O raro caso do erro de arbitragem que comoveu o time prejudicado

Gian Oddi
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Girroud e Rebic reclamam com o árbitro Marco Serra em Milan x Spezia
Girroud e Rebic reclamam com o árbitro Marco Serra em Milan x Spezia reprodução TV

Para quem não viu: o jogo era Milan x Spezia, no estádio San Siro, e o placar da partida que levaria o time milanista à liderança do Campeonato Italiano em caso de vitória apontava 1 a 1, aos 47 minutos do 2º tempo. O Milan buscava o gol quando o atacante Rebic sofreu falta na entrada da área. Menos de dois segundos depois, porém, a bola já estava nas redes após uma linda finalização do brasileiro Junior Messias, que entrara no jogo havia pouco tempo.

O gol, contudo, foi invalidado, porque, sem aplicar de lei da vantagem no lance, o árbitro Marco Serra apitara freneticamente antes mesmo do chute de Junior Messias. Não cabia VAR, não havia discussão: o nítido som do apito, ainda que em nada tenha influenciado a ação dos jogadores envolvidos no lance, invalidava o gol. O primeiro erro não justificaria um segundo com a sua validação.

Junior Messias caiu ajoelhado no gramado, tão calado quanto inconformado. Girroud, Theo Hernandez e Rebic correram em direção a Serra para reclamar. O árbitro, percebendo a bobagem cometida, imediatamente levantou os braços para pedir desculpas a todos eles. Rebic segurou a cabeça do árbitro com as duas mãos, chegou a encostar sua testa na de Marco Serra, para perguntar já com mais decepção do que revolta: “Por que você apitou? Por que você apitou?”

No lance seguinte ao da cobrança da indesejada falta, 96 minutos de jogo, contra-ataque do Spezia e gol: 2 a 1, de virada. O Milan, que em caso de vitória chegaria à liderança, perdia em casa para o modesto 15º colocado do campeonato.

Veja os gols de Milan 1 x 2 Spezia:   


Ocorre, então, o fato menos corriqueiro e mais surpreendente de todo o episódio.

Enquanto o árbitro Marco Serra saía de campo já com lágrimas nos olhos, recebíamos, na transmissão que fazíamos do jogo para o Brasil, mensagens de espectadores afirmando que Serra não conseguiria sair “vivo do gramado”.  

Os jogadores do Milan, liderados por Ibrahimovic, de fato se aproximaram do árbitro como muita gente esperava. Para surpresa dessas mesmas pessoas, porém, a aproximação foi tranquila. Aos 40 anos, um a mais que o árbitro, o centroavante sueco dirigiu suas primeiras palavras a Marco Serra: “Todos erram”. Frase completada, no instante seguinte, pelo capitão milanista Theo Hernandez: “Eu errei um pênalti hoje”.

Parte menor da surpreendente reação dos jogadores do Milan poderá talvez ser atribuída à maturidade do veterano Ibrahimovic, que em seu livro “Adrenalina” afirma o seguinte: “Sempre considerei os árbitros como um 12º adversário em campo. Hoje, quando posso, eu tento ajudá-los.”

Mas é evidente, acima de tudo, que a reação compreensiva do grupo de jogadores do Milan tem mais a ver com a reação do árbitro, com a humildade das desculpas públicas ainda em campo; com o reconhecimento de que, sim, erros fazem parte da vida de todos nós, mas pior que o erro em si é não o reconhecer e manter diante dele uma postura de arrogância e prepotência, como fazem tantos árbitros. 

Basicamente, os jogadores do Milan, num gesto humanista raro no futebol atual, estavam sendo solidários à tristeza de Marco Serra.

O episódio de Milan x Spezia diz muito sobre como a postura de árbitros e jogadores, em certas praças bem mais do que em outras, pode ajudar na evolução da arbitragem e nas relações dentro de um jogo de futebol.

Marco Serra, aos 39 anos e com apenas 9 partidas dirigidas na Série A italiana, trabalhará nesta quarta no VAR de Cagliari x Sassuolo pela Copa da Itália, fato previsto antes do fatídico jogo de Milão. Será, então, suspenso para mais tarde voltar a dirigir jogos da Série B. Os pontos do Milan não serão recuperados e podem até custar o título. O prejuízo é irreparável.

Como consolo, porém, ainda que autor de um grave erro técnico, o jovem árbitro de Turim poderá um dia olhar todo o imbróglio sob um outro prisma: o de ter sido protagonista de um episódio que deveria servir de exemplo de postura. Para árbitros e jogadores.

 
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Ironizar a insatisfação de Pedro era tão irracional quanto é, agora, exagerar na relevância das suas manifestações

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Não foram polêmicas, não trazem um teor surpreendente e não parecem gerar consequências negativas as manifestações do centroavante Pedro, do Flamengo, após a vitória por 2 a 1 sobre o Altos pela Copa do Brasil, jogo no qual o atacante marcou um dos gols de sua equipe.

Em síntese, Pedro disse que gostaria de atuar mais, o que parece óbvio para um jogador da sua qualidade que é apenas o 20º mais utilizado do elenco se considerarmos as partidas do Flamengo no Brasileirão e na Libertadores.

Pedro em ação com a camisa do Flamengo
Pedro em ação com a camisa do Flamengo Gilvan de Souza/Flamengo

Por outro lado, apesar da sinalização pública a respeito desse desejo em um post no Instagram e na entrevista ao fim do jogo, Pedro fez questão de isentar nominalmente o treinador atual, falou a respeito de escolhas de “quem aqui estava”, prometeu manter empenho total para conquistar mais espaço e, o que talvez pudesse gerar mais turbulência, falou que, se for o caso, “no meio do ano”, quando ocorre a janela de mercado, “a gente conversa”.

Embora seja evidente que suas manifestações têm o intuito de colocar alguma pressão para que suas entradas em campo sejam mais constantes, a forma e o método utilizado não ultrapassam qualquer limite legal ou ético. A comunicação é parte de sua estratégia, e se as ações são feitas dentro desses limites não há problema algum, faz parte do jogo.

Copa do Brasil: veja os gols de Altos-PI 1 x 2 Flamengo

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Assim como não fazia sentido usar termos como “tristeza” ou (o insuportável) “mimimi” para ironizar as notícias divulgadas por repórteres que seguem o clube de perto, também não faz sentido, a partir de agora, imaginar um ambiente de turbulência, crise ou desconforto por causa das manifestações deste domingo.

Como muitas vezes costuma ocorrer no futebol, o episódio das declarações de Pedro parece gerar uma repercussão bem maior que o tamanho do fato, que a relevância da notícia.

Se for o caso, como disse o próprio Pedro, no meio do ano clube e jogador podem conversar. Sempre levando em consideração que sua eventual saída só poderá ocorrer com o consenso das duas partes, que têm contrato assinado válido até dezembro de 2025. E que essa saída, se viesse a acontecer, teria que ser para destino e por valor também acordado com todos os lados.

Qualquer especulação, incitação ou ironia que desconsidere a conjuntura acima não se baseia nos fatos, mas em desejos.

