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Como as mais poderosas do UFC caíram? Pelas mãos da brasileira Amanda Nunes

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Amanda Nunes 'esquece' 3º cinturão no UFC por enquanto: 'Tenho meus dois gêmeos para defender' (0:57)

Brasileira não quer saber de traçar metas a longo prazo e quer fazer história defendendo os dois títulos que já tem. Veja a entrevista COMPLETA no WatchESPN (0:57)

Amanda Nunes passa bandagens pretas ao redor de seus dedos e punho enquanto se prepara para entrar no octógono. Um cartaz de seis metros do UFC 200 - a noite em que Amanda Nunes derrotou Miesha Tate para se tornar campeã peso-galo do UFC - está pendurado na parede. Fotos de seus golpes no octógono decoram as paredes da American Top Team (ATT) em Coconut Creek, na Flórida.

Ela ri e conversa em português com algumas pessoas enquanto uma aula de wrestling começa na ATT, lugar que vem sendo a casa de Amanda pelos últimos três anos. A medalhista olímpica Kayla Harrison e a veterana do UFC, Tecia Torres, são duas das muitas celebridades na academia. Neste sábado, Amanda Nunes enfrenta Holly Holm no UFC 239, em Las Vegas. Seu treinamento vai chegando ao fim, e a angústia só aumenta.

Seu treinador, Vitelmo Katel Kubis, coloca um lençol preto na frente do octógono de treinos da ATT. Ele também amarra uma corrente amarela na parte de trás. É uma mensagem clara: "Não se aproximem, campeã treinando."

A tatuagem que fecha o braço direito de Nunes fica à vista quando ela passa atrás da corrente. A tatuagem é recente. A primeira mulher a possuir cinturões do UFC em pesos diferentes tem uma tatuagem do famoso personagem Mario, da Nintendo, em sua panturrilha esquerda - ela adora a franquia de jogos de videogame Mario Kart - e uma chave no antebraço esquerdo. Acima da chave está um '200', evento no qual venceu o seu primeiro cinturão. Um '232' está lá também para o seu segundo.

Amanda fez todas as suas tatuagens, exceto pela leoa nas suas costas, desde a sua primeira defesa de cinturão, contra Ronda Rousey, em dezembro de 2016.

"Tudo," diz Amanda, " tudo mudou."

O jogo de luta prospera em mitos, e Nunes, a campeã pelo-galo e peso-pena, criou o seu próprio: a assassina de lendas. Miesha Tate. Ronda Rousey Cris Cyborg. Nenhuma outra lutadora da história da divisão feminina do UFC despachou tantas lendas. Ela venceu também a atual campeã peso-mosca do UFC, Valentina Shevchenko, duas vezes. A reputação do lutador é a sua marca. Cyborg e Rousey eram "invencíveis". Amanda Nunes é dominante.

"Ela está disposta a lutar contra as melhores", diz Dana White, presidente do UFC. "Ela não só vence. Ela destrói todas."

Se ela vencer Holm, ex-campeã de 37 anos, ela terá vencido todas as mulheres que já tocaram no cinturão galo do UFC. Está aí um motivo para reivindicar o posto de melhor lutadora da história do UFC.

Amanda já está na elite do MMA: ela é uma dos quatro "champ champ", pessoas que tinham dois cinturões do UFC ao mesmo tempo. Conor McGregor, Daniel Cormier e Henry Cejudo são os outros da lista. A questão é que nenhum deles defendeu os dois cinturões com sucesso. Amanda quer ser a primeira.

"Quero que meus cinturões continuem em casa," diz Amanda. "Quero continuar sendo a champ champ."

Ser uma campeã - especialmente em ascensão - significa mais dinheiro. Ela recebeu 100 mil dólares, mais um bônus de performance de 50 mil no UFC 200. Contra a Cyborg no UFC 232, Nunes ganhou 400 mil dólares e um bônus de 50 mil. Com o acordo de patrocínio do UFC com a Reebok, toda vez que Nunes entra no octógono, ela recebe 40 mil dólares, o valor máximo sob o acordo reservado para os campeões. Não são os 3 milhões de dólares que o UFC pagou para Ronda Rousey no UFC 237, mas é muito mais do que Amanda ganhou no começo da carreira.

Depois da maioria das lutas, Nunes gosta de voltar para o Brasil para passar um tempo com sua família. Ela vai ficar o tempo que sua agenda permitir, muitas vezes por semanas.

"Ela só quer voltar para a sua casa para ficar com suas galinhas e seu porquinho. Quer pisar na terra," diz Conan Silveira, seu técnico. "Muitas pessoas se perderiam na escalada até o topo. Eles perdem o foco porque não estão preparados."

