Desde que Serena Williams divulgou que estava grávida em abril de 2017 e chegou às finais de Wimbledon apenas 10 meses após ter sua filha, ela trouxe a questão da maternidade entre mulheres atletas ao centro das atenções. Ela falou abertamente sobre as complicações que ameaçaram sua vida após o parto, a dificuldade que teve para recuperar sua forma atlética no tênis e sua luta contra a depressão pós-parto.
Ela continuou a ser honesta, direta e totalmente “estilo Serena” ao falar sobre sua carreira no tênis: “Talvez não seja preciso dizer”, disse à revista Vogue em janeiro, “mas isso precisa ser dito de forma impactante: Eu definitivamente quero conquistar mais Grand Slams”.
Ter um filho é um passo primordial para qualquer pessoa. Mas para mulheres atletas, a decisão pode ser absurdamente mais complexa. Quisemos ouvir relatos de mulheres que se tornaram mães durante suas carreiras. Para isso, entrevistamos anonimamente 37 atletas que chegaram ou voltaram às competições profissionais depois de terem filhos. Conversamos com mães de diferentes modalidades, raças, idades e orientações sexuais – inclusive aquelas que deram à luz, que adotaram ou cujas companheiras deram à luz. Veja o que elas tinham a nos dizer:
Quando você divulgou que estava grávida, você sentiu apoio o suficiente de suas companheiras de equipe?
Sim: 87%
Não: 13%
E pelos (as) treinadores(as)?
Sim: 87.5%
Não: 12.5%
E por seu (sua) companheiro (a)?
Sim: 89%
Não: 11%
E pelos fãs?
Sim: 94%
Não: 6%
O que as atletas disseram:
“Sim. Foi estranho porque pensei: 'Nossa, isso vai me afastar das competições por tanto tempo', mas o tempo voou. Recebi mais apoio do que críticas por voltar a seguir minha carreira. As perguntas mais curiosas vieram dos fãs do que de qualquer outra pessoa”.
“Vendo de fora, por conta do momento, as pessoas se perguntavam por que eu iria querer ter um filho agora, pois estávamos começando o ano das Olimpíadas. Na minha modalidade, se você pretende ter uma família, este é o ano errado para planejar isso”.
“Eu mantive a gravidez em segredo por um bom tempo. Algumas das meninas para quem contei primeiro já eram mães ou eu sabia que em algum momento queriam ter uma família. Então só me abri com elas. Isso com certeza é algo aceitável, mas não é fácil”.
“Os fãs foram maravilhosos. Tem umas maçãs podres que questionam o que você pretende fazer. Dizem que seu corpo vai mudar e que sua vida será arruinada. Mas na verdade é mais como se minha vida estivesse apenas começando. Foi muito agradável compartilhar minha trajetória com os outros”.
O que as atletas disseram:
“Como sou atleta, minha menstruação já era desregulada. Então, não menstruar era algo normal para mim. Mas algo estava estranho. Eu sempre sentia vontade de fazer xixi, meus seios incharam. Lembro que eu demorava muito para terminar uma corrida por conta disso.
“Simplesmente aquele era um bom momento em nossas vidas. Como estávamos. Eu sabia que queria voltar a jogar. Por isso, acho que começamos a tentar engravidar assim que a temporada acabou ou um mês antes dela acabar. ... Foi algo como um período sentimental. Acho que posso dizer que eu era um pouco ingênua. Acho que pensava nisso porque era saudável, malhava – não que seria fácil, mas você não pensa sobre todos os outras partes envolvidas na questão. Hormônios, como este nível afeta aquele outro. Acho que aprendi muito durante a gravidez. Ela foi um processo interessante”.
“O único tipo de planejamento na minha gravides foi não ficar grávida. Não tentar ser negativa – Amo tanto minha filha que não posso imaginar a vida de outra forma. Mas isso era a coisa mais distante da minha consciência”.
Qual foi a mudança mais significativa no seu corpo?
O que as atletas disseram:
“O maior choque inicial foi como perdi minha musculatura abdominal. Aqueles músculos sempre estiveram ali e eram fortes. Eu não percebi a estabilidade e a estrutura que eles dão para todo o resto. Decidi começar a trabalhar exercícios de pós-parto específicos com a fisioterapia. Comecei a praticar Pilates três vezes por semana, além das minhas outras atividades físicas”.
