suas empresas privadas, a canoísta da cidade até os Jogos do Rio. Getúlio Viana também disse que desembolsaria entre R$ 50 a R$ 60 mil por ano para que a atleta de Primavera do Leste pudesse treinar e se preparar para as competições com a dignidade de uma filha da terra.

A verdade é que, após um ano, reencontramos Ana Sátila morando e treinando em Foz do Iguaçu. Lá, perguntada sobre o patrocínio prometido... adivinha o que aconteceu?

“Não, não recebi nenhum patrocínio do prefeito Getúlio Viana, aliás, ele nem nos chamou para conversar depois daquele dia”, desabafou a atleta.

Não bastasse a decepção de ter colocado o político em uma reportagem tão bonita, soubemos que a história de Getúlio ficou definitivamente manchada por ter sido afastado da Prefeitura pela justiça por improbidade administrativa.

Não é preciso falar mais nada. Que sirva de lição a todos jornalistas como eu, que sonham em executar o papel de Don Quixote, em nossa humilde profissão.

Canoagem não dá voto

Com a ascensão das filhas e a descoberta das irmãs Marina e Beatriz Souza, todas colocadas pelas mãos de Cláudio na seleção, o pedreiro-formador de gente e canoístas estava esperançoso em retomar projeto da escolinha, que está fechada havia mais de um ano.

Um dia antes da gravação do programa Olhar espnW com Ana Sátila, dia 14 de agosto, telefonei para Cláudio, a fim de me atualizar sobre a vida da família Vargas na canoagem.

Perguntei como estava o projeto da escolinha em Primavera do Leste e quais eram os planos para o futuro da modalidade em sua cidade. Entusiasmado, Cláudio disse que iria se encontrar, no dia seguinte, 15 de agosto, com o prefeito da cidade e, que provavelmente teria novidade.

A reunião com o prefeito Leonardo Bortolin tinha como objetivo a reativação do projeto social e de alto rendimento já que, segundo Cláudio, existem mais de 40 barcos encostados e uma raia gigantesca que não são usados para nada.

Dois dias depois, Cláudio nos enviou a seguinte mensagem: “Olá Marcelo. Infelizmente o nosso atual prefeito, Léo Bortolin, me disse que prefere montar 20 times de futebol do que a canoagem, por que assim ele garante mais votos”, esclareceu o pai de Ana Sátila.

Depois de mais uma decepção os políticos de sua cidade, Cláudio disse que vai desistir de Primavera do Leste. Pretende morar ao lado da família, em Foz do Iguaçu, sonhando, quem sabe, em ser contratado pela Usina Hidrelétrica de Itaipu, para continuar com a linda missão de revelar talentos para a canoagem.

Se tudo der errado, o pai da canoagem brasileira diz não ter medo do trabalho e promete continuar na ativa, mesmo próximo de completar 70 anos, como pedreiro.

Um dia após a gravação do Olhar espnW, Ana Sátila foi a Brasília para um encontro com o presidente Jair Bolsonaro. Ana foi a porta-voz dos atletas e pediu ao chefe maior do país uma atenção especial para os esportes e atletas olímpicos.

Ana Sátila não foi defender apenas a pele dela, já que, depois dos ótimos resultados alcançados neste ano, ela conta com o apoio da FAB (Força Aérea Brasileira) e de outros apoios em Foz do Iguaçu. Ana foi lutar para que a irmã Omira Maria e as amigas canoístas Marina e Beatriz não tenham que vender bolo para pagar as despesas com viagens para representar o Brasil.

Que a foto com o presidente Bolsonaro não seja mais uma daquelas provas de grande decepção.