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Em carta aberta à ESPN, Giovanna Waksman, destaque do sub-13 do Botafogo, manda recado após ofensas: 'Ainda vão gritar meu nome na arquibancada'

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Destaque da base do Botafogo, Giovanna Waksman manda recado após episódios de machismo: 'A mulher pode fazer o que quiser'; VEJA (0:18)

Jogadora do sub-13 é considerada uma das promessas do futebol feminino (0:18)

Considerada uma das grandes promessas do futebol feminino nacional, Giovanna, do sub-13 do Botafogo, já foi alvo de ofensas, mas tem se destacado mesmo assim jogando entre meninos


Eu já ouvi palavrões bem pesados. Também já escutei que futebol é para homem, que mulher tem que fazer balé, que tem que estar na cozinha.

A minha história dentro das quatro linhas começou quando eu tinha 6 anos. A minha matéria preferida na escola sempre foi Educação Física. E foi com ela que eu percebi o que eu mais gosto de fazer na vida: jogar bola.

Quando meus pais iam me buscar na escola, o pessoal falava: 'Esse é o pai da Marta. Aquela é a mãe da Marta.'

Depois de me destacar na pelada do colégio, minha família resolveu me colocar na escolinha. Nessa época, meu pai trabalhava muito e não tinha tempo para me acompanhar. Quem ia comigo era o meu avô.

Teve um jogo meu pai foi me assistir. Ele jogou nas categorias de base do Botafogo, inclusive, mas acabou não levando a carreira a sério por conta de lesões.

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Destaque da base do Botafogo, Giovanna Waksman relembra início no futebol e comparações com Marta; VEJA

Jogadora do sub-13 do Glorioso conta que aprendeu sozinha a jogar

Ele estava na arquibancada me vendo. A bola veio na minha direção, eu dominei no peito e chutei no ângulo. Foi ali que ele ficou bem surpreso e percebeu que eu tinha talento. Ele perguntou quem tinha me ensinado. Eu respondi que aprendi tudo sozinha.

Foi então que começaram a me comparar com a Marta. Eu me sinto muito honrada quando me chamam assim, porque ela é a rainha do futebol, ganhou muitos títulos, prêmios de melhor do mundo.

Mas eu também pretendo fazer a minha história, ganhar prêmios de melhor do mundo e construir uma história bem linda.

Eu me vejo jogando pela seleção. Esse, aliás, é o meu maior sonho: vestir a camisa verde e amarela e jogar lá fora.

Eu acabei de conquistar o meu primeiro título pelo Botafogo. Como não tem categoria de base feminina para a minha idade, eu atuo com meninos no sub-13. Nós conquistamos o Torneio Metropolitano em cima do Flamengo.

Mesmo sem poder jogar as finais, eu tive uma participação muito boa no campeonato. Meti oito gols e dei treze assistências. Os médicos não me liberaram por causa de uma lesão que eu sofri na clavícula e acabei ficando de fora das finais.

Como não podia ter contato físico, fui relacionada e fiquei na beira do campo gritando para os meninos. Eu falei para eles que, mesmo de fora, eu ia estar no banco torcendo muito e que eu confiava bastante neles para a gente ganhar o título.

E deu certo!

Os meus colegas de clube sempre me respeitaram e me deram muito apoio.

No próprio lance em que eu me machuquei, o atleta do meu time foi reclamar da falta com o juiz. Eu sofri uma entrada muito dura, o que infelizmente tem sido comum. E a arbitragem não deu cartão amarelo para o adversário e sim para o meu colega que foi reclamar da falta.

Os meus pais também sempre estiveram do meu lado desde o início. Eles conversam muito comigo para eu não me abater com isso, falam que eu sou muito mais forte do que tudo isso que aconteceu.

'Eu ainda não consigo ter noção do que está acontecendo comigo'

Meu pai e minha mãe falam que sou só a filha deles. A Giovanna que eles conhecem. Eu não consigo ter noção disso.

Às vezes a gente está entrando aqui no Nilton Santos e o pessoal para o carro. Teve uma vez que gritaram meu nome no estádio.... Eu olhei para a minha mãe e falei: ‘Mãe, o que eu faço?'

Eu sou jogadora, mas faço coisas normais de uma menina de 13 anos. Eu gosto muito de jogar altinha na praia, de ir ao cinema e de ficar com minhas primas e amigas. Também adoro dancinhas do TikTok - minha mãe fala que eu sou viciada, mas nem sou.

Ela fica no meu pé, inclusive. Diz que se eu não conseguir conciliar a escola com o futebol, que eu vou sair do futebol. Por isso sou uma boa aluna e tiro boas notas.

'A mulher pode fazer o que ela quiser’

Se eu pudesse mandar um recado para as meninas que, assim como eu, querem jogar bola, eu diria: não desistam dos seus sonhos, corram atrás e treinem bastante. Vão para cima!

Não é um processo fácil, sabe? Você tem que treinar bastante. Além disso, você acaba escutando muitas coisas...

Como eu disse no início dessa carta, eu já ouvi palavras muito pesadas. Esse tipo de coisa vem acontecendo muito na nossa sociedade e precisa ser mudado. Precisamos dar um basta nesse machismo.

A mulher pode fazer o que ela quiser. Se ela quiser jogar futebol, se ela tem talento, ela pode jogar. Se ela quer lutar, ela pode. Ela pode fazer o que ela quiser.

Um dia aqueles que já me ofenderam vão gritar o meu nome na arquibancada. E estarão torcendo por mim defendendo a seleção brasileira.

*Em depoimento a Brenda Mendes e Yasmin Torres