“O cabelo na minha cabeça sempre foi liso, mas ficou super encaracolado. Cresceram pelos pequenos no meu queixo que nunca tive antes. Meus seios ficaram destruídos depois de amamentar por 11 meses. Mas o que mudou de uma forma positiva e bacana foi que me sentia bem forte fisicamente. E forte emocionalmente também. A gravidez me deu uma motivação para ver até onde podia chegar. Isso é competitividade. Eu me queira descobrir do que eu era capaz com aquela força maluca que a gravidez do meu filho me deu”.
“Além dos meus seios? Não sei se isso acontece com todas, mas eu amamentei e não percebi o leite saindo. Você tem aquele monte de leite, você fica voluptuosa. De repente, lenta e invariavelmente, por mais duro que eu treinasse, os seios murchavam. Isso se parece a como as cadelas ficam depois de dar à luz e amamentar seus filhotinhos. Aí eu penso que isso não está certo! Fisicamente, senti que minha rápida mudança tinha voltado ao normal. Eu não tinha entusiasmo”.
“Durante a gravidez, apenas a quantidade de peso nos meus quadris e joelhos. Senti isso por vários meses depois. Ganhei 26 quilos. Não, mentira, ganhei 24 quilos. Realmente, ganhei 27 quilos. Meu cabelo também ficou muito grosso e encaracolado. Provavelmente isso é muita informação, mas não tive que usar desodorante durante toda a gravidez. O cheiro do meu corpo desapareceu. Mas duas semanas depois que dei à luz, ele voltou.
“A parte mais difícil sobre voltar é começar do zero e ter que treinar todo o seu corpo novamente para recuperar sua forma física básica. Então, quando consegui recuperá-la, tive que treinar a precisão na minha modalidade. Como qualquer atleta sabe, manter a precisão é um esforço diário para alguém que joga o ano todo, mesmo para alguém que não está grávida. É muito difícil”.
“Velocidade. Confiava nela. Então quando voltei depois de ter um filho, sentia que minha mente funcionava, mas meu corpo não acompanhava.
“O maior desafio que percebi foi que sentia que tinha ficado com a bunda murcha. Minha bunda ficou bastante murcha. Por isso nas últimas semanas, tenho treinado duro com fisioterapia para recuperar minha bunda e meus glúteos. Olhei no espelho depois de dar à luz e não era minha barriga que me incomodava. Era minha bunda. Ela estava tão murcha. Fiquei muito chateada com isso”.
Você amamentou/usou bomba para tirar leite?
Sim: 77%
Não: 23%
Por quanto tempo?
0-3 meses: 4%
>3-6 meses: 17%
>6-9 meses: 17%
>9-12 meses: 48%
>12 meses: 13%
O que as atletas disseram:
“Eu amamentei o quanto pude, não fiquei me pressionando”.
“Foi bem difícil amamentar, treinar e ingerir os nutrientes suficientes para mim e meu filho. Tive que complementar com uma fórmula. ... Percebi que ele precisava de mais alimento do que eu podia dar a ele”.
“Não amamentei. Não estou amamentando por conta da minha agenda. Eu queria voltar a jogar. Sabia que viajaria muito e que era quase impossível”.
“Eu amamentei. Simplesmente porque soube que era a melhor coisa para o bebê e eu amo a união que a amamentação nos proporcionou. Amamentei por oito meses e estou muito orgulhosa de mim mesma”.
“Amamentei todos os meus filhos, por três meses cada. Meu leite literalmente não tinha gordura. Comprei bombas médicas e bombeava por 45 minutos para conseguir menos de 30 mL. Eu ficava arrasada”.
“Não estou amamentando. Eu sabia que queria voltar o mais rápido possível. Tive uma ótima gravidez, uma ótima experiência de parto, criei laços rapidamente. Então sabia que tinha uma boa chance de voltar rapidamente. Escolhi não amamentar porque pensava que seria difícil tentar, conseguir amamentar e jogar”.
Você pensou em se aposentar em algum momento antes, durante ou depois da gravidez?
Sim: 28%
Não: 72%
Você teve sintomas da depressão pós-parto?
Sim: 32%
Não: 58%
Não sabe: 10%
O que as atletas disseram:
“Ele realmente foi uma forma de força para mim. Mas me sentia cansada, deprimida, triste e todas aquelas coisas. Mas ele me deu propósito, então foi mais fácil de superar”.
“Foi mais como uma surpresa de que isso era real. Então era isso e não ser capaz de voltar tão rápido quanto gostaria. Eu queria que isso acontece da noite para o dia. Aí lidei com um pouco de depressão. Tive um probleminha como minha autoconfiança, porque comparava a atleta profissional que era com a pessoa em que tinha me transformado”.
