<
>

Tour de France: Quem é Julian Alaphilippe, a 'zebra' que pode acabar com o superjejum da França

De forma surpreendente, o líder da atual edição do Tour de France é Julian Alaphilippe. Mas quem é este francês de 27 anos que apareceu de repente e, até o momento, a quatro dias do fim, está desbancando os já conhecidos e tradicionais Geraint Thomas, Thibaut Pinot, Alejandro Valverde e Nairo Quintana, entre outros?

O ESPN.com.br foi atrás da história do ciclista da equipe belga Quick Step. E ela é uma mistura de hiperatividade, abandono dos estudos e muita humildade - a etapa 17 de um total de 21 você assiste ao vivo nesta quarta-feira (24), a partir das 9h30 (de Brasília), na ESPN e no WatchESPN.

Julian Alaphilippe nasceu em St-Amand Montrond, uma comuna francesa localizada no centro do país. Apelidado de 'Juju' ainda na infância, o jovem não se enquadrava dentro das salas de aula. Sendo assim, seus pais, em uma tentativa de acalmar e controlar toda a sua energia, o matricularam em uma escola de música.

"Aprender solfeggio [que é a arte de cantar os intervalos musicais, seguindo as respectivas alturas (frequências ou graus da escala) e ritmos anotados em uma partitura], isso foi ainda pior que a escola! Eu jamais conseguiria me concentrar em uma sala de aula, era muito hiperativo. Era um garoto que se movia muito e isso era incontrolável", disse o atleta em entrevista ao site France24.

Mas a tentativa não funcionou, e Alaphilippe abandonou a escola aos 16 anos.

De rejeitado a ciclista principal e filho fofo

Ele contou que o ciclismo não fazia parte dos planos da família para seu futuro profissional, e a entrada no esporte aconteceu de forma natural, enquanto pedalava por sua cidade ao lado do irmão, Bryan Alaphilippe, fato que, segundo ele, também reforçou os laços de amizade entre os dois.

O início de sua trajetória no ciclismo profissional não foi simples. Aos 19 anos, o francês buscou uma oportunidade, mas foi rejeitado pela pouca idade, como contou Patrick Lefevere, que acabou se tornando seu treinador anos depois.

"Ele era muito novo para assinar um contrato com o salário máximo. Ainda não estávamos cientes das suas habilidades, como ele reagiria sob pressão e quando todo o time precisasse de sua ajuda."

Em pouco tempo, a situação mudou, e Lefevere reviu sua avaliação.

"Um ano depois de criar minha equipe reserva, contratei Julian pelo preço mínimo", explicou o também diretor geral da Quick Step, que promoveu o francês ao time principal e o tornou, finalmente, um ciclista profissional.

Alaphilippe 'voa' e vence contrarrelógio; ASSISTA!

Mesmo enquanto ocupa um dos mais altos postos do ciclismo internacional, usando a camisa amarela do Tour de France, Alaphilippe não deixa o jeito modesto, característica elogiada por pessoas que o cercam, e faz questão de saudar os companheiros de equipe nas entrevistas e publicações em suas redes sociais.

"No momento em que venci, quis agradecer absolutamente a todos, então, farei isso agora: um muito obrigado!", disse após conquistar a terceira etapa do Tour de France e garantir a camisa amarela.

"Sua origem humilde é o que dá forças para continuar progredindo", afirmou seu tio Franck.

"Após uma corrida, sua primeira ligação é sempre destinada aos pais. E enquanto ele conversa pelo telefone, é como se tivesse 16 anos novamente. Nada mudou", revelou sua mãe, Catherine.

Trauma e pressão gigantesca

E Alaphilippe não lida com qualquer pressão. É algo enorme. A França não vê um ciclista seu ganhar o Tour desde 1985, um superjejum de 34 anos, desde que Bernard Hinault ficou com o título.

Pior: a seca traz consigo um trauma que ficou por conta da edição de 1989. Naquela edição, o francês Laurent Fignon chegou para a etapa final, um contrarrelógio individual, com 8s de vantagem na liderança. A certeza de triunfo era grande, assim como a expectativa da torcida local, apaixonada por ciclismo.

Mas havia Greg LeMond. Após passar os dois anos anteriores se recuperando de um acidente quase fatal durante uma caça, o norte-americano estava de volta, pedalando muito e chegara para a decisão 58s atrás de Fignon naquele 23 de julho. E voou.

Ele fez os 24,5 km em uma média de velocidade de 54,5 km/h, a mais rápida performance de um contrarrelógio do Tour até aquele ano, e protagonizou uma das maiores viradas da história da prova. No fim, não só tirou a diferença como acabou 8s à frente do francês, ficando com o título (o segundo de três, também levou em 1986 e 1990) e frustrando todo o país dono da competição.

Com quem é a briga pelo título?

Na disputa pelo troféu, Alaphilippe tem como principal rival o compatriota Thibaut Pinot, atualmente na quarta posição, 1m50s atrás até o início da 17ª etapa. O ciclista do time francês FDJ ganhou espaço nas últimas etapas e promete 'colocar fogo' nesta reta final.

Alaphilippe lidera até o momento com um tempo total de 64h57m30s, com 1m35s de vantagem para o britãnico Geraint Thomas, da Team INEOS e segundo, e 1m47s para o holandês Steven Kruijswijk, da holandesa Jumbo-Visma.

O comentarista de ciclismo da ESPN, Celso Anderson, analisa o significado dos feitos do líder e de Pinot para a torcida local.

“O Alaphilippe, até agora, é um fenômeno. Ele não focou nesta prova para a temporada, mas sim nas provas clássicas, das quais é especialista. Então, é uma surpresa para todos, até para ele mesmo. A França está em êxtase com esses dois caras resgatando o ciclismo francês de alto nível em uma volta de três semanas.”

Narrador da ESPN, Renan do Couto também fala sobre a representatividade e da expectativa em cima dos dois atletas.

“As provas passam nas cidades mais rurais e pequenas da França. Passa também pelas grandes cidades, pelo país todo, então, o torcedor vê o Tour passando na cidade dele. E dói muito para eles não ter um francês ganhando há 34 anos, então, a expectativa, ainda mais neste ano com a prova aberta do jeito que está, e com o Alaphilippe e o Pinot se mostrando tão fortes, é muito grande.”