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Quando a derrota acontece fora das quatro linhas: os casos de assédio na Copa da Rússia

A Copa do Mundo na Rússia ainda está na fase de grupos, mas os poucos dias de evento já explicitaram para o mundo acontecimentos lamentáveis, no centro deles, mulheres assediadas e desrespeitadas no terreno que ainda é fértil para as piores demonstrações de preconceito, o futebol.

A primeira notícia veio antes mesmo do apito inicial, Julieth González Therán, da Deutsche Welle, foi agarrada à força e beijada no rosto por um homem enquanto cobria do lado de fora do estádio a abertura da Copa. A colega, Ana Plasencia, do estúdio da emissora em que ocorria a entrada ao vivo, ficou constrangida com o que acabara de ver e questionou as medidas de segurança do país. Posteriormente, Therán compartilhou sua indignação pedindo que haja limites entre afeto e assédio e, em entrevista para a ESPN, relatou: "É a primeira vez que isso acontece comigo. Eu estou realmente feliz que os torcedores estejam animados com a Copa do Mundo, mas eu só quero que respeitem meu trabalho. Isso é machismo, não importa se no futebol ou em outra situação. Mas a coisa mais importante é que tenhamos respeito um pelo outro".

Não demorou muito para um segundo acontecimento: na estreia de Argentina e Islândia, Agos Larocca, da ESPN Argentina, precisou da ajuda de um produtor e teve que se defender para evitar a aproximação contra vontade de torcedores que tentaram beijá-la.

Desde o último fim de semana, o Brasil também virou notícia pelo que representa uma verdadeira derrota verde e amarela fora das quatro linhas. Em vídeos que viralizaram, um grupo de torcedores com camisas da seleção aparece debochando de uma mulher estrangeira, com palavras obscenas e desrespeitosas. Quatro homens foram identificados pelas imagens, um deles chegou a ser demitido da empresa que trabalhava. Nas redes sociais, esses torcedores têm recebido inúmeras críticas, mas também há quem acredite que não tenha passado de uma “brincadeira”.

Este não é o entendimento da ativista russa Alena Popova, ela criou uma petição (assinada por mais de 20 mil pessoas) para que os brasileiros que aparecem em um vídeo sejam responsabilizados. Popova acredita que eles não humilharam apenas a mulher que aparece no vídeo, como também "todas as mulheres da Rússia”. Conforme a legislação russa, cidadãos estrangeiros podem ser responsabilizados por cometer um delito nos termos da Parte 1 do art. 5.61 do Código da Federação Russa sobre Infracções Administrativas, com pena de multa no valor de mil a três mil rublos russos, ou ainda responsabilizados por violação da ordem pública.

No Brasil, Ministério Público Federal no Distrito Federal decidiu abrir um procedimento investigatório criminal para identificar os brasileiros. Conforme a decisão, o crime de injúria seria investigado, já que os homens fazem a mulher repetir palavras que remetem ao órgão genital feminino sem que ela saiba. A decisão será baseada nos artigos 1 e 3 da Convenção Internacional sobre Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher.

O país comandado por Vladmir Putin tem um clima mais “hostil” por conta dos muitos preconceitos culturalmente entranhados na sociedade, esses fortalecidos pela própria legislação nacional que proíbe a propaganda gay em solo russo, por exemplo. A imprensa feminina tem sentido muito o gosto amargo do preconceito na Rússia, em meio a celebração da conquista de espaço das mulheres no ambiente que mundo a fora durante muitos anos foi de domínio masculino, as dificuldades têm ido além do assédio ao vivo (ou de vídeos) de torcedores nos arredores do estádio ou nos locais das chamadas “Fifa Fan Fest” (espaço reservados para torcedores). Segundo relatos, os olhares de desconfiança pela presença feminina são constantes durante a Copa, são poucas as mulheres credenciadas para o evento, “é como se fôssemos um corpo estranho nas salas de imprensa, de coletiva, zonas mistas. Nosso reflexo quase espontâneo de olhar para o chão diante desses olhares diz muito. Olhar para baixo para não chamar ainda mais atenção. Uma loucura, né?”, desabafaram as jornalistas brasileiras Amanda Kestelman e Júlia Guimarães no site do Ge.com. Mesmas situações foram relatadas pela jornalista da ESPN Brasil, Natalie Gedra.

Na Rússia, há ainda a preocupação com segurança ao transitar pelas cidades-sedes. Algumas jornalistas contam que tiveram que encerrar corridas de táxis pelo temor do comportamento dos motoristas russos com “piadas” vulgares e perguntas constrangedoras. Além disso, na viagem de trem pelo país, a jornalista Isabela Pagliari, que está seguindo os passos da Seleção Brasileira para a cobertura de uma rádio francesa e do canal Esporte Interativo, compartilhou com os seguidores as horas de medo que passou em um vagão. Existem orientações para que as mulheres não viajem ou andem sozinhas, em especial, durante a noite. A abordagem inconveniente nas ruas seria outro capítulo de “terror” e de frequente desconforto por parte das mulheres.

Esses casos de assédio ou violência contra mulher não são novidade. Em outras competições e países, situações similares já aconteceram. Recentemente, o Brasil foi manchete com o manifesto de 50 jornalistas esportivas pelas mesmas razões, o movimento “Deixa Ela Trabalhar” teve repercussão internacional e instigou novas medidas em diversas esferas nacionais. Três meses depois, os casos na Rússia mostram que esse é mesmo um problema global, uma verdadeira derrota fora das quatro linhas que precisa, insistentemente, ser combatida.