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Da luta contra a ditadura aos gramados, Léa Campos dividiu manchetes com Pelé para ser pioneira no mundo

“Puta merda, essa mulher não desiste nunca”.

Segundo Asaléa de Campos Fornero Medina, essas foram as palavras de João Havelange, na época presidente da CBD (Confederação Brasileira de Desportos), em 1971. Asaléa, mais conhecida como 'Léa Campos', foi a primeira mulher árbitra de futebol do mundo reconhecida pela Fifa, e as palavras foram ditas por Havelange, no mesmo dia em que ele concederia uma coletiva de imprensa em relação a aposentadoria de Pelé.

Lá, ela esperava algo que parece óbvio para quem finalizou um curso de arbitragem: o direito de receber seu diploma, já que havia concluído os estudos em 1967. Quatro anos depois da conclusão, Léa recebeu um convite da Fifa para arbitrar um amistoso e também o primeiro Campeonato Mundial de futebol feminino, no México.

Para convencer o ex-presidente da CBD, ela estava munida de uma carta do então Presidente do Brasil, Emílio Garrastazu Médici. “Não foi nem uma carta, foi um bilhete”, disse Léa ao espnW.com.br.

Em Belo Horizonte, a árbitra conta que foi até Médici como penúltima alternativa para que Havelange liberasse o seu diploma – a última, segundo ela, seria o Papa. Para chegar até lá, o caminho também foi difícil. Na época, ela era Rainha do Exército, e relembra: “Que ditadura é essa que bota uma mulher como representante do exército?”

“Eu já tinha esgotado tudo com João Havelange, já não tinha mais saída para mim”, conta Léa, que completa: “A última frase dele para mim foi que enquanto ele presidisse a CBF [na época, CBD], nenhuma mulher atuaria no futebol”.

Aproveitando a passagem de Médici por Belo Horizonte, cidade onde morava, ela solicitou uma audiência rápida, de apenas 30 segundos e conseguiu, garantindo que ainda sobraria tempo.

“Era uma sexta-feira. Fui lá no hotel onde ele recebia o pessoal da imprensa, e ele leu meu nome no papel e mandou me chamar: ‘você pediu 30 segundos de audiência, dá tempo de piscar o olho’. E eu falei ‘para mim é o suficiente’”, relembra.

Aqui, Léa tentou reproduzir o que disse ao Médici dentro de 30 segundos e acelerou a voz no telefone para ficar ainda mais fiel:

“Eu preciso que você mande uma carta para o João Havelange, porque recebi um convite para arbitrar futebol feminino no México, porque aqui futebol feminino não existe e eu preciso de autorização para esse convite e representar o Brasil, muito obrigada é isso que eu quero”.

26 segundos foi o que ela precisou e, de imediato, o presidente já tinha uma resposta. “Ele me disse que esses 4 segundos que sobraram, ele me esperava em Brasília na segunda-feira para almoçar com ele”.

O ALMOÇO COM MÉDICI

O final de semana que antecedia o encontro, foi para Léa o mais longo de sua vida. Cheia de medos e receios, ela conta o que o pai disse durante os momentos de aflição e ansiedade antes de reencontrar o ex-presidente. “Ele me dizia: ‘Léa, por que você está assim? Você quebrou tantas barreiras, você vai se coroar, sem medo, sem receio. Com pensamentos positivos na sua mente, você vai conseguir’. E eu peguei o ônibus no domingo à noite para ir até Brasília”.

“Se eu tivesse ido a pé para o Japão, acho que teria chegado mais rápido, nunca que chegava a tal de Brasília”, se diverte a ex-árbitra ao lembrar do longo percurso.

Ao chegar na Capital Federal, Léa conta que nem o taxista acreditava que ela teria um almoço com Médici. “Ele me perguntou: ‘de que hospício você veio?’; e eu falei: ‘do mesmo que está sua mãe, nós somos coleguinhas de quarto, eu consegui escapar, ela não quis, ficou lá e eu sai’. Daí ele me levou”.

Trêmula como ‘uma vara de pescar’, como a própria definiu, o almoço com o presidente estava confirmado e, finalmente, eles se reencontraram, almoçaram e ele escreveu um bilhete de próprio punho afirmando que Léa representaria o Brasil no México como árbitra. No final, uma surpresa.

“Ele me levou até o quarto do filho dele. Ele tinha mais coisas sobre mim do que eu. O cara era meu fã, menina. Incrível! Eu nunca esperava isso, ‘nunca dos nuncas’, como eu costumo dizer. E ele ainda me deu uma revista francesa, a mesma que elege os melhores jogadores do mundo e disse que tinha certeza que o filho dele tinha mais, porque tudo sobre minha vida ele comprava em duplicata”, relembrou.

“Ele me mandou com um avião das Forças Armadas Brasileiras (FAB) para o Rio de Janeiro, para que eu falasse com o João Havelange no dia da despedida do Pelé”, disse.

O FALSO DISCURSO DE JOÃO HAVELANGE

Com todo suporte de Médici, que mandou um motorista busca-la no aeroporto do Rio de Janeiro, ela bateu na porta de João Havelange com o bilhete em mãos. No dia, aconteceria uma coletiva de imprensa no final da tarde por conta da despedida de Pelé e, por isso, “estava cheio de gente, gente que não acabava mais, muito repórter”, definiu Léa.