“Não, mas não acho que me dei crédito o suficiente para perceber como aquilo era difícil. Por sermos atleta, somos resistentes, então não notamos qualquer diferença. Sinto que sentimos a depressão pós-parto de início. Mas eu tive um sistema de apoio realmente bom. E estava muito ocupada por conta da [minha carreira no esporte]”.
“Quando finalmente voltamos para casa, eu não me aguentava. Comecei a achar que aquilo era depressão pós-parto. Provavelmente uma das coisas mais duras e mais inteligentes que eu podia ter feito foi ligar para o médico. Essa é uma daquelas situações em que é difícil imaginar que você tem algo assim. Mas, tivesse isso ou não, sabia que precisava arrancar o mal pela raiz.
Você é melhor como mãe ou atleta?
Mãe: 54%
Atleta: 22%
Igual/nenhum/não sabe: 24%
O que as atletas disseram:
“Até agora, provavelmente diria que sou melhor como mãe. Apenas porque sinto que ser mãe, de certa forma, não é tão competitivo. Não é uma competição. É só amá-los, alimentá-los, fazer com que não fiquem muito sujos. Nos esportes, você sempre pode melhorar, até mesmo nos menores detalhes”.
“Acho que sei o que define alguém como um grande atleta. Mas podemos definir o que é ser uma grande mãe de tantas formas diferentes. Não existe um manual. Muitas pessoas tem uma espécie de habilidade natural quando começam seus treinamentos para qualquer esporte que seja. Então tudo se resume a praticar insistentemente. Com relação à criação de filhos, não importa o quanto você pratique, sempre há algo que você simplesmente não sabe ou erra. Eu tento me esforçar muito mais na criação dos meus filhos do que [no meu esporte] porque sei que tenho que trabalhar bastante duro”.
“Acho que sou melhor como mãe, provavelmente porque tudo gira em torno da paciência. Com atletas, somos tão rígidos com tudo e queremos tudo tão rápido. Com bebês, você não pode forçá-los. Então acho por conta da minha paciência, pelo que aprendi com meu filho em um curto espaço de tempo, sou uma atleta melhor agora. Mas tive que uma mãe melhor primeiro”.
“Ser mãe é um trabalho de 24 horas, então não tenho tempo para fazer a recuperação que minhas companheiras de equipe estão fazendo, ou para dedicar mais horas no campo, ou para ter tempo para preparar uma refeição saudável para mim. Ser atleta também é um trabalho de 24 horas se você que ser o melhor atleta que você pode ser”.
“Gostaria de dizer que sou melhor como mãe, mas acho que todas gostariam de dizer isso. Sou atleta há muito mais tempo. Ainda estou tentando conciliar muitas coisas. Em alguns dias, quando realmente vou para o trabalho, sinto que estou sendo uma mãe horrível. Mas meu marido sempre me lembra que estou mostrando a ela que posso ter uma família, trabalhar e ter uma carreira”.
O que as atletas disseram:
“Nenhum apoio real novo surgiu quando virei mãe, o que me surpreendeu. Achava que haveria oportunidades nisso, mas consegui muitos artigos e entrevistas divertidos, além da conscientização”. “Não acho que tenha afetado de qualquer forma. Minha carreira cresceu obviamente. Por isso, recebo mais dinheiro e acho que à medida que as crianças crescem, elas ficam mais caras [risos]”.
“Ela diminuiu porque tive que me provar de novo. No primeiro ano, tudo o que fazia saía do meu próprio bolso para voltar. Considerando que, se alguém deixa o esporte e volta sem ser mãe, não acho que isso aconteceria”.
“Diria que aumentou. Ter aquela voz a mais na sua cabeça, aquela agitação para garantir que as necessidades do seu filho estão satisfeitas, ser capaz de oferecer o necessário e também as coisas pelas quais você trabalha tão duro. Realmente é uma pedra no sapato ter que trabalhar duro e sempre fazer a coisa certa o tempo todo e ver o que você pode alcançar”.
“Nossa, sem dúvida diminuiu. Crianças são caras!”
“Meus patrocinadores permaneceram comigo, mas somente quando estou jogando. Só sou paga se jogo. Então não diria que aumentou ou diminuiu nesse aspecto. Quando estava grávida e tirei licença maternidade, não recebia pagamento. Então acho que diria que diminuiu nisso”.
Ser mãe afetou sua carreira de forma positiva, negativa ou de nenhuma forma?
Positivamente: 73%
Negativamente: 5%
Ambas/De nenhuma forma: 22%
O que as atletas disseram:
“Eu diria que impactou minha carreira positivamente porque isso me obrigou a levá-la mais a sério e me deu motivação para querer construi-la”.
