O São Paulo, nono colocado no Campeonato Brasileiro feminino, se viu sob forte acusação nesta terça-feira (21). Ídola da seleção brasileira e jogadora lendária, Formiga criticou as condições de estrutura que o clube tricolor oferece para as atletas - a instituição se manifestou, veja a nota oficial no final desta reportagem.
Ela retornou à agremiação em 2021, logo que deixou o Paris Saint-Germain. Aos 45 anos, o plano era se aposentar no time do coração e que a revelou para o mundo. Entretanto, em entrevista ao UOL, a atleta se queixou do gramado sintético para os treinos, da academia com horário limitado e de ter apenas um turno para a fisioterapia.
"Quando voltei ao São Paulo, foi algo absurdo. Um choque de realidade muito grande. Fiquei muito triste com o que vi. A gente juntava a galera para conversar e debochavam quando eu sugeria melhorias. A estrutura que dão até hoje para o futebol feminino não é boa. Não é bacana", disparou a atleta.
Sem time desde dezembro de 2022, quando o contrato com o São Paulo acabou, a volante conta que rejeitou uma renovacão oferecida pela diretoria. Com a saída, ela informou que queriam que ela devolvesse os uniformes, já que a quantidade era limitada. Ou seja, cada jogadora tinha duas camisas de jogo que deveriam ser devolvidas quando a atleta deixasse o clube.
"Ouvi que, se eu não devolvesse, descontariam do meu salário. Eu disse: 'Pois, meu filho, desconte! Não vou devolver'. O que é isso? Passei o ano todo com essa roupa. Daí a [outra] menina vai chegar e vai ter que cheirar o meu sovaco? É falta de respeito comigo e com ela", contou Formiga.
Além disso, Formiga revelou que materiais de treinos atrasavam por dias e que era preciso 'tirar leite de pedra'. A volante contou que chegou a oferecer parcerias com empresas de artigos esportivos, mas, por conta disso, foi ironizada pelo supervisor e pela comissão.
"Vi muitas meninas rompendo o ligamento do joelho por causa do gramado sintético. Não tem como você treinar a semana toda no sintético para chegar no fim de semana e jogar num campo. Tem uma diferença grande. No campo, você escorrega. É difícil de acostumar", detalhou Formiga.
"E o clube não oferece sequer uma chuteira de society para elas treinarem. Eu sou cascuda, estou acostumada, então não me prejudicava. Mas eu via as meninas sofrendo. E não imaginava que ainda hoje tudo isso aconteceria. Estamos num momento em que não podemos dar passos para trás. Daqui para frente, tem que ser só melhoria", afirmou.
Em relação à fisioterapia, Formiga fez acusações ainda mais sérias. Nesta segunda passagem pelo clube, ela machucou as duas coxas e precisou de tratamento. Como o clube oferecia apenas um horário por dia, a jogadora contou que foi atrás de tratamento particular para voltar mais rápido, mas escutou de Kaio Pereira, ex-supervisor da equipe, que não não era certo fazer fisioterapia por fora.
"Se só me ofereciam um período, eu ia fazer o quê? Ficar em casa dormindo? Eu queria voltar a treinar logo", explicou.
Críticas antigas e posicionamento de Cristiane
Completando as acusações de Formiga e mostrando a complexidade do momento, Cristiane também se manifestou. Atualmente no Santos, a atacante deixou o São Paulo no fim de 2019 e, na época, a jogadora já tinha criticado a estrutura do clube.
"Foram três anos recebendo ofensas e críticas de diversas pessoas por ter apenas falado a verdade, pensando naquilo que deveria ter sido feito de melhor para as atletas. Precisou outra atleta falar a mesma coisa para que as pessoas enxergassem que eu não estava mentindo e nem me fazendo de vítima. Minha solidariedade a Formiga e a todas as outras atletas que passaram pela mesma situação que a minha", escreveu Cristiane.
São Paulo emite nota oficial
"A estrutura do clube conta com três locais de treinamento que podem ser utilizados pela equipe durante a temporada: Complexo Social do Morumbi, CFA Laudo Natel e CT da Barra Funda. A escolha pelos treinos no Morumbi, utilizando o campo sintético, foi por votação das atletas no início da temporada, assim como neste ano.
A equipe feminina tem duas academias a disposição das atletas, uma no clube, onde acontecem os treinos durante a semana, e outra dentro da fisioterapia do clube, local onde as atletas que necessitam fazem complemento.
O Departamento Médico da equipe feminina principal conta com duas fisioterapeutas e uma médica. As profissionais trabalham em turnos diferentes, inclusive com atividades de prevenção e ativação por três vezes na semana antes dos treinos matinais e acompanhamento de toda a atividade em campo ao longo da semana, além de trabalhos de recuperação e tratamentos de lesões no período da tarde.
Os uniformes são cedidos pela fornecedora de material esportivo para o clube, de acordo com o previsto em contrato, com troca por temporada (que acontece para todas as equipes e categorias por volta de março)."