Dentro da sala, ela o deu o bilhete e conta que Havelange optou por adiantar a entrevista coletiva. Todos foram para a sala de imprensa e Léa reproduziu o discurso:

“Estou com a felicidade incontida hoje. Porque eu tenho a oportunidade de, no meu mandato, poder levar ao mundo a primeira mulher árbitra de futebol profissional, e é na minha gestão. É com muito orgulho e com muita felicidade que eu faço o mundo saber que a primeira arbitra de futebol é brasileira e vai sair do mundo como representante máxima do futebol brasileiro”.

Havelange estava atribuindo a sua gestão o fato de a primeira árbitra do mundo ser brasileira. “Como pode ser falso? Depois dizem que nós, mulheres, somos falsas. Mas esse aí ganhou o concurso internacional, viu? A partir daí, minha vida virou um inferno”, relembrou.

Mas ‘o inferno’ nesse caso foi que Léa passou a dividir manchetes com o Pelé, repórteres queriam saber mais sobre aquela garota tão poderosa. “E assim foi: ele me prejudicou por 4 anos e depois me botou na bandeja para o mundo inteiro me conhecer. Foi muito bom para mim, foi bom demais. Foi uma redenção, exatamente”, concluiu a árbitra sobre sua saga, e ainda relembrou sua relação com Pelé.

“Depois de muito tempo, encontrei Pelé em Nova York e ele me falou: ‘você é f..., hein? Acabou dividindo minha despedida da seleção com a imprensa mundial. Você não é fácil’. Mas eu não dividi nada, Pelé é Pelé e Léa é Léa”.

POR TRÁS DA LUTA – E QUASE DAS GRADES

A luta de Léa em época de Ditadura Militar a causou alguns problemas. Na Era Getúlio Vargas, a constituição brasileira instituiu que mulher jogando futebol seria um crime. O que não entrava na cabeça dela é que ela não queria jogar, apenas arbitrar. Ela relembra, porém, que muitas vezes não resistia e acabava jogando nos campinhos do bairro, mas o que era para ser diversão, terminava na delegacia.

“Nunca deixei nenhuma menina ir presa por minha causa. A polícia vinha, falava para todo mundo correr e eu ficava sozinha. A bola era minha, a ideia era minha”, disse.

Mas embora ela sempre defendesse as garotas, Léa relembra dos repúdios que sofreu as próprias colegas: “As meninas me repudiavam por causa disso, mas nunca dei importância para elas, era meu desejo que tinha que ser realizado, não tinha cerca que eu não pulasse”.

Léa relembrou também que, certa vez, algumas mulheres de São Paulo fizeram um abaixo-assinado, enviado para a CBF não liberar seu diploma. Mais tarde, em Belo Horizonte, fizeram uma passeata na Avenida Alfonso Pena, lutando também contra ela.

Tudo isso rendeu muitas idas a delegacia e uma amizade com o delegado que, certa vez, desistiu de tentar mantê-la por lá e reproduziu as palavras dele: “você vai continuar fazendo, vão continuar te prendendo, por minha conta, está liberada. A polícia pode te trazer, mas você entra por uma porta e sai pela outra’.

“VÁ À LUTA, CARAMBA!”

“Estou com 75 anos, eu nunca aceitei um não como resposta. Não quero N, não quero A e não quero O. eu quero S, quero I e quero M. Eu sempre substituí as três letrinhas pelo ‘sim’ e por isso eu consegui. Em pleno regime militar eu bati na porta do Emílio Garrastazu Médici para me ajudar e consegui. Por que você não pode conseguir também? Luta, caramba! Vai à luta”, disse Léa, empolgada ao telefone.

Pioneira na arbitragem e também no jornalismo esportivo, já que foi uma das primeiras repórteres de campo e sofreu muitas indagações quando precisava entrevistar jogadores dentro do vestiário, Léa foi responsável por um plantio que hoje, está semeando. Um dos exemplos mais atuais é de Edina Campos, uma das três árbitras brasileiras que estará na França durante a Copa do Mundo feminina de futebol. Edina arbitrará no próximo sábado (24) um jogo de série A do Campeonato Brasileiro, algo que não acontecia há 14 anos.

Se antes as mulheres repudiavam pessoas como Léa, hoje isso é motivo de apoio e comemoração. “Eu me sinto muito feliz [pela Edina], porque estou vendo meu sonho ser realizado depois de tantos anos. Vejo mulheres que buscam uma forma de entrar para arbitragem, que buscam formas de jogar futebol... Hoje vejo que minha luta, meu sonho, minha garra, valeu a pena. Vejo que abri uma porta para que muitas mulheres pudessem passar”.

Se Léa considera ter tido seu sonho realizado na época em que entrou em campo para apitar? “Em partes para mim, porque era um desejo meu de... não era nem tanto por mim, era para conseguir uma alternativa para as mulheres”, respondeu.

Depois de tanta luta, ela confirma não ter se arrependido de nada: “Não me arrependo de nada que eu fiz, me arrependo daquilo que deixei de fazer. Mas eu penso que eu poderia ter feito mais”.

E o que seria se Léa tivesse feito mais? “Se eu fizesse mais, você teria saído do telefone e vindo até aqui para me dar um abraço”, finalizou.