É tentador apontar para a caminhonete, a casa, as tatuagens e o dinheiro como exemplos de como Nunes podia se distrair com sua nova fortuna. Seu caminhão pode ter uma nova camada de tinta e uma nova suspensão, mas é o mesmo Ford F-150.

"Quero ser uma pessoa normal," diz Amanda. "Uma campeã das pessoas."

Depois de derrotar Cyborg em dezembro, Nunes chegou a mencionar que pensava em se aposentar. Ela já se retratou. Em uma entrevista recente com Brett Okamoto, da ESPN, Nunes disse que ela ficou um pouco embriagada pela entrevista anterior. Na ATT, ela admitiu que as coisas haviam mudado dentro da divisão do peso-galo.

"Pensei em me aposentar porque a divisão parou", diz Nunes. "Mas ter [Germaine] de Randamie e Aspen Ladd determinará a próxima candidata."

Quando Silveira começou a prestar atenção em Nunes, o UFC estava começando a construir sua divisão feminina "Se não foi exatamente em 2013, foi praticamente no começo", diz Silveira. Amanda Nunes, ele percebeu, já era uma lutadora bem equilibrada. Ela cresceu praticando vários esportes, mas começou no jiu-jitsu e boxe na adolescência.

"Ela era boa em tudo", diz Silveira. "É difícil ver uma lutadora completa nova assim. Geralmente, todos sabem tocar um instrumento, mas não todos eles. Ela sabia, e está melhor do que antes."

Será intrigante ver qual "instrumento" Amanda Nunes escolherá para a luta contra Holly Holm, uma boxeadora multicampeã que tem chutes poderosos. Nunes provou que ela pode se levantar e trocar socos com qualquer uma, mas ela também tem um jogo de grappling afiado.

O que torna Holm particularmente perigosa é que ela não tem nada a perder. Desde que derrotou Rousey no UFC 193, Holm perdeu quatro lutas e venceu duas. Ela está saindo de uma vitória por decisão contra Megan Anderson. Uma vitória contra Amanda daria a Holm uma segunda chance no estrelato do UFC.

"Ela [Holm] está lá para pegar algo pessoal de Amanda," Silveira diz. "São negócios, mas também é pessoal.

No segundo treino do dia, Amanda corre na esteira. Uma câmera aponta para ela, e outro homem estende um longo microfone em sua direção. Ela está sendo filmada para o UFC Destined, um programa que vai ao ar na ESPN + e apresenta lutadores no período que antecede os confrontos de pay-per-view.

As câmeras estarão lá por mais dois dias, seguindo Amanda por todo os cantos. Ser filmado para o UFC Destined é emblemático da relação entre o Nunes e o UFC. Com a primeira defesa de Nunes contra Ronda Rousey, e essa luta sendo a primeira de Ronda desde sua derrota para Holm, isso significou que quase toda a promoção da luta estava centrada na volta da americana. Nunes trabalhou duro para se tornar a campeã, mas a luta foi inteiramente trabalhada em cima da desafiante. "Foi desrespeitoso," diz Silveira.

Dois anos depois, quase no mesmo dia, Amanda Nunes nocauteou Cris Cyborg em 51 segundos para vencer seu segundo cinturão no UFC. Ela saiu correndo e procurou por Dana White, apontando-lhe o dedo. A noite nem havia terminado e o chefão do UFC estava dizendo em todos os canais que Amanda era a melhor da história.

O que uma vez foi um relacionamento tenso desde então floresceu em uma amizade. Há dois anos, White levou Amanda e Nina para jantar no Bazaar Meat em Las Vegas. Eles se deram bem. "Eu a amo e faria qualquer coisa por ela", diz Dana.

Quando Dana White colocou os dois cinturões nos ombros de Amanda após a vitória contra Cyborg no UFC 232, Amanda correu o octógono com uma alegria desenfreada. Ela pulou nos braços de Silveira, se agarrando aos dois cinturões. "Você sempre quer compartilhar esses momentos com as pessoas que te ajudaram e que acreditam em você", diz Nunes. "Eu abracei todos do meu corner naquela noite. Fizemos isso juntos."

Acima da lareira de Amanda Nunes, estão seus cinco cinturões. Toda vez que ela defende seu título, ela adiciona outro. Independentemente do que acontecer contra Holm, esses cinturões e aquilo que ela fez nos últimos dois anos e meio não podem ser apagados.

Ela ganhou oito lutas consecutivas. Ela é a única mulher não chamada Ronda Rousey que conseguiu defender o cinturão peso-galo com sucesso.

"Eu provei que sou a melhor", diz Amanda. "Eu vou continuar provando isso."