“Você fica muito focada nos resultados, mas voltar para casa e ver meu filho feliz em me ver, sem se importar se ganhei ou perdi, coloca tudo isso em perspectiva”.
“Às vezes, um pouco negativa porque você está exausta, ou cansada, ou teve algumas noites seguidas em que acordou no meio da noite, e você tem jogo no dia seguinte”.
“Sinto que levar uma criança a um ambiente de atletas é... Se você é a mesma jogadora que alguém que não tem filhos, eles ficarão com a jogadora que não tem filhos. É muito trabalho. Penso por que jogo diferente agora. Então meu “por que” mudou. Não sou mais tão dedicada no sentido de que minhas prioridades mudaram”.
“Acho que está equilibrado. Não acho que teria sido uma atleta tão grande se não tivesse me tornado mãe. O aspecto dos atletas que as pessoas normalmente ignoram são os relacionamentos e como você trata os outros. Ser mãe sem dúvida me tornou uma pessoa melhor. Mas com relação ao tempo total que posso gastar e dedicar ao [meu esporte], tenho que equilibrar. Se temos um projeto de ciência para a noite anterior a um grande jogo, tenho que ficar acordada e fazer o projeto de ciências”
Você assume menos riscos durante as partidas agora que é uma mãe?
Sim: 35%
Não: 65%
O que as atletas disseram:
“Acho que assumo mais riscos no que se refere a competir. Porque agora não se trata apenas da minha própria glória. Agora minhas vitórias têm... Não sou muito motivada pelo dinheiro. Agora meu dinheiro tem um valor diferente. Estou criando um filho. Então preciso ganhar. Preciso de bônus. Sou melhor atleta fazendo isso por ela. Sei o que está em jogo”.
“Sinto que provavelmente penso mais antes de assumir um risco. No entanto, sem dúvida ainda assumo riscos”.
“Acho que inicialmente sim. Não apenas por ser mãe, mas por me preocupar com meu corpo e não saber o que poderia fazer. Mas sinto que agora evito mais os riscos”.
“Não, sinto que isso me fez assumir mais riscos. Sinto que sou mais agressiva e tenho mais pelo que jogar. Então, em primeiro lugar, mergulhar no chão e tudo o mais. Amo fazer tudo isso agora. Isso me deu coragem”.
Verdadeiro ou falso: Me sinto culpada quando tenho que viajar.
Verdadeiro: 76%
Falso: 22%
Ambos: 3%
O que as atletas disseram:
“Sei que ela está sendo cuidada. E agora com a tecnologia, isso ajuda muito. Nós conseguimos nos ver cara a cara e conversar sobre nossos dias. E nunca fico muito tempo longe quando viajo”. “Não me sinto culpada, porque sei que estou fazendo isso por elas e estou fazendo o melhor para elas e para mim. É fácil para as pessoas fazerem com que você se sinta culpada. Por exemplo, a família e coisas assim. Mas reafirmo para mim mesma o motivo pelo qual estou fazendo isso e o motivo maior”.
“Uso bastante o FaceTime, toda hora. Não que isso deixe as coisas mais fáceis, mas tento me lembrar do meu propósito”.
“Sim, isso pega para mim. A primeira vez me abalou um pouco, porque eles se apegam a você e fico imaginando quem vai colocá-los para dormir. Quem será que vai dar banho neles? Mas agora penso: ‘Tá, preciso ir. Preciso dormir um pouco!’”
“Falso. Eu não me sinto culpada. Desculpa, é como um tempo para nós! ” “Sim, absolutamente. Essa é uma das coisas que me fazem pensar na aposentadoria, porque eu simplesmente não gosto de ficar longe do meu bebê”.
Mais informações sobre a metodologia:
Nossa pesquisa anônima incluiu mulheres que estão competindo atualmente em nível profissional. Logo, atletas aposentadas que tinham filhos durante sua carreira profissional não foram incluídas. Entrevistamos 37 atletas de nove modalidades esportivas diferentes, incluindo mulheres que tiveram parto natural, cesariana, que adotaram ou cuja companheira teve um filho. Em algumas perguntas, os resultados podem não totalizar 100 por cento. Isso se deve a que nem todas as atletas responderam a todas as perguntas e, em alguns casos, uma pergunta não se aplicava a uma atleta. Por exemplo, perguntas como “Você amamentou?” não se aplicavam a mães cujas companheiras tinham gestado e dado à luz a seus filhos.
