Não há expectativa e não há empolgação. Estamos a 91 dias da Copa do Mundo Feminina e aqueles que acompanham a categoria temem um vexame.
Os indícios estão por todos os lados: sete derrotas seguidas, sem organização em campo, sem organização fora e sem perspectiva de melhoria. Nesta semana, o Brasil deu adeus à She Believes Cup com impressionantes três jogos e três derrotas.
E os problemas são muitos. Eu poderia escrever páginas e páginas sobre o momento do futebol feminino no Brasil, mas vou tentar resumir. Hoje, dois problemas são crônicos: Vadão e CBF.
Começando pelo mais ‘imediato’: o treinador da equipe brasileira é um velho conhecido.
Vadão está em sua segunda passagem na seleção. Ele comandou de 2014-2016, preparando a equipe para a Olimpíada. Após terminar em quarto lugar e com a saída já programada, Vadão deixou o comando das jogadoras.
Emily Lima assumiu o cargo e não conseguiu os resultados que pediram e logo foi retirada do comando. Ah, se ela tivesse sido tratada com a tolerância de Vadão, né?
Com a vaga em branco, a CBF achou melhor recorrer ao antigo treinador. Vadão assumiu a posição e se mantem até hoje. Inexplicavelmente.
A Copa do Mundo Feminina começa em poucos meses e o retrospecto da equipe é: derrotas, derrotas e derrotas. Para não me chamarem de resultadista, a análise vai além do placar.
No último jogo, na derrota (claro!) para os Estados Unidos, ficou explícita a bagunça em campo. Marta exausta buscando jogo no campo de defesa e Andressa Alves, atacante do Barcelona, jogando na lateral-esquerda. Falta repertório? Sim! Mas para isso precisamos de um comandante que leve a sério seu posto. É fácil trabalhar sem pressão.
Agora, imagine Tite escalando Coutinho na lateral...rapidamente vejo torcedores lançando chamas na Granja Comary.
Quando Vadão começará a ser cobrado pelas péssimas atuações? Quando a CBF vai tratar o futebol feminino com a mesma ‘seriedade’ que trata o masculino?
Para aqueles que ainda insistem em não entender a importância do momento que a seleção vive, é só inverter os papéis: pense no Brasil, masculino, há 91 dias da Copa, sete derrotas seguidas e sem uma partida convincente...
Mas é claro que a culpa não é SÓ do treinador. A entidade maior, a instituição que deveria zelar pelo futebol brasileiro não parece estar preocupada com a categoria. A verdade é que a CBF parece estar em uma missão de estragar a imagem e a hegemonia brasileira no futebol – seja masculino ou feminino.
A culpa da Confederação é ainda maior: a falta de incentivo e de profissionalismo ao tratar do futebol feminino, desanima jovens a começar a carreira no esporte. Logo, não desenvolvemos novos talentos. Parece que Marta carrega a reputação da CBF há séculos, mas isso não será eterno.
Sem novos talentos, vemos a Formiga, aos 41 anos de idade, indo para mais uma Copa do Mundo. É necessária uma reformulação, incentivo para atletas surgirem e é preciso, principalmente, seriedade no trabalho.
Marco Aurélio Cunha, Coordenador de Futebol Feminino da CBF, já foi alvo de críticas e problemas com jogadoras. O dirigente não parece estar preocupado com a situação que ele é responsável.
Cristiane quando anunciou que sairia da seleção publicou em suas redes sociais um desabafo: ‘’E eu cansei de ouvir de diretor que nós só sobrevivemos por causa do dinheiro do masculino.’’
Um fracasso na Copa pode atrapalhar o desenvolvimento no Brasil
A consequência pode ser muito maior e muito mais problemática.
A população já tem resistência ao futebol feminino por questões culturais que passam pelo desconhecimento até o machismo.
Pela primeira vez a Copa Feminina terá transmissão de duas emissoras e passará na TV aberta, oportunidade de ouro para atrair fãs e desenvolver proximidade e afinidade dos brasileiros com a equipe.
Em junho, com a Copa, o brasileiro corre o risco de ver uma seleção fraca, perdida e longe do futebol ideal, e isso reforçará o preconceito com a categoria.
O descaso da CBF pode enterrar o futebol feminino no Brasil, dando margem aos oportunistas para criticar as mulheres e o discurso de ‘é chato’, ‘nunca vai crescer’, ‘não consigo assistir’ se tornará cada vez mais forte.
Privilegiados são aqueles que, como eu, conseguem assistir jogos da liga norte-americana e da Inglaterra, por exemplo. Ver times como Manchester City, Arsenal, Portland Thorns, North Carolina e tantos outros jogando, mostra a real face do futebol feminino: é bom. Exista tática, existe modelo de jogo, existe seriedade, existe estádio cheio, existe investimento.
Aos que chegaram até aqui no texto peço que abram seus corações para outras seleções, assistam à nova geração e à nova fase do feminino que passa – E MUITO – longe do nível do Brasil.
Por fim, vale dizer que o elenco é o menos culpado (até inocente) aqui. Essas jogadoras são vítimas do descaso, do preconceito e da batalha que é jogar futebol neste país.
Torcerei pelas 23 convocadas e não pela CBF.
