Andreia Regina Silva é a primeira mulher com licença para arbitrar qualquer jogo masculino que seja organizado pela FIBA (Federação Internacional de Basquete). Também árbitra da NBB, ela esteve na ESPN na última sexta-feira (04) para comentar Warriors x Pelicans e também participou do ESPN League.
A mulher que possuí certificação black da FIBA lutou muito para chegar onde está hoje. Andreia nasceu em Bauru e veio para São Paulo atrás de um sonho, ela conta.
“Cheguei sem casa para morar e morei de favor. Fiquei na casa de uma, até então, amiga da família. Porém, com o passar dos dias, ela começou a me cobrar aluguel, mas eu não tinha dinheiro ainda porque estava terminando o meu curso de arbitragem e apitava para ganhar 10 reais por jogo”
Ela conversou com a dona da casa, ofereceu uma troca de serviços e ela não aceitou, mandando-a embora. Andreia passava por uma situação em que precisava escolher entre comer ou pegar transporte público. “Teve uma ocasião que sai para fazer vários jogos de basquete que não pagavam na hora e fiquei o dia todo apitando. Quando terminaram os jogos, estava faminta, mas tinha apenas 5 reais na carteira e tive que escolher entre comer ou ir embora. Escolhi comer” – disse Andreia para o espnW, e completou – “Na hora de ir embora perguntei ao cobrador se podia passar pela catraca, alegando que perdi a carteira e ele me ofereceu passar por baixo. Passei, sem escolha”.
Por muitas vezes, ela pensou em desistir, mas em um telefonema para a sua avó foi que ela viu que devia seguir em frente com o sonho. “Ela me disse ‘não quero uma neta fracassada, você vai ficar e vencer em nome de Deus’, com essas palavras ela me fez acreditar em mim novamente” – contou Andreia.
Foi então que sua família decidiu vir para São Paulo viver esse sonho junto com ela e ajuda-la. E ela continuou. Hoje, além de sua licença black, a árbitra também é proprietária da empresa AR Sport, uma empresa especializada em arbitragem a e foi a alternativa que ela encontrou de ter um outro meio de sobrevivência sem sair de seu ramo. Lá, eles administram e gerenciam eventos de basquete dentro do estado de São Paulo.
E para dar conta de tudo, Andreia conta que precisa levar uma vida bem regrada: ela prepara suas refeições, vai para a academia de manhã, faz aula de inglês, vai para o escritório e quando é escalada para algum jogo, vai até lá. “Posso arbitrar os jogos da Federação Paulista, Liga Nacional de Basquete, Liga Feminina e os jogos da minha empresa. Quando tenho viagens preciso adaptar minha rotina ao ritmo de campeonato, o que não é tarefa fácil” – ressalta.
Em relação ao basquete feminino, Andreia assume encarar tudo de uma forma muito positiva e com muita alegria e também diz enxergar oportunidades crescendo a cada dia, mas que ainda vê muito preconceito.
“É importante salientar que a arbitragem feminina de basquetebol no Brasil teve um mestre que acreditou e fomentou a partir da minha geração, a presença de árbitras e inclusão delas em todos os campeonatos, que foi Senhor Geraldo Miguel Fontana. Com isso, tivemos uma geração de grandes árbitras, o que reflete hoje no maior campeonato de basquete masculino do país, organizado pela Liga Nacional de Basquete, onde se vê diversas árbitras atuando” – conta Andreia.
Ela também afirma que árbitros recebem diversos tipos de xingamentos e ofensas da torcida durante as partidas, mas que as mulheres sempre recebem insultos carregados de machismo e preconceito. “O que me deixa mais triste é quando olho para arquibancada e vejo uma mulher me xingando. Eu penso: ‘justo você que deveria estar lutando do meu lado’” – completa a árbitra.
Já em relação ao convite que recebeu da ESPN, ela contou ter ficado feliz e ansiosa e também assumiu ter sentido necessidade de estudar mais em relação a regras, principalmente pelo fato de as regras da NBA serem um pouco diferentes da FIBA. “Comentar foi uma experiência nova na minha vida” – disse Andreia – “Me tirou da zona de conforto, mas como estava falando de basquete, me senti em casa. Existem vários pontos que me preocupavam em relação a participar de um programa ao vivo”.
Mas entre dificuldades e nervosismo, ela também disse que um de seus desejos era falar sobre basquete na televisão. E finalizou, divertida, dizendo:
“Gostei tanto da experiência, que já estou preparando minha oratória e outros aspectos para quem sabe um dia atuar na área. Fiquei até na dúvida se inicio a graduação em relações internacionais ou migro para comunicação (risos).”
