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Com 'mão de ferro', nutricionista é única mulher que comanda um clube no futebol brasileiro

Myrian Fortuna, presidente do Tupi com mandato até 2019 Divulgação/Tupi

O Tupi entra em campo nesta quarta-feira, às 21h45, para enfrentar o Cruzeiro no primeiro jogo das semifinais do Campeonato Mineiro. Será em casa, no estádio Radialista Mário Helênio. Mais uma conquista de Myrian Fortuna, única presidente mulher entre os 128 clubes que compõem as quatro divisões do futebol brasileiro hoje. A equipe não passava da primeira fase no estadual desde 2012. Também com ela no cargo máximo, chegou pela primeira vez à Série B do Campeonato Brasileiro, em 2016. A paixão pelo Galo Carijó vem de família.

Seu avô, Áureo Carneiro, foi presidente do Tupi na década de 60. Seu irmão mais velho, que foi batizado com o mesmo nome, também sentou na cadeira. Myrian, que gostava só de assistir futebol, cursou Direito, Pedagogia e Nutrição. Trabalhava com idosos e crianças quando, em 2006, foi convidada para ser nutricionista do clube, que tinha acabado se subir para a primeira divisão do Campeonato Mineiro e estava passando por reformulações.

A advogada, nutricionista e pedagoga, também ajudou a coordenar o Centro de Treinamento e auxiliou as categorias de base. Quando o mandato de seu irmão estava chegando ao fim, foi indicada para concorrer à presidência. Em chapa única, foi eleita em 2013 para o triênio 2014/2016 – foi reeleita em 2016, dessa vez com concorrência, e tem mandato até 2019.

“Não me achava capaz. O preconceito é tanto que nós mesmas o colocamos na cabeça. Mas aceitei o desafio. Tenho o Tupi no sangue, é paixão. Então, mergulhei de cabeça. Quando fomos para Série B do Brasileiro, foi mágico. Concretizei o que meu irmão começou. Muita emoção. Eu não imaginava conseguir. Sabia que eu ia fazer o meu melhor, mas não sabia se seria o melhor para o clube. Mas deu certo. Começamos a andar com os pés no chão. Sem fazer loucuras com salários e despesas extras. Todos os clubes têm dívidas e ações trabalhistas. E fiz de tudo para sanar isso”, contou ao espnW.

Seu apelido no Tupi? ‘Mulher Mão de Ferro’. Lá dentro, Myrian tem credibilidade e respeito. Mas fora, já enfrentou a desconfiança de sócios e patrocinadores.

“Meu vice no primeiro mandato me chamava assim. Dizia que quando eu decidia pelo sim ou pelo não, parecia que eu tinha uma intuição. Eu ouvia sugestões, mas se estava em dúvida, não aceitava. Temos uma coragem diferente. Somos mais coração. Homem é mais razão. Mas a falta de credibilidade fora é grande. Acham que só estou aqui por conta da minha família. ‘O que essa mulher está fazendo aqui?’ Até mulheres desconfiam. Conseguir patrocínio é o mais difícil.”

Quando questionada sobre sua família já ter injetado dinheiro no Tupi, não respondeu nem que sim, nem que não. “Complicado. Não é qualquer um que pega um clube sem dinheiro e consegue seguir em frente. Um clube sem dinheiro consegue dinheiro como?”

Como a maioria dos clubes pequenos, o Tupi ainda tem dívidas, ainda que menores. O apelo de Myrian é à Confederação Brasileira de Futebol. “Os grandes continuam crescendo, com salários exorbitantes. A CBF precisava apoiar mais. Sei que não serei um Flamengo, um Corinthians. Não tem como. Mas a CBF precisa olhar mais para os times pequenos, dar mais igualdade quanto à verba de televisão e outras fontes de renda. Mas conheço pessoas que tentam fazer diferente. Acredito em dias melhores.”

Aos 58 anos, Myrian coloca a mão na massa diariamente. É presidente, mas continua trabalhando como nutricionista, coordenando o trabalho dos estagiários da área. “Às vezes falo, ‘hoje, quem está aqui, é a nutricionista’. É bom porque consigo estar no dia a dia, acompanhando. É a profissão em que mais me encontrei. E sempre tive essa relação diária com os atletas, viajava para os jogos. Não mudou nada. Eles continuam me respeitando e me apoiando. Todos abraçaram o projeto. É um time de camisa.”

O último título do Tupi foi na Série D, em 2011. Hoje, além do Campeonato Mineiro, o clube disputa a Série C do Brasileiro. Neste ano, ficou de fora da Copa do Brasil. Myrian não pode mais se reeleger, porque são permitidos apenas dois mandatos. Mas se a próxima gestão concordar, quer continuar trabalhando como nutricionista.