 
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Mesmo que por inveja, precisamos mudar

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Jürgen Klopp e Pep Guardiola: símbolos de uma ideia bem mais saudável do futebol
Jürgen Klopp e Pep Guardiola: símbolos de uma ideia bem mais saudável do futebol Getty Images

Quis o destino que o Campeonato Brasileiro deste ano começasse no mesmo fim de semana de um dos jogos mais brilhantes, se não o mais brilhante, da temporada europeia: o confronto entre Manchester City e Liverpool, líder e vice-líder da Premier League separados apenas por um ponto na liga nacional mais rica do planeta.

Enquanto as duas equipes inglesas jogavam o melhor futebol possível, os velhos e compreensíveis chavões sobre a tal “outra modalidade” em relação ao esporte que se disputa por aqui imediatamente tomaram conta das redes sociais.

É justo constatar que, por maiores que fossem os esforços e as boas intenções, existem aspectos diretamente relacionados ao dinheiro que tornam os patamares da Premier League inatingíveis para o cenário brasileiro e sul-americano – a compra dos melhores jogadores do planeta, claro, é o principal deles. 

Deveriam nos interessar, portanto, todos os outros aspectos, todos aqueles cuja quantidade de dinheiro não tem relação direta com um melhor espetáculo em campo.

O cumprimento eufórico de Pep Guardiola e Jurgen Klopp ao final do empate por 2 a 2, um resultado que não agradou plenamente a nenhum dos dois treinadores, diz muito sobre o jogo e o porquê dele ter sido o que foi. Diz muito sobre a intenção de ambos, sobre aquilo que os satisfaz, sobre o que e como seus jogadores são orientados a fazer quando pisam no gramado.

Em um jogo de futebol que na nossa visão habitual teria todos os ingredientes para ser “brigado, falado, pegado, pressionado e violento”, o que vimos foram 90 minutos de puro futebol. Foram 20 faltas no jogo, média de uma a cada 4,5 minutos (a média na rodada inaugural do Brasileirão foi de uma a cada 3 minutos). O VAR, quando necessário, agiu com agilidade e sem contestações. E o árbitro foi quase tão notado em campo quanto a bandeira de escanteio.

Não há avaliação de árbitro que resista àquilo que ocorre no Brasil: por melhor que seja uma arbitragem em campo, não há imagem que não saia destruída diante dos infindáveis bolos de atletas e técnicos protagonizando contestações na quantidade e intensidade que vemos por aqui, em quase qualquer partida.

Gabriel Jesus encerra jejum, e City e Liverpool empatam em Manchester; veja os melhores momentos


Essas cenas imediatamente costumam gerar, tanto em torcedores como em jornalistas e influenciadores de clubes, as avaliações de que o árbitro "não está sabendo conduzir a partida”, “está confuso”, “invertendo faltas”, “não teve pulso” e tantos outros clichês aos quais costumamos recorrer quando não há erro de arbitragem claro e inquestionável para apontar.

Nossa arbitragem merece inúmeras e contundentes críticas, mas isso não deveria nos impedir de perceber quantas vezes transferimos para ela um problema que está essencialmente no comportamento de técnicos e jogadores. A ideia de que futebol se ganha com gritos, peitadas e virilidade é onipresente por aqui e não traz benefício algum para o nosso futebol.   

O Campeonato Brasileiro pode ser espetacular. Em sua primeira rodada, dois dos três favoritos já tropeçaram. Pelo menos quatro times que não pertencem a esse trio fizeram excelentes jogos. Passamos a ter alguns clubes bem estruturados, e novos investimentos estão chegando para outros. Bons jogadores, jovens e veteranos, não faltam. As torcidas são numerosas. O clima ajuda, a grama prospera. Temos vários novos estádios e, acima de tudo, uma população com mais de 210 milhões de pessoas para a qual o futebol é o esporte nacional. Sem falar na (ainda) admiração dos estrangeiros por nossa capacidade técnica.

O potencial do futebol brasileiro, e sobretudo de seu campeonato nacional, é gigante.  

CBF, clubes e treinadores precisam agir, juntos, para mudar esse panorama de comportamento insano que predomina por aqui. Não é missão das mais complicadas e tampouco carece de grande investimento: bastam orientações, comunicação clara e punições. 

A compreensão de que tornar os jogos de futebol no Brasil mais atrativos trará um campeonato bem melhor e, portanto, mais interesse e mais dinheiro, parece não ser simples, mas precisa acontecer. Nem que a motivação parta da simples inveja do que vimos neste domingo em Manchester.


 
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O incompreensível ódio por Abel Ferreira

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Os termos “idiota” e “boçal”, usados por Paulo Roberto Martins para criticar o técnico Abel Ferreira, a quem o comentarista classifica como “uma desgraça de ser humano”, foram apenas parte de mais um episódio entre os tantos que têm tratado o treinador português do Palmeiras de maneira não apenas desrespeitosa, mas violenta.

Antecipo-me, antes de prosseguir no tema, para dizer que discordo da postura da diretoria palmeirense ao vetar entrevistas para a rádio Transamérica “enquanto o comentarista fizer parte do quadro da emissora”, conforme informa o UOL Esporte nesta terça-feira (15).

Embora o ato agrade boa parte da torcida e não seja prática rara no universo do futebol brasileiro, pedir cabeças de profissionais não deveria fazer parte do procedimento de clubes, que têm muitos caminhos para cobrar e eventualmente penalizar um profissional por seus excessos – começando pela recusa em conceder-lhe entrevistas e chegando às vias jurídicas.

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Dito isso, é preciso tentar entender: por que tanto ódio por Abel Ferreira? Por que as críticas ao treinador do Palmeiras têm passado do ponto tão frequentemente, extrapolando o que acontece no campo?

Ser um técnico vitorioso, como Abel passou a ser desde que chegou ao Palmeiras, não deveria lhe garantir imunidade em relação às críticas, que, porém, seguiram em volume e contundência surpreendentes para um treinador cujos méritos nas conquistas são tão evidentes quanto a qualidade técnica superior de adversários que ele eliminou em seus títulos.

Mas isso pouco interessa. Criticar Abel, suas estratégias, escalações e modelo de jogo é um direito de quem quer que seja, e cabe a quem consome essas críticas concordar ou não com elas e com as motivações e justificativas de quem as elabora. Faz parte do jogo.

Bem mais surpreendentes e inexplicáveis são as críticas furiosas, cheias de veias saltadas, perdigotos e excessos verbais, que dizem respeito aos aspectos pessoais de Abel Ferreira; ou as críticas que condenam suas ótimas entrevistas coletivas e seu posicionamento sempre claro e firme contra o que há de pior no futebol do Brasil.

Exceção feita aos seus arroubos e indiscutíveis exageros contra a arbitragem na beira do gramado, onde Abel é apenas mais um entre tantos por aqui, o treinador português vai prestando inestimáveis serviços ao futebol brasileiro – e não apenas ao Palmeiras.

Afinal, não é bom ter quem nos ajude a perceber a forma violenta e tóxica com a qual temos nos relacionado com o futebol, ainda que para isso tenha que criticar seu próprio torcedor? Não queríamos alguém relevante que falasse constante e contundentemente contra o insano calendário da CBF sem temer retaliações? Não é positivo que um técnico faça questão de explicar suas escolhas da forma como ele faz, falando sobre futebol e deixando inclusive um livro publicado a esse respeito? Não é bom, em meio à nossa ode à ignorância e malandragem, ver celebrado um treinador obcecado pelo trabalho, aplicado e estudioso? Além de tudo isso, um sujeito que é tão exaltado por faxineiros, cozinheiros, roupeiros e seguranças do clube pode mesmo ser essa “desgraça de ser humano”?

Abel Ferreira não é perfeito. Já cometeu seus deslizes em coletivas, exagera na beira do gramado e, para muitos, recua o time mais que o necessário. Mas não há como negar: para o futebol brasileiro, o saldo de sua passagem é muito positivo.

Por que, então, o técnico português sofre o tipo de crítica que tem sofrido, com tanta contundência e continuidade? É a simples busca de audiência em cima de um personagem relevante? É por ser estrangeiro? É a praga do clubismo? É por se contrapor a um modelo que consagrou figuras relevantes e ultrapassadas, mas ainda bem relacionadas?

Difícil dizer. O ódio por Abel Ferreira é incompreensível.

Abel Ferreira no Brasil: títulos e críticas na mesma medida
Abel Ferreira no Brasil: títulos e críticas na mesma medida Cesar Greco / Palmeiras

 

 
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Gostem ou não, a Bola de Ouro é relevante. E muda, de novo, para melhor

Gian Oddi
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Você pode até não gostar, mas precisa admitir que as premiações individuais de jogadores de futebol parecem ter cada vez mais relevância no contexto da modalidade. Os principais jogadores do planeta almejam sempre mais essas premiações, e há até mesmo quem troque de clube vislumbrando protagonismo e um aumento na chance de conquistar troféus como a Bola de Ouro, da France Football, e o The Best, da Fifa.

Essa realidade torna relevante o anúncio feito hoje pelo diretor de redação da revista France Football, Pascal Ferré, a respeito dos critérios de escolha do prêmio Bola de Ouro, o mais antigo e, ao menos na Europa, ainda o mais prestigioso dos prêmios.

Ele informou que serão duas as principais novidades na escolha anual dos vencedores da Bola de Ouro:

1) A partir de agora o prêmio passa a considerar o desempenho dos jogadores na temporada europeia, que costuma acontecer de agosto até maio/junho, e não mais no ano solar. Dessa forma, a premiação passará a ser concedida em setembro ou outubro, e não mais em dezembro.

2) Haverá também uma significativa redução no colégio eleitoral que definirá os vencedores do prêmio: seguirão votando apenas jornalistas, mas, a partir de agora, apenas aqueles que pertencerem aos 100 países mais bem colocados no ranking da Fifa – até hoje votavam jornalistas de 170 países para o futebol masculino. Já para o futebol feminino votarão jornalistas dos 50 primeiros países no ranking.

Ronaldo e Messi, com 3 troféus, são os maiores vencedores da Bola de Ouro ao lado de Cruijff, Van Basten e Platini
Ronaldo e Messi, com 3 troféus, são os maiores vencedores da Bola de Ouro ao lado de Cruijff, Van Basten e Platini Alexander Hassenstein/Getty Images

 

“Essa é a oportunidade para dar uma nova guinada no prêmio. Até ontem julgávamos os jogadores baseados em duas metades de temporada. Com o novo formato a escolha ficará mais compreensível”, afirmou Ferré.

A confusão na compreensão das escolhas em várias temporadas recentes, nesta última inclusive, corrobora a justificativa de Ferré. Assim como as tabelas de votos específicos dos representantes de cada país justifica a escolha de reduzir o colégio eleitoral a países com “grande cultura futebolística e legitimidade histórica”, como escreve a própria France Football.

Outras mudanças anunciadas, mas que devem ter menor ou nenhum impacto no resultado final do prêmio, dizem respeito aos critérios que devem nortear os votos de cada um e à forma como será definida a lista prévia de candidatos. 

Criada em 1956, esta não é a primeira vez que a Bola de Ouro muda seus critérios. Em 1995, por exemplo, o prêmio, que até então era restrito a cidadãos europeus, passou a permitir vencedores de qualquer nacionalidade; em 2007, jogadores que atuavam fora da Europa também puderam entrar na disputa, algo que até então não era permitido (não que isso tenha mudado muito na prática); em 2018, houve a criação da Bola de Ouro feminina.

Mesmo quem não se importa com premiações individuais precisa admitir que, hoje, elas têm considerável relevância do futebol. Diante disso, o ideal é que esses prêmios se aprimorem para refletir da forma mais justa possível o que aconteceu na temporada. Foi o que fez a France Football.

 
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O principal valor da Supercopa

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Bruno Henrique e Vargas, em lance da ótima Supercopa entre Flamengo e Atlético
Bruno Henrique e Vargas, em lance da ótima Supercopa entre Flamengo e Atlético Pedro Souza/Atlético

Após a grande partida de futebol jogada por Atlético-MG e Flamengo no último domingo, como aliás já ocorrera em 2021 após o jogo entre Flamengo e Palmeiras, a discussão sobre o valor e a importância da Supercopa do Brasil mais uma vez vem à pauta.

Seu valor, contudo, parece óbvio: é o valor de uma taça, de um jogo apenas, algo incomparável àquilo que vale o título de competições duríssimas e disputadas como a Conmebol Libertadores, o Brasileirão e a Copa do Brasil. Algo que, portanto, não deveria gerar crises, revoltas ou mesmo chiliques do lado perdedor.

A Supercopa serve, também, para que clubes, técnicos, jogadores e direções acrescentem números aos seus currículos de conquistas. Assim, eventualmente, nas infinitas (e muitas vezes divertidas) comparações entre fulano e cicrano, torcedores (e jornalistas também) lançarão mão destes números para justificar suas preferências.

O fato de o Atlético ter vencido as duas competições que credenciam um time a jogar a Supercopa pode, sim, fazer com que se discuta a necessidade – ou a justiça – de o jogo ser disputado nesse contexto, sem ao menos uma vantagem para o duplo campeão. Embora infantis, as brigas dos dirigentes de Flamengo e Atlético ajudaram a colocar foco neste debate.

Mas o mais relevante das últimas edições da Supercopa disputada no Brasil, seu principal valor, não diz respeito a um time ou contexto específico, e sim ao futebol brasileiro de maneira geral. A Supercopa, basicamente, escancara o quanto desperdiçamos do nosso futebol, e do prazer que ele pode gerar, a cada semana da temporada.

Porque tem ficado claro nas edições dessa disputa, ainda mais no cenário atual em que vários clubes têm (ou terão) condições de montar boas equipes, o quanto o nosso principal campeonato, o Brasileiro, pode ser forte e divertido. O quanto seus jogos podem ser tecnicamente bons, bem jogados, com qualidade e intensidade física.

Para que assim seja, porém, não dá para os jogos importantes da temporada se concentrarem em 7 meses, enquanto outros três são dedicados primordialmente aos estaduais. Não dá para times perderem seus principais jogadores para seleções quando jogam partidas importantes no cenário nacional. Não dá pra jogar bola em certos gramados, com certos árbitros. Não dá pra os estádios estarem vazios porque o torcedor precisa escolher em qual partida gastar seu dinheirinho, já que um time pode chegar a fazer 91 (!) jogos num só ano.

Definitivamente, assim não dá. E as lições da Supercopa, para a qual dois bons times se preparam e jogam com condições mais próximas do ideal, escancararam isso. 

São lições óbvias e batidas, mas que, no Brasil, insistimos em ignorar.

 
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Embora imparcial, filme sobre Neymar tem pouco a revelar

Gian Oddi
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Ao saber do lançamento de “Neymar, o Caos Perfeito”, resolvi encarar as 2h45 de filme, dividido em três episódios, apenas como obrigação profissional. Primeiro, por certo desinteresse a respeito daquilo que Neymar produz, diz e faz fora dos campos. Segundo, por considerar suspeito o valor jornalístico de uma série produzida com o aval do jogador e, sobretudo, de seu pai.

O segundo motivo, porém, mostrou-se infundado, pelo menos quanto à presença dos episódios negativos envolvendo a carreira e a vida de Neymar: há no filme uma avalanche de críticas e xingamentos de torcedores, muitas opiniões negativas retiradas de programas de TV, um depoimento crítico gravado com Juca Kfouri, o soco no torcedor do PSG, os memes que zombavam de suas simulações. Está tudo lá. Até a denúncia de estupro, que pela inconsistência das acusações poderia ter sido omitida, está presente.

As críticas são ali apresentadas como a força motriz de Neymar. Desde o início do filme, quando o jogador sugere que um compilado delas abra o documentário, a narrativa é a de que sem essas críticas Neymar não teria o tamanho que tem. O mantra adolescente “FODA-SE O QUE VÃO PENSAR DE MIM” é repetido várias vezes pelo atleta, para quem as críticas são sempre insensatas. Ainda assim, elas o motivam, ele diz – e isso lhe basta.

Mesmo que os episódios e opiniões desfavoráveis a Neymar cumpram esta função específica no roteiro do filme, ninguém pode acusar a edição final de omitir, ironizar ou minimizar esses momentos para favorecer o jogador. A falta de isenção ou imparcialidade na abordagem dos temas não é um problema do documentário.

Seu problema é revelar pouco, não surpreender, não apresentar nenhuma faceta ou aspecto até então desconhecido de Neymar. Já cansamos de conhecer o Neymar craque. O baladeiro. O superstar. O moleque. O autossuficiente. E todos eles estão mais uma vez bem retratados no filme.

É até justo ponderar que mostrar muito além disso talvez seja missão impossível diante da superexposição de Neymar: tudo a respeito dele já foi dito, analisado e mostrado, não só pela mídia como em suas próprias (frenéticas) redes sociais.

Relação entre pai e filho é o que há de novo na série sobre Neymar. Mas é pouco
Relação entre pai e filho é o que há de novo na série sobre Neymar. Mas é pouco EFE

Há um ponto do filme, contudo, que caberia ressaltar: as passagens que abordam o mundo empresarial em torno do craque. As reuniões nas quais Neymar pai – com enfadonhos clichês corporativos – demonstra deslumbramento com seu papel de empresário acabam por mostrar também, em contrapartida, um Neymar filho cansado disso tudo. Porque, para o pai, a prioridade parece ser a tal “marca” e o futuro de sua empresa após o fim da carreira do jogador.

Percebe-se tensões entre ambos, e a intransigência e incapacidade de ouvir do interlocutor são apontadas pelos dois lados como um problema na relação. É o filho, porém, que em determinado momento admite ser aquele que acaba sempre por ceder para “não entrar em conflito”. São breves diálogos, estes sim reveladores, mas o filme não avança nessa questão que talvez o tornasse bem mais interessante do que é.

“Neymar, o Caos Perfeito” tem suas qualidades, e suas quase 3 horas são um bom passatempo sobretudo para quem curte o personagem Neymar. É muito bem filmado e traz bastidores pessoais (mais) e profissionais (menos) que podem interessar a muita gente. Mas a impressão final é que, a exemplo de seu protagonista, o filme poderia ter sido ainda mais relevante do que é.


 
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Fossem outras, cobranças a Leila Pereira fariam sentido

Gian Oddi
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Em sua trajetória até assumir a presidência do Palmeiras, Leila Pereira pouco foi questionada a respeito de temas muito relevantes. Alguns exemplos: qual o valor do documento assinado apenas por Mustafá Contursi que lhe permitiu virar conselheira, seus métodos para conquistar os votos dos associados e as possíveis consequências da dívida que o clube de uma hora para outra passou a ter com sua empresa.

Grosso modo, para muita gente, a impressão passada foi a de que seu dinheiro bastou para qualificá-la ao cargo que hoje ocupa.

Seja como for, Leila Pereira é hoje a presidente do Palmeiras. E não deixa de ser curioso que, mal iniciada sua gestão, muitos dos que fizeram vistas grossas a todo o processo que a levou à cadeira que ocupa, e que foram inclusive beneficiados por sua farta distribuição de dinheiro e mimos, façam questionamentos ou cobranças tão irrelevantes como a do time para o qual torce seu assessor de imprensa.

Não se trata de novidade no clube, é verdade. Paulo Nobre já havia passado pelo mesmo, mas a irrelevância do assunto não justifica mais que uma breve menção neste artigo.

Mais relevantes e compreensíveis seriam as cobranças pela contratação de um centroavante à altura do atual elenco bicampeão sul-americano, algo de que o Palmeiras, hoje, realmente não dispõe.

Seriam cobranças compreensíveis não fossem em grande parte intensificadas pela pressa e pela obsessão da chegada de um nome conhecido, uma estrela daquelas que trazem o nome e tantas vezes oferecem pouco mais que este nome quando estão em campo. Como ocorreu com Luiz Adriano, para ficar apenas em um exemplo recente (são muitos) do próprio Palmeiras.

Num país onde a temporada do futebol começa praticamente em abril, a pressa baseada no Mundial de Clubes não tem justificativa racional, seja porque o Mundial não é maior que o restante da temporada, seja porque, numa eventual decisão contra o poderoso Chelsea, as chances do Palmeiras passam bem mais por uma infinidade de outros fatores do que pela contratação de um único jogador – ou esse camisa 9 por acaso seria Robert Lewandowski?

Fazer uma bobagem agora pode comprometer a temporada inteira, e se é preciso esperar para contratar melhor, que assim seja.

O Palmeiras já deixou claro julgar necessária a contratação do camisa 9, e ela de fato é. A busca por nomes como Taty Castellanos e Alário aliada à chegada de jogadores úteis embora pouco badalados para outras posições indicam um clube atento ao mercado e que hoje busca seus reforços não por grife, mas por uma lógica baseada em estudo, prospecção e responsabilidade financeira – como deveria ser padrão.

Entre tantas cobranças e questionamentos possíveis, os que são feitos a Leila Pereira neste início de mandato não fazem muito sentido, embora seja preciso ponderar e compreender que sua gestão midiática, populista e ávida por likes colabore para isso.  

Leila Pereira, ainda com pouco conhecimento sobre a dinâmica do futebol nacional, passa a impressão de ter se tornado presidente do Palmeiras em grande parte por vaidade, pela visibilidade que o cargo lhe dá. O absurdo post nas redes sociais em que ela praticamente atribui para si todos os méritos da guinada dada pelo clube nas gestões de Paulo Nobre e Maurício Galiotte é completamente desconexa da realidade.

Quem sabe as cobranças atuais, ainda que pouco fundamentadas, tenham pelo menos o mérito de conectá-la à realidade do futebol brasileiro. Uma realidade insensata e truculenta na qual o trabalho com discrição costuma ser muito bem vindo.

Leila Pereira, nova presidente do Palmeiras, conversa com o elenco
Leila Pereira, nova presidente do Palmeiras, conversa com o elenco Cesar Greco/Palmeiras

 
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Ronaldo tem razão e não tem culpa

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Ronaldo, o novo acionista, e Sergio Rodrigues, presidente do Cruzeiro
Ronaldo, o novo acionista, e Sergio Rodrigues, presidente do Cruzeiro XP Investimentos/Divulgação

 

Não há o que se discutir sobre a importância de Fábio na história do Cruzeiro. Seus 17 anos de serviços prestados ao clube e sua trajetória de conquistas tornam a idolatria da torcida compreensível, justa e até obrigatória. Relações assim são em grande parte as responsáveis por dar ao futebol a dimensão que ele tem.

Portanto, após a dispensa do goleiro pelos novos gestores do Cruzeiro, é preciso compreender, também, que muitos torcedores tenham corrido às portas da Toca da Raposa gritar “Ronaldo, gordão, vem dar satisfação”, para que o velho conhecido e novo proprietário do clube explicasse o término do vínculo com Fábio.

Alguns dias depois, Ronaldo foi. E não poderia ter sido mais claro.

"O Cruzeiro é um paciente em estado grave, estamos oferecendo o tratamento" e "encontramos um cenário realmente trágico no clube, mas temos que estancar o sangramento” foram suas duas frases mais contundentes que, verdadeiras, resumem com precisão o atual cenário do clube.

É até normal que, após um episódio como o corrido com Fábio, surjam infinitas acusações de insensibilidade e desrespeito. A chegada dos gestores cruéis, dos capitalistas impiedosos e inescrupulosos em busca do lucro incessante é uma narrativa comum e muitas vezes verdadeira no universo do futebol, mas não se aplica ao caso Fábio.

Fossem novos gestores assumindo Flamengo ou Palmeiras e agindo da mesma maneira com algum de seus ídolos, a discussão caberia. No Cruzeiro, não. O Cruzeiro de hoje precisa lutar para sobreviver. Se manter. Se estruturar. Crescer de forma sustentável. E, claro, subir para um dia voltar a ocupar os patamares que já ocupou no futebol brasileiro.

Não há outras prioridades e, dentro dos caminhos legais, não importa o que seja preciso fazer, não importa quão doloroso seja o tratamento. O foco do Cruzeiro passou a ser apenas um, e se as coisas chegaram neste ponto a responsabilidade não é de seus novos gestores.   

A necessidade da dispensar um jogador com alto salário aos 41 anos de idade não é culpa de Ronaldo. É dos wagners, gilvans, itaires, zézés e tantos outros que no passado, com cargos maiores ou menores, não lançaram mão de tratamentos menos invasivos para que o Cruzeiro evitasse chegar ao ponto que chegou, o triste ponto de adotar um remédio tão amargo como a dispensa de Fábio.

 

 
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Ronaldo tem razão e não tem culpa

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José Mourinho, com sua obsessão pelo mal, está pronto para o Brasil

Gian Oddi
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Mourinho á beira do campo durante Roma x Juventus
Mourinho á beira do campo durante Roma x Juventus Matteo Ciambelli/DeFodi Images via Getty

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Quem assistiu à ótima série documental All or Nothing a respeito do Tottenham e da passagem de José Mourinho pelo clube já sabe: o vitorioso técnico português está obcecado pelo mal.

Em diversos episódios do documentário, Mourinho alterna as palavras para repetir a Harry Kane, Son e companhia uma reclamação exatamente com o mesmo teor: “vocês são um grupo pessoas incríveis, muito boas mesmo, mas no futebol isso é um problema, vocês são bonzinhos demais”.

Chama atenção, pelo menos segundo o que é retratado na série, o quanto suas preleções, falas e orientações são muito mais de ordem motivacional do que tática e técnica (o oposto do que se vê na mesma série ao retratar o Manchester City de Pep Guardiola).

Após a incrível e absurda virada da Juventus sobre sua Roma no domingo, num jogo em que o time da capital viu um placar favorável por 3 a 1 ser revertido para 4 a 3 em apenas 7 minutos, o teor das entrevistas de Mourinho seguiu mais ou menos a mesma linha daquilo que se vê no documentário do Tottenham. Ele quer um time mau.

Veja os gols de Roma 3 x 4 Juventus:

José Mourinho não é o culpado pelo desastre no Olímpico. Com formação e desempenhos acima da média para o que tem sido a temporada, mesmo toda desfalcada, a Roma produziu até mais que a Juve. Por seu carisma e história, a chegada do português ao clube no início da temporada surtiu efeito e, mesmo sem tantos motivos técnicos para tal, gerou euforia que há tempos não se via entre torcedores (leia texto a respeito no blog).

No cômputo do saldo atual, sua passagem não é desastrosa apesar da modesta 7ª colocação no Campeonato Italiano e de uma goleada vexatória diante do norueguês Bodo Glimt. Mourinho, claro, não deveria ser substituído. Reclamar de foco, concentração e comprometimento é não apenas seu direito, mas também sua função e responsabilidade.

Porém, ao manter essa lógica materazziana do futebol, ao insistir na máxima de que jogos se ganham no grito, na intimidação do adversário, nas chegadas mais dura e nas rodinhas em torno do árbitro (a Roma já exagera neste aspecto), Mourinho contraria o que se vê, hoje, nos principais times e campeonatos do continente. Em 2022, aliás, nem mesmo na Libertadores, antes exaltada por seu caráter bélico, os jogos se ganham dessa forma – embora muitos ainda joguem assim.

Aos 58 anos, José Mourinho precisa mudar. Caso contrário, entres as ligas relevantes do planeta, ao buscar um lugar onde sua visão de futebol ainda é razoavelmente compartilhada, só lhe restará o Brasil. 


 
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8 previsões (infalíveis) para o futebol brasileiro em 2022

Gian Oddi
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Robério de Ogum e Lene Sensitiva que se preparem, está chegando concorrência nova na praça. Se dois dos mais midiáticos videntes do país têm alternado acertos e erros em relação àquilo que projetam para o futebol brasileiro nos últimos anos, eles mesmo ficarão boquiabertos quando perceberem que, no final de 2022, este blog terá acertado 100% das oito previsões abaixo feitas para a temporada que começa em alguns dias, com o início dos campeonatos estaduais. 

Voleio de Milik, milagre de Ter Stegen, chutaço de Kovacic e mais: o top 10 do final de semana

         
     

1.  O absurdo do calendário do futebol brasileiro e dos jogos nas datas Fifa, tudo definido desde já, será percebido como verdadeiro problema pelos clubes mais importantes do país apenas e tão somente quando seus jogadores começarem a ser convocados para as seleções sul-americanas.

2.  A incompetência da arbitragem, pela qual pouco se fez, também surgirá como se fosse uma surpresa, inesperada, no primeiro pênalti ou impedimento mal marcado contra seu clube. Que vai reclamar para o jogo seguinte, quando poderá ser beneficiado. Para depois ser prejudicado novamente...

3.  Técnicos e times hoje vencedores e exaltados serão tachados como incompetentes, mercenários ou “sem vergonha” na primeira perda de taça pouco relevante ou na primeira sequência de maus resultados em jogos desimportantes que tenham pela frente nos campeonatos estaduais.

4.  Na sequência a esse momento ruim surgirão (e serão amplamente divulgadas) listas de dispensas de jogadores promovidas por torcidas organizadas, as mesmas que dali a alguns meses não terão o menor pudor em exaltar como deuses os nomes que desejavam ver expurgados do time no início da temporada.    
 
5.  Clubes devendo para Deus e o Mundo contratarão ninguém menos que Deus e o Mundo sob o argumento de que é preciso investir para arrecadar. De que é preciso “ousadia”. Muita gente defenderá a ousadia no seu próprio clube ao mesmo tempo em que, curiosamente, condenará a irresponsabilidade financeira do rival.

6.  No que nos diz respeito, refiro-me à imprensa esportiva, a ditadura da contundência (ou, no melhor e mais inofensivo dos casos, a pieguice popularesca) seguirá imperativa em uma busca inegavelmente bem sucedida por audiência, cliques e likes.

7.  Esse fato de certa forma ajudará a explicar que entrevistas coletivas de clubes estejam cada vez mais recheadas por canais clubistas – alguns sérios e outros subsidiados sorrateiramente pelos próprios clubes –, tornando os questionamentos sempre mais vazios e confortáveis.

8.  Para encerrar, uma previsão estatística: o número de técnicos a trabalhar no próximo Campeonato Brasileiro será no mínimo, numa previsão modesta, 80% maior que o número de times a disputar a competição.

Sei que não existe lá um grande mérito nisso, mas podem conferir e cobrar.

E um feliz 2022 a todos.   ;  )

Sem ajuda de clubes e atletas, e com poucas ações da CBF, arbitragem seguirá contestada
Sem ajuda de clubes e atletas, e com poucas ações da CBF, arbitragem seguirá contestada Jorge Bevilacqua/Código19/Gazeta Press

 
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Melhor da temporada: o número mais incrível de Hulk não foi o de (36) gols

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Hulk pelo Galo: muito futebol em qualidade e quantidade
Hulk pelo Galo: muito futebol em qualidade e quantidade Pedro Souza/Atlético-MG

Após a conquista da Copa do Brasil pelo Atlético Mineiro, a temporada do futebol brasileiro está finalmente encerrada e não deixa dúvida alguma sobre quem foi o melhor jogador de futebol no país em 2021: todos os critérios apontam para Hulk, eleito o melhor do Brasileirão e da Copa do Brasil, além de ter sido artilheiro das duas competições e, portanto, da temporada.

Hulk marcou apenas 2 gols no irrelevante Campeonato Mineiro, mas fez 7 pela Libertadores, 8 pela Copa do Brasil e 19 no Brasileirão. A soma de 36 gols, contudo, não foi a mais impressionante das marcas que ele obteve em sua temporada inaugural após a volta ao Brasil.

Em um país com um calendário futebolístico insano, onde muitos jogadores já veteranos como Douglas Costa, Diego Costa e Eder têm enorme dificuldades de manter uma sequência de partidas, Hulk, aos 35 anos, foi exatamente o oposto: somados os minutos jogados nas três competições importantes disputadas pelo Atlético em 2021, entre todos os jogadores de linha, foi ele quem mais atuou.

Hulk esteve em campo por nada menos que 4.598 minutos entre Campeonato Brasileiro, Copa Libertadores e Copa do Brasil. Allan, o segundo na relação, jogou 4.237 minutos, 361 a menos que o paraibano, e foi seguido por Junior Alonso (3.780), Guilherme Arana (3.665) e Matías Zaracho (3.594).

Atlético-MG campeão da Copa do Brasil! Galo vence Athletico-PR com golaço de Hulk e fica com a taça

A marca de Hulk, aliás, não é superior apenas aos seus companheiros de time: mesmo na comparação com todos os jogadores de Flamengo e Palmeiras, respectivamente 2º e 3º colocados do Brasileirão e finalistas da última Libertadores, ele leva a melhor. No Palmeiras, quem mais atuou nas três competições entre os atletas de linha foi o zagueiro Luan, com 3.342 minutos. No Flamengo, William Arão, com 4.054.

Para efeito de média de jogos na temporada, que para o Atlético durou 339 dias do início do Campeonato Mineiro ao final da Copa do Brasil, podemos somar também os 768 minutos jogado pelo atacante no campeonato estadual. Dessa forma, Hulk atuou, na temporada inteira, por nada menos que 5.366 minutos, o equivalente a 60 jogos completos. 

 É realmente incrível, Hulk.  


 
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Para o Brasil, grandes na repescagem europeia não é sinal de alívio. Pelo contrário

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A presença de importantes seleções europeias como Itália, Portugal e Suécia na repescagem das Eliminatórias Europeias para a Copa do Mundo de 2022 serviu para que muita gente passasse a propagar devaneios a respeito de certa debilidade das principais forças do futebol no Velho Continente.

É fato que a atual campeã europeia, assim como a seleção de Cristiano Ronaldo (entre tantos outros talentos), irá disputar uma duríssima repescagem dentro de cinco meses. E também é fato que se uma delas ou mesmo as duas ficarem de fora da Copa do Catar o nível de dificuldade a ser encarado na competição pode vir a ser (um pouco) menor.

Entretanto, tratar isso como sinal de fraqueza dos selecionados europeus seguindo a distorcida lógica de um nivelamento por baixo porque “a campeã continental nem mesmo conseguir se classificar” é, no melhor dos casos, falta de informação.

Não faltou nem mesmo quem, com o intuito de ressaltar o nível do Brasil, usasse o fato de seleções como San Marino, Malta ou Cazaquistão disputarem as Eliminatórias Europeias para ironizar o nível da competição na comparação com a briga travada nas Eliminatórias Sul-Americanas entre suas 10 seleções – das quais metade deve ir ao Catar.

Não faz sentido algum.

Ronaldo lamenta
Ronaldo lamenta Getty Images

Ainda que seleções como as citadas acima joguem as Eliminatórias na Europa, elas não passam de figurantes cuja importância se dá, eventualmente, no cômputo de saldo de gols das equipes que as goleiam a cada rodada.

Bem mais significativo é notar que a disputa europeia obriga, por exemplo, a campeã continental a brigar por UMA vaga direta contra uma seleção como a Suíça, que chegou às quartas de final da Euro após eliminar ninguém menos que a França. Ou perceber que a Espanha, outro time de excelente futebol na Euro e na Nations League, precisou disputar sua vaga contra a Suécia – correndo risco de ir à repescagem até os minutos finais de sua derradeira partida.

Se o formato (um tanto quanto enfadonho) das Eliminatórias Sul-Americanas tem o mérito de ser indiscutivelmente mais justo e fazer com que avancem as melhores seleções do continente, o formato europeu, até por necessidade devido ao grande número de equipes, acaba por funcionar melhor como preparação à Copa, por maior similaridade com o Mundial.  

Não há o que se discutir em relação ao bom nível de competitividade da seleção brasileira e suas chances de conquistar o título no Catar. São muitos os motivos para isso: o formato da Copa, a importância e respeito do Brasil, a qualidade de seu elenco e, por que não, o ótimo aproveitamento de Tite, com 50 vitórias, 12 empates e apenas 5 derrotas com a seleção.

Reafirmar suas chances de título, porém, não deveria hoje significar favoritismo. Sobretudo, e apesar dos resultados das Eliminatórias, pela comparação do futebol das melhores seleções europeias com o futebol jogado pelo time de Tite.

O mesmo Tite que, aliás, por tantas vezes já lamentou e continua lamentando que o calendário da Uefa o impeça de enfrentar seleções da Europa durante sua preparação. Afinal, ao contrário dos que defendem cegamente o próprio técnico ou a seleção brasileira, Tite assiste atentamente às partidas de seus rivais e sabe muito bem de onde virão os adversários mais duros na briga pelo hexa. 


 
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Ronaldo garantirá em prêmios ao United pelo menos mesmo valor que o clube pagou por ele à Juventus

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Apesar da liderança em um dos grupos mais difíceis da atual Champions League, o futebol do Manchester United não convence. Em quatro jogos disputados, foram duas vitórias (contra Villareal e Atalanta), um empate (também contra a Atalanta) e uma derrota (contra o Young Boys). Sete pontos conquistados.

O curioso é que, dos sete pontos, nada menos que cinco foram garantidos por gols de Cristiano Ronaldo já nos finais dos jogos: ele fez um gol aos 50 minutos do 2º tempo na vitória por 2 a 1 contra o Villareal, outro aos 36 do 2º na vitória por 3 a 2 sobre a Atalanta em casa e, por fim, no empate por 2 a 2 desta terça fora de casa, mais um aos 46 do 2º, novamente contra os italianos.

Pelo fato de os gols terem saído todos nos finais das partidas, não é exagero algum dizer que o português transformou dois empates em duas vitórias e uma derrota em um empate nesta fase de grupo da Champions League.

O último gol de Cristiano Ronaldo contra o Manchester City com a camisa do United

         
     

Segundo a tabela de premiações estipulada pela Uefa, uma vitória na fase de grupos garante ao time vencedor 2,8 milhões de euros (cerca de R$ 18,4 milhões), enquanto um empate vale 930 mil euros (cerca de R$ 6,1 milhões). A diferença do que o United receberá com duas vitórias e um empate (6,53 milhões) para o que receberia com dois empates e uma derrota (1,86) é, portanto, de 4,67 milhões (cerca de R$ 30,7 mi).

Também vale notar como estaria a classificação do grupo sem os três gols de Ronaldo marcados nos minutos derradeiros das partidas: Atalanta e Villareal teriam 8 pontos cada, o Young Boys estaria com 3 e o Manchester United, virtualmente eliminado, teria apenas 2 pontos.

Dessa forma, também não é exagero dizer que a classificação da equipe inglesa, muito bem encaminhada após o empate desta terça e um jogo para fazer em casa na última rodada contra o Young Boys, só se dará devido aos gols de Ronaldo. Uma classificação que, pela tabela de premiação da Uefa, vale nada menos que 9,6 milhões de euros.

Somada a mencionada diferença de premiação pelos resultados na fase de grupos e o valor agregado pelo iminente avanço às oitavas temos, por causa dos gols do português, nada menos 14,27 milhões de euros garantidos na conta do Manchester United, clube que, segundo anúncio oficial feito pela Juventus, pagou ao time italiano 15 milhões de euros para contratá-lo.

E aí, compensou? Lembrando que ainda há muita Champions para ser disputada e, portanto, muito dinheiro a ser distribuído...

Só com gols no final, Ronaldo transformou dois empates em vitórias e uma derrota em empate
Só com gols no final, Ronaldo transformou dois empates em vitórias e uma derrota em empate Matthew Peters/Manchester United/Getty I

 
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Se não forem covardes, invasores gremistas ainda estão em tempo de provar suposto amor pelo clube

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Imbecis como os que deram voadoras em monitores, se engalfinharam com cabos de energia e massacraram pedaços de acrílico no último domingo, na Arena do Grêmio, não são exclusividade da torcida gremista, nem do futebol, tampouco do Brasil. Eles estão por toda parte, são onipresentes, como podemos comprovar diariamente ao caminhar pelas ruas, ler jornais ou acessar a Internet.

Era, portanto, presumível que os imbecis estivessem também na Arena do Grêmio no jogo deste domingo contra o Palmeiras. Estando o time gaúcho na situação que está, não chegava a ser difícil prever que eles agissem como agiram, o que por sua vez torna óbvia a falta de efetivo policial ou de seguranças particulares suficientes para combater a inevitável estupidez humana.

Fossem os invasores um bando de egocêntricos tentando satisfazer suas vaidades em busca de algum protagonismo ou meros frustrados desopilando no estádio a revolta por suas vidas vazias e sem sentido, as duas ou três dezenas de torcedores provavelmente passaram a noite porto-alegrense a se vangloriar pelo feito e a justificar suas atitudes infantis sob o pretexto da “paixão pelo Grêmio”.

Torcedores gremistas invadem o campo após o final de Grêmio x Palmeiras
Torcedores gremistas invadem o campo após o final de Grêmio x Palmeiras Raul Pereira/AFP/Getty Images

Pois, se é assim, ainda está em tempo de os atores do patético episódio provarem seu suposto amor pelo clube, deixando a covardia de lado e se apresentando ao Grêmio para assumir o que fizeram: entreguem ao clube seus números de RGs e endereços para que que os mesmos sejam repassados às autoridades, responsabilizem-se pessoalmente pelos atos cometidos e não façam o Grêmio pagar por seus erros pessoais.

