<
>

Capitã dos EUA tem um assunto mais importante a tratar do que 'discutir' com Trump

Megan Rapinoe é a capitã dos Estados Unidos, seleção tricampeã da Copa do Mundo feminina. Nesta edição, ela já anotou 3 gols e ajudou a seleção a chegar as quartas de final, contra a França. Megan não faz questão de esconder que quem a incentivou no mundo do futebol foi o irmão, Brian.

Mas quem é Brian?

Megan tem uma irmã gêmea, Rachael, e mais três irmãos além de Brian que, aos 15 anos, levou metanfetamina para a escola e foi preso. Sua vida se resumiu entre viver dentro e fora do cárcere e hoje, aos 38 anos, Brian está ‘livre’, usando tornozeleira eletrônica.

Os irmãos de fato tomaram caminhos diferentes. Ele: jovem, preso, membro de gangue e tatuado com suástica. Ela: jogadora profissional de futebol, luta pela causa LGBT e foi a primeira atleta branca a se ajoelhar para protestar contra a desigualdade racial.

Apesar da discrepância, Brian afirmou que eles mantiveram contato durante toda a vida através de cartas e telefonemas. “Eu tenho muito respeito por ela. E não só porque ela é o que é no futebol. É a sua convicção absoluta nas coisas em que ela acredita e as posições que ela toma contra as injustiças do mundo", diz ele em entrevista ao ESPN.com.

“Eu era o herói dela, mas agora, não há nem o que questionar, ela é a minha”. Brian apresentou o futebol para Megan, que disse: “Eu o adorava. Ele jogou de esquerda, então eu joguei de esquerda. Ele vestiu número 7, eu vesti número 7. Ele cortou o cabelo tigela, e eu fiz isso também”.

O irmão começou a fumar maconha aos 12 anos de idade, quando Megan tinha 7 e não entendia muito bem o que ele estava fazendo. “Uma droga sempre leva a outra. Eu estava viciado”, disse ele, que acabou se empolgando em viver uma vida insana: ficar ‘chapado’, dirigir bons carros e usar drogas. Ela pediu que ele parasse, mas três anos depois, ele foi preso por levar metanfetamina para a escola.

“Por muitos anos, Megan e Rachel ficaram furiosas comigo. Elas continuaram me amando, me deixando saber que elas estavam lá por mim, mas estavam tipo: que merda você está fazendo?”, relembrou Brian.

Aos 18 anos de idade, Brian acabou avançando para outras drogas, especificamente heroína. Ele foi acusado de roubo de carro, evasão de prisão e atropelamento ao dirigir sob efeito de drogas. Na prisão, ele foi tatuado com suásticas.

Na visão de Denise, mãe de Rapinoe, as tatuagens devastaram a família: “O preconceito, o racismo, foi tão contra a maneira que ele foi criado. Ele não era esse tipo de criança, ele era gentil e de natureza amorosa”, disse.

Brian justifica que as tatuagens não eram sobre preconceito e nazismo, mas sobre sobreviver na prisão de maneira mais confortável: quanto mais ele fosse parte ativa da gangue, mais heroína ele poderia usar. Lá, ele era envolvido na gangue, tinha armas de fogo e portava drogas, o que fez com que ele passasse 8 dos 16 anos de prisão na solitária por mau comportamento, até ser transferido para uma prisão de segurança máxima na Califórnia.

Mas em 2010 e com uma nova compreensão sobre a vida – e sobre a supremacia branca – ele arrumou algumas de suas tatuagens: a suástica na palma das mãos, por exemplo, se tornou uma teia de aranha. Fora da prisão, porém, ele continuava usando heroína e, no ano seguinte, foi preso por tráfico.

2011 foi o ano da primeira Copa do Mundo da irmã e ele assistiria atrás das grades, em uma pequena televisão de 15 polegadas, quando presenciou Megan Rapinoe anotar seu primeiro gol, contra a Colômbia, correr para a beira do gramado, pegar o microfone do camera man e cantar ‘Born In the USA’, do Bruce Springsteen.

Nas quartas de final contra o Brasil, todos os detentos estavam assistindo ao jogo. “Nós estávamos ficando loucos. Estávamos gritando e batendo nas portas”, disse Brian ao relembrar o cruzamento que a irmã fez para Abby Wambach empatar o jogo.

Na Copa do Mundo seguinte, no Canadá, Brian estava novamente na solitária enquanto a irmã jogaria a segunda Copa da carreira. “Isso era o mais difícil. Eu estava super feliz por Megs e super triste por mim. Eu amava minha família pra caramba. Todos eles estavam lá. E eu estava tipo, que merda, cara. Eu não estava fazendo parte disso”, lamentou.

“Sim, eu dei muito apoio a ela da prisão, mas quando o jogo acabou, eu estava sentado em minha cela. Não estava lá para dar um abraço (...) Isto é só uma das coisas de nossa vida que eu continuo sentindo falta. Que merda eu estou fazendo da minha vida?”.

Foi em setembro de 2016 que Brian teve um insight. Quando Megan Rapinoe ajoelhou durante a execução do hino nacional e a imagem viralizou mundialmente, Brian se orgulhou da luta da irmã junto com outros colegas de cela. Mais tarde, enquanto pedia que um amigo injetasse heroína em seu pescoço, ele começou a se perguntar coisas sobre sua própria vida e tentar entender por que motivos ele havia chegado a este ponto.

“Olhe tudo o que ela fez em sua vida e olha o que você está fazendo com a sua”. Isto o fez finalmente procurar reabilitação – o que também diminuiu o tempo de sua sentença na prisão. 24 anos depois de viver no mundo das drogas, Brian afirma estar limpo há 18 meses.

Ele ainda está cumprindo prisão, com uma tornozeleira eletrônica. Mas está estudando no San Diego City College, faz parte do programa de reintegração e ele precisa finalizar os estudos.

No futuro, ele pretende ter seu próprio programas para jovens não caírem nas drogas como ele. “Eu quero fazer a diferença. Quero ser como Megan”, diz.

“Meu irmão é especial. Ele tem muito a oferecer. Seria uma pena que ele deixasse este mundo com nada além de prisões por trás dele. Ser capaz de tirá-lo e jogá-lo por ele, e vê-lo saudável, com esta diferente perspectiva que ele tem agora: osso é como a melhor coisa”, disse Megan.

Enquanto Megan está na França, os dois trocam mensagens diárias.

E a capitã ainda é capaz de relembrar ao mundo que quem a incentivou a jogar futebol foi o irmão.