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Tour de Bruno, capítulo 3 - O drama de Rafael Querino: Esmagado enquanto pedalava na estrada, ex-atleta só quer uma chance para voltar a trabalhar

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Tour de Bruno: como Rafa Querino lutou pela vida e ainda sonha em mudar o esporte (5:03)

Professor de educação física é exemplo de superação no esporte (5:03)

Existem reportagens que marcam definitivamente a vida de um repórter. E essa não é diferente, até porque o encontro com o personagem da vida real tem muito a ver com a história do jornalista que escreve aqui.

Tudo começou numa conversa que tive com Celso Anderson, comentarista das principais provas de ciclismo dos canais ESPN.

Com a missão de roteirizar a série de reportagens especiais “Tour de Bruno, Desafiando a Grande Montanha”, parti em busca de personagens que pudessem, de alguma forma, contar histórias interessantes de vida associadas ao ciclismo. E, logo Celso me ligou contando a história de Rafael Querino de Moraes, um rapaz de 37 anos que vive há 12 entre a cama e a cadeira de rodas.

E como queria falar algo sobre o ciclismo nas estradas, a história de Rafael caiu como uma luva.

Meu encontro com o ex-triatleta, três vezes campeão brasileiro de triatlo na categoria júnior aconteceu em uma apartamento na praia da Enseada, no Guarujá, litoral paulista.

Rafael está vivendo no apartamento de praia da família, pois a casa onde morava com os pais havia sido praticamente destruída pelas fortes chuvas que devastaram muitas moradias no ABC paulista, no final de março de 2019.

Chegamos para a gravação da reportagem em um sábado, às 10h. Claro que tinha em mente uma imagem de um rapaz triste, amargurado e pessimista com o futuro que lhe esperava. Ainda bem que não foi nada disso que encontramos.

Para deixar o nosso entrevistado mais à vontade, me apresentei brincando e contando um pouco da minha história.

Falei que, assim como ele, também me tornei deficiente com o passar dos anos. Disse que desde 2008 venho perdendo gradativamente a minha visão, e que isso não impede que eu possa exercer a minha profissão.

E, logo que apresentei a tese que defendo, isto é, que todo mundo tem uma deficiência e que a pior de todas não é a física, mas sim a deficiência de caráter, nasceu uma grande amizade.

Na sala onde conversamos antes da gravação, Rafa e a mãe dele, Dona Maria Aparecida, contaram todo o drama da família ocorrido em um dia em que o atleta saiu, como de costume, para pedalar na rodovia Anchieta, na altura do Km 18, em São Bernardo do Campo.

O ano era 2007. Rafael vivia a melhor fase da vida, tanto esportiva quanto afetiva e profissional. Era professor de educação física, trabalhava em uma famosa rede de academias de São Paulo, era personal trainer da atriz Denise Fraga e vivia momentos de lua de mel, pois estava casado há três meses.

Rafa Querino era um obcecado por esporte tanto que, além de trabalhar como professor, também levava muito a sério as provas de triatlo.

O acidente que quase lhe tirou a vida aconteceu exatamente enquanto pedalava na Via Anchieta, quando um carro grande, uma Blazer, dirigida por um mecânico embriagado, capotou em cima do atleta, sem que ele pudesse ver ou até mesmo tentar se proteger.

Rafa lembra que o carro veio por trás, capotou e caiu exatamente em cima do seu corpo que pedalava em direção ao litoral paulista.

A mãe lembra que o filho só está vivo porque logo após o acidente, uma médica, que passava de carro, parou para auxiliá-lo, pois o ciclista teve três paradas cardíacas, ficou seis meses na UTI e um ano praticamente sem conseguir falar, muito menos lembrar de nada.

O ex-atleta conta que os seus pés vieram parar na cabeça e que seu quadril ficou completamente destroçado com o terrível acidente.

O incrível é que, diante de toda essa história trágica de vida, Rafa Querino não desistiu da vida que tanto ele sonha retomar. A mãe conta que a depressão que já passou aconteceu por causa da separação da esposa que, segundo ela, não aguentou o tranco de viver ao lado de um cara que, depois do acidente, tornou-se dependente para tudo, para comer, para o banho e para as necessidades básicas.

Mas não pense você que Rafa se sente ou se faz de coitadinho não.

Recentemente, ele escreveu sua biografia, “Fazendo Acontecer”. Esta é a obra que conta a história dele e a forma na qual ele conseguiu superar toda a tragédia que aconteceu em sua vida. Ele diz que da tiragem de 1 mil exemplares ainda faltam 300 unidades para vender e que o dinheiro arrecadado ajuda no árduo e caro trabalho de recuperação que ele faz há 12 anos.

No meio da entrevista, e depois, nas muitas mensagens que ele mandou e manda para os novos e velhos amigos, Rafa diz que o grande sonho da atualidade é voltar a trabalhar com o esporte. Seja como palestrante, como já foi uma vez, ou mesmo como professor-orientador de equipes de triatlo, sua eterna paixão.

A verdade é que o momento atual de Rafael e de seus pais não anda nada fácil. Tanto que a mãe nos confessou que anda cansada e que todas as economias da família na tentativa de melhorar a qualidade de vida do filho se esgotaram. Hoje, Rafa anda em uma cadeira de rodas elétrica comprada com a ajuda dos amigos de uma igreja evangélica.

Depois da gravação da entrevista, pedimos ao pai que o levasse à praia para que tivéssemos imagens de Rafa passeando com os pais no calçadão da Enseada.

Ali colocamos Rafael Querino em contato por telefone com um ícone do esporte paraolímpico, Verônica Hipólito, campeã mundial dos 200m e medalhista paraolímpica dos 100m e 200m nos Jogos do Rio 2016.

Explicamos a ela que Rafa pedala com as mãos na cama onde dorme e que ele ainda acredita que pode tornar-se um atleta paralímpico de ciclismo. Enquanto a atenciosa amiga e paratleta conversava com Rafa, ao meu lado, o pai dele, Wilson de Moraes se apresentava quieto.

No olhar do pai de Rafael enxerguei um silêncio ensurdecedor que, além de chamar a atenção, sinceramente começou a me incomodar.

Logo puxei assunto e, logo vi que a nossa conversa não avançaria. De repente, perguntei por que ele é tão quieto e por que se mostra o tempo todo com aquele olhar de quem está pensando longe?

A resposta saiu em voz baixa e direta como um soco no estômago:

“Sabe o que acontece? É que estou ficando velho e perdendo a força para colocá-lo na cama dele e na cadeira de rodas todos os dias. Não sei quanto tempo tenho de vida e não sei quem poderá fazer isso o dia que eu não existir mais”, desabafou.

Diante do pouco que vi e do muito que ouvi, saí dessa reportagem refletindo a força que move o ser humano que não se entrega. A mesma força que me fez ver a vida de outra forma depois que conheci e gravei um pouco da história de Osmar Santos, um ícone da locução esportiva que perdeu a voz num acidente gravíssimo, tão trágico e complicado como o de Rafa Querino.

Saí do encontro com o ex-triatleta com a sensação de impotência, mas com a certeza de que, com essa ferramenta que é a minha profissão, que apareça alguém que possa olhar para o nosso personagem como um grande potencial de trabalho. Seja como um professor de universidade, seja como um palestrante, eu tenho plena convicção de quem tiver a coragem de contratá-lo não irá se arrepender.

Falo isso por que, como Rafael Querino e Verônica Hipólito, não nasci deficiente, me tornei. Na verdade, nós nos tornamos eficientes e temos muita força de vontade e conteúdo para fazer e escrever histórias.

Que venha a grande chance da vida de Rafa, quem sabe com Você.

Assista ao terceiro capítulo do: “Tour de France, Desafiando a Grande Montanha" clicando aqui no WatchESPN. Confira o segundo capítulo e reveja o primeiro episódio. E recomende aos amigos, apaixonados ou não, pelo mundo do ciclismo.