Embora muito se fale da falta de valorização do futebol feminino aqui no Brasil, também é importante olharmos para fora e percebermos uma realidade diferente – seja ela boa ou ruim. Nos Estados Unidos, temos a maior liga de futebol feminino do mundo. Na França, o investimento na modalidade só tem crescido. No Brasil, embora tenhamos andado em passos lentos, vemos alguns frutos serem colhidos no feminino. Mas nem todos os países veem a categoria de forma profissional e, embora a Libertadores seja um grande torneio, os times que a disputam tem uma realidade difícil.
Embora o uruguaio Peñarol seja um time desenvolvido no masculino e tenha 5 títulos da Libertadores da América em sua sala de troféus, no feminino, além do time estar participando do torneio pela primeira vez, as jogadoras nem recebem para jogar. Em entrevista ao espnW, a atacante Lourdes Viana, afirmou: “Aqui no Uruguai não recebemos para jogar e por isso, temos um trabalho a parte além do futebol”.
A camisa dez do time campeão uruguaio trabalha em uma importadora de gesso e madeira, sendo responsável por toda mercadoria que entra e que sai. De segunda a sexta-feira, Lourdes chega no trabalho às 7h da manhã, tem uma pausa de 1h15 para o almoço e sai às 17h para ir ao treino. Além do futebol, ela também joga futsal pelo Peñarol.
Sua história na modalidade começou bem cedo: aos 4 anos ela já se interessava por futebol, mas não pôde começar a competir porque as regras não permitiram que mulheres jogassem a liga masculina e, até então, não havia um time feminino. Mesmo assim, a família sempre a apoiou e aos 8 anos, ela conseguiu permissão para jogar “baby fútbol”, uma modalidade diferente do futebol tradicional, mas que a permitiu atuar com meninos.
Hoje, ela é uma das craques do Peñarol, dividindo “o posto” com a goleira Catia Gómez, que joga na seleção uruguaia de futebol.
O futebol feminino dentro do Peñarol é relativamente novo, e Lourdes diz: “A princípio, nos davam campo, técnicos, professores e obviamente, quando fomos vencendo campeonatos, fomos aumentando a infraestrutura dentro da instituição” – mas reconhece que não é comparável com os homens – “Os homens são muito distintos e não estamos nem perto deles dentro do time. Acredito que nenhuma equipe de futebol feminino se assemelha aos homens”.
Além da falta de visibilidade do feminino, ela também acredita que a violência dentro dos estádios, advinda dos clássicos masculinos, acaba afastando o público interessado de torcer das arquibancadas. “É um problema que enfrentamos nos clássicos nacionais, as famílias gostam de frequentar, mas estamos vendo como solucionar isto para o próximo ano, já que a violência tem afastado as pessoas do estádio” – completou Lourdes.
Em 2017, o Peñarol venceu pela primeira vez o Campeonato do Uruguai, derrubando a hegemonia do Cólon FC, campeão nos últimos quatro anos de campeonato. Este ano, além de estarem na primeira Libertadores da história, chegaram novamente a final do campeonato uruguaio, que será decidida no próximo dia 09 de dezembro, novamente contra o Cólon.
Para a Libertadores, Lourdes acredita que o brasileiro Audax e o colombiano Atletico Huila são fortes e oferecem a maior dificuldade no grupo A. O primeiro jogo o Peñarol é hoje, às 22h30 (Horário de Brasília), contra o time da Colômbia, que ela considera o favorito do grupo. Em seguida, o Peñarol enfrenta o Union Española de Guayaquil (EQU), na quinta-feira (22) e por último o Audax, no domingo (25) às 20h.
