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Por que Lyon e não Paris vai receber a final da Copa do Mundo feminina?

França tem uma longa história em receber grandes eventos esportivos, e geralmente, a cidade anfitriã é Paris.Os Jogos Olímpicos de 1924 foram em Paris e serão novamente em 2024. Os jogos da Copa do Mundo de 1938 e a Copa de 1998 foi em Paris. As finais do Campeonato Europeu de 1960, 1984 e 2016 foram em Paris. O jogo do título do Mundial de Handebol foi em Paris, em 2015.

Tudo isso faz sentido. Paris é... Bem, Paris!

Mas por que então as semifinais e a final da Copa do Mundo feminina não serão em Paris e sim, em Lyon?

A principal razão é que Lyon merece isso”, disse Erwan Le Prevost, chefe do comitê organizador do torneio ao ESPN.com.

Pode soar estranho, particularmente para quem pensa que Lyon é tão pequeno quanto uma cidade ‘secundária’ da França – que na verdade, é a terceira cidade mais populosa depois de Paris e Marseille. Mas a verdade é que Lyon, localizado a cerca de 320km da capital francesa e muito conhecida por incríveis restaurantes e lindos festivais, tem sido o coração do futebol feminino no país.

O clube da cidade, Lyon, foi o primeiro time grande a investir de verdade em um time feminino, contratando as melhores jogadoras e, mais importante, tratando-as da mesma forma que o time masculino.

O presidente do clube, Jean-Michel Aulas, criou o time feminino em 2014, quando ainda não haviam precedentes de equipes femininas. Poucos clubes da Europa tinham um time feminino e, se tinham, era bem superficial.

“Eu percebi que a divisão entre o futebol feminino e masculino era total”, disse Aulas para a Euronews ainda neste ano. Mas talvez, se nós tentássemos aumentar o valor das jogadoras com o valor da igualdade na mente, e se nós elevássemos as características do jogo feminino, para a demanda ficar ainda maior, poderíamos ser levados por uma onda”.

E isso aconteceu. O Lyon se tornou muito rápido em um gigante em campo, vencendo 13 títulos consecutivos da Liga Francesa e seis dos últimos nove torneios da UEFA Women’s Champions League, além de se tornar um exemplo de como o futebol feminino poderia – e deveria – se desenvolver.

As melhores jogadoras de todo mundo passaram a olhar para o Lyon, atraídas pelas oportunidades e por ser tratada como um atleta profissional deve ser tratado e como grandes talentos do futebol masculino.

Aulas também é um ativo recrutador. A lista de jogadoras que passaram pelo Lyon é até difícil de acreditar: Alex Morgan, Megan Rapinoe, Hope solo, Lotta Schelin, Caroline Seger, Camile Abily e Louisa Necib.

Atualmente, Ada Hegerberg é a estrela do time e foi a primeira mulher a receber o prêmio Bola de Ouro da Revista France Football. Além dela, também jogam no time as capitãs da Alemanha, Japão e da França.

Muito mais do que simplesmente curtir o momento de vitórias, é a aceitação e apreciação da cidade pelo time feminino. Existe um reconhecimento dos fãs e da mídia que alegam o quanto é importante ser representado por um time feminino. Aulas construiu um novo estádio para o clube, que sediará os jogos da Copa do Mundo e é onde as mulheres jogam as partidas mais importantes.

Em abril, o Lyon bateu o recorde de público no Campeonato Francês na partida contra o PSG: 25.907 pessoas. “É a cidade do futebol”, disse Le Provost.

“Eles estão muito orgulhosos e isso vai de acordo com o forte compromisso de Aulas. Nós sentimos que é importante colocar essas partidas na cidade que fez muito mais pelo esporte do que qualquer outro lugar”, completou.

Segundo Le Provost, ainda houve muita pressão dos oficiais da federação na hora de tomar a decisão sobre onde seriam as finais do torneio, bem como de alguns funcionários do governo. Paris é uma cidade mundial e o Stade de France, parecia um local natural de acontecer. O debate entre os organizadores foi significativo.

No final de tudo, Lyon sente-se como uma ‘escolha natural’, explicou Le Provost, porque os organizadores sabiam que podiam contar com a cidade para proporcionar uma atmosfera de festa e frenética, focada no futebol.

“Em Lyon, os ingressos se esgotaram em dois dias. Não importa o time. As pessoas sabiam que os cidadãos iam querer participar”, falou Le Provost.

O Lyon oferece algo interessante ao torneio que, muitas vezes, tem lutado para atrair multidões. Embora a Fifa tenha sido rápida em divulgar as impressionantes médias de público que a Copa do Mundo atraiu pela televisão, o compromisso do órgão regulador de anunciar o torneio na França vem sendo criticado – as comparações com a Copa do Mundo na Rússia ficam pequenas.

A Fifa também, estranhamente, falhou em não usar as mídias sociais para divulgar o fato de que muitos jogos da fase de grupos ainda tinham ingressos disponíveis. Mas obviamente, não foi o caso em Lyon. E enquanto muitas pessoas estão procurando controvérsias de porquê a final não será em Paris, não há como negar que o Lyon está muito ciente da sua importância como anfitrião das finais.

“É uma cidade que não precisamos explicar para ninguém porquê é tão importante – todo mundo sabe”, disse Le Provost. E ele riu: “Sim, mover a final para um lugar que não era Paris parece louco, mas é uma loucura do lado certo. É o lugar onde ela pertence”.