Aos 37 anos e nascida em Iacanga, pequena cidade do interior Paulista, Jéssica de Lima anunciou após a final do Campeonato Brasileiro na última sexta-feira (27) que aquele seria seu último jogo pelo Rio Preto. Aos 11 anos, a zagueira começava sua carreira no futebol, mesmo com resistência de sua mãe: “Passei por dificuldades como a maioria das meninas que jogaram nos anos 90, mas o que minha mãe tinha era medo. Meu pai era falecido e ela tinha quatro filhos para criar. Como ela tinha que trabalhar, ficávamos sozinhos o dia todo. A preocupação dela era que uma menina da minha idade ficasse no meio dos meninos” – relatou em entrevista ao espnW.
A vida da meia foi praticamente toda no Rio Preto, clube em que atuou durante 19 anos. Aos 16 anos, em um jogo pelo Marília, Dorotéia, coordenadora de futebol feminino do Rio Preto, a convidou para ir a São José do Rio Preto para atuar pelo time, e ela aceitou. Tendo passado pelo São Paulo, onde ficou por pouco tempo por conta da inativação do departamento feminino de futebol, ela voltou ao interior onde, além de jogar, formou-se em Educação Física, em 2004.
Quando o Rio Preto não participou do Paulista, ela jogou pelo São Bernardo e, no ano seguinte, passou um tempo no Marsala, da Itália. Mas o destino a trouxe para o Rio Preto novamente. Em 2008, ela iniciou uma escolinha no interior, a qual leva até hoje. “É uma escolinha de futebol feminino em parceria com a Secretaria de Esporte” – contou ao espnW – “Eles me dão estrutura, pagam minhas aulas e, depois do boom da geração Marta, houve uma grande procura do futebol feminino aqui na cidade”. São José do Rio Preto tem grande tradição no feminino e a meia, por sua vez, decidiu dar oportunidade para que as meninas jogassem apenas entre meninas. “Na minha adolescência, sempre joguei com os meninos e chega uma época que isso atrapalha. Estou tentando realizar o sonho de muitas meninas” – disse Jéssica de Lima, que destacou a presença de Karina, aluna de sua escolinha, como lateral direita no jogo contra o Corinthians.
Além de jogadora e professora da escolinha de futebol, ela também é preparadora física do time, uma verdadeira “faz tudo”. Três funções distintas e desgastantes, mas que ela ressalta: “Me trouxe uma experiência enorme, dentro e fora de campo. O lado ruim é o desgaste porque me entrego muito. Mas não tenho que ficar cobrando ninguém. Elas aprendem, entendem e, por isso, desde 2015 estou nessa função”. Todo preparo da jogadora deu certo, já que o Rio Preto venceu o Brasileiro em 2015 e conquistou três vezes consecutivas o Campeonato Paulista (2015, 2016 e 2017).
Com tantas conquistas, ela citou acreditar que o diferencial do Rio Preto é não aceitar a dificuldade como desculpa para derrota: “Quando você tira essa muleta psicológica da sua cabeça, você é dono das suas ações. Quando você é dono das suas ações, aumenta a responsabilidade interna e você se cobra mais. Aí você sai da mediocridade, da mesmice, da pequeneza” – disse ao espnW. Para ela, a filosofia de acreditar. aliada ao talento das atletas, são o grande diferencial do clube.
Mesmo não sendo um clube feminino que é reconhecido pela ‘sombra’ do profissional masculino, Jéssica conta também que acredita que ter ou não estrutura não é garantia de títulos e de bom trabalho: “Se fosse assim, não haveria campeão, porque muitas equipes têm estruturas remetendo ao futebol masculino” – disse. Para ela, quem vence é quem quer mais: “Quando você não tem estrutura e quer, você não liga, vai em frente e busca. Tem horas que você chega no limite, como em nossas finais do Brasileiro, estávamos com um grupo reduzido, sem duas titulares..., Mas, muitas vezes, você pode vislumbrar lá na frente em vez de se contentar com um quinto lugar, por exemplo”.
Para ela, o ciclo como jogadora de futebol se encerrou na partida contra o Corinthians. Em 2015, ela já havia cogitado parar de jogar porque o secretário de esportes da cidade anunciou corte no auxílio do futebol feminino. A partir de então, foi que Dorotéia ofereceu o cargo de preparadora física para que ela não parasse. Mas dessa vez é oficial. Infelizmente, o bicampeonato não veio, mas ela continua como preparadora física do time e professora da escolinha, com foco em estudar muito no próximo ano porque acredita que a evolução do futebol feminino abrirá muitas portas.
Porém, ela deixa claro: “Se no caminho aparecer uma boa oportunidade que me agregue, me ajude e seja boa para minha carreira, eu encaro numa boa, me sinto preparada. Nunca estamos preparadas na vida, estamos em constante evolução, isso é uma verdade para mim. Mas acredito que pela minha experiência, tenho uma situação que me ajuda a trabalhar em várias vertentes na comissão técnica e até numa área de dirigente mesmo, claro, aprendendo muito. Esse é meu objetivo”.
Mirando voos maiores, sem fechar a porta dos gramados e ainda preparando meninas para um futuro no futebol, Jéssica, que segurou Darlene, filha dos dirigentes do Rio Preto no colo e hoje a vê atuando fora do Brasil, pelo Benfica, deixa uma mensagem à equipe, que considera uma família.
“Ela é a melhor equipe que eu imaginei que poderia encontrar. São meninas maravilhosas, que me respeitaram como professora e preparadora física, para mim isso não tem preço. Eu tenho que cobrar e ser chata, mas acabar um campeonato com todas me abraçando e dizendo que sou um exemplo para elas, foi melhor que a medalha que conquistei. Não é fácil tirar o melhor das pessoas, cobrar, e elas entenderem a cobrança, num mundo com tanto egoísmo e tantas pessoas olhando para si só. Então, o que conseguimos até aqui foi inacreditável”.