Afinal, diante da incompetência das autoridades do futebol (e não só) brasileiro em identificar e punir criminosos, esta é provavelmente a única chance de o clube gaúcho não ser prejudicado com a perda de mandos de campo, o que complicaria ainda mais a sua já suficientemente complicada reta final de campeonato.

Bem mais corajoso do que agir com a certeza da impunidade como fizeram os invasores da Arena do Grêmio no último domingo é assumir as consequências do que fizeram para pagar pelos próprios atos. Contudo, para desgosto do Grêmio e de seus milhões de torcedores que não compactuam com o que aconteceu, é de se desconfiar que, entre a coragem e a covardia, os invasores do domingo ficarão com a segunda opção.


 
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Renato Gaúcho é outra prova da supervalorização dos técnicos num cenário onde eles (ainda e infelizmente) fazem pouca diferença

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É questionável que um técnico de futebol não demonstre a menor capacidade de explicar, numa entrevista, suas decisões, mudanças e preferências táticas após uma partida. E é por isso que sempre me pareceu no mínimo estranho tanta gente atribuir às mudanças e escolhas estratégicas de um treinador como Renato Gaúcho os melhores momentos do Flamengo sob seu comando.

Renato pode ter – e provavelmente tem - suas qualidades como técnico, sobretudo para aquilo que os jogadores exigem de um treinador no Brasil. Entretanto, sua capacidade de leitura de jogo, de escolher, montar e alterar a equipe baseando-se em conceitos táticos elaborados nunca foi e, diante do seu desinteresse pelo tema, provavelmente nunca será seu forte.

Há tempos vivemos no Brasil uma supervalorização do trabalho dos treinadores do ponto de vista tático, atribuindo primordialmente a essas escolhas os méritos ou deméritos pelos resultados dentro de campo, como se os aspectos técnicos, psicológicos, físicos e até metafísicos tivessem uma parcela menos significativa nos números que o placar mostrará após o apito final – o que não é verdade.

Renato no Fla: ele merecia os elogios recebidos há poucas semanas?
Renato no Fla: ele merecia os elogios recebidos há poucas semanas? Alexandre Vidal/Flamengo

Não deixa de ser ainda mais curioso que isso ocorra justamente num país onde a capacidade dos treinadores não é nem de longe um diferencial na relação com outras praças importantes do futebol mundial.

Nossa escola de técnicos, é preciso admitir, ainda não faz cócegas em escolas como a italiana, portuguesa, argentina ou alemã. Mesmo assim, é por aqui que impera uma espécie de tecnicocentrismo: sob argumentações vagas como “falta padrão”, “não faz um bom trabalho” ou “não vemos evolução”, tudo é quase sempre responsabilidade das escolhas táticas dos treinadores, o que explica suas constantes e infinitas demissões.

Não se trata de refutar a importância do treinador em pleno século 21. Não faria sentido algum, por exemplo, negar que trabalho tático de um técnico como Pep Guardiola (é só um exemplo) faz toda diferença nos resultados finais de um time por ele dirigido. Assim como não fazia sentido algum atribuir grandes méritos táticos a Renato Gaúcho ou esperar dele, para o futuro, grande brilho nesse aspecto.

Torcida do Flamengo xinga Renato Gaúcho e grita por 'Mister' Jorge Jesus no Maracanã


A recente prevalência das análises e da leitura do futebol no Brasil sob o aspecto tático talvez tenha surgido, compreensivelmente, como contraposição à pobreza que por anos imperou nessas mesmas análises. Mas não se pode forçar a barrar: ao exaltar (ou depreciar) trabalhos de técnicos com tanta facilidade o que se constata é uma completa aleatoriedade no que é classificado como “sucesso” ou “fracasso” desses mesmos técnicos por aqui.

O gênio de hoje é o burro de amanhã (Valentim?), o burro de hoje é o gênio de amanhã (Renato, se campeão da Libertadores?). Tudo dependerá dos resultados: méritos ou deméritos táticos em seus trabalhos sempre serão encontrados, ainda que não sejam eles a decidir os jogos. E dessa forma os principais responsáveis pelos sucessos ou insucessos serão quase sempre os técnicos, mesmo num país em que eles, ainda e infelizmente, fazem pouca diferença.


 
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À espera da aurora boreal, brasileiro do Bodo resume goleada na Roma: 'Maior vitória da história do clube'

Gian Oddi
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A pequena cidade de Bodo, na Noruega
A pequena cidade de Bodo, na Noruega divulgação (site oficial Bodo)

Não são poucos os jogadores de futebol de várzea que sonham um dia poder jogar futebol profissionalmente na Europa. São bem menos, porém, aqueles que imaginam a possibilidade de exercer a profissão praticamente dentro do Círculo Polar Ártico, numa pequena cidade de cerca de 55 mil habitantes bem ao norte da bela e gelada Noruega.

Foi esse o destino de José Vitor Rodrigues da Silva dos Santos, conhecido como Pernambuco, atacante de 23 anos do pequeno Bodo-Glimt, atual (pela primeira vez) campeão norueguês e que conquistou nesta última quinta-feira um dos maiores feitos dos seus 105 anos de existência: uma goleada por 6 a 1 sobre a Roma, de José Mourinho, pela fase de grupos da recém-criada Uefa Conference League, competição oficial da Uefa.

“A torcida foi à loucura porque essa foi a maior vitória da história do clube. Em todos os jogos por aqui os torcedores fazem muita festa. Mas desta vez foi especial porque foi contra uma grande equipe, a Roma, e com um treinador como o Mourinho. Foi espetacular”, afirmou o único brasileiro do elenco, que ficou no banco durante todo o confronto.

Vitor, atacante do Bodo-Glimt, na cidade de Bodo
Vitor, atacante do Bodo-Glimt, na cidade de Bodo arquivo pessoal do jogador

Aos 23 anos, Vitor, que depois de descoberto na várzea só atuou profissionalmente por Portuguesa e Jaguariuna em território brasileiro, jogou também no Lyiv, da Ucrânia, e no Dínamo Tblisi, da Geórgia, antes de ser emprestado pelo campeão georgiano ao Bodo-Glimt, em março deste ano.

Apesar de viver numa cidade próxima ao Polo Norte, com cenários tão isolados quanto espetaculares, Vitor explica que não conseguiu explorar a região por um problema bem conhecido por seus colegas brasileiros: “Não tive tempo de conhecer muito por aqui porque é muito jogo, a cada três dias: domingo, quarta, domingo... Mas andei pela cidade e ela é muito bonita!”

Apesar do frio (temperatura média anual de 2,4º celsius) e do isolamento, Pernambuco conta que não titubeou quando recebeu a proposta para jogar em Bodo: “Não pensei duas vezes porque era o time campeão nacional e que ia jogar a Champions League [eliminado na fase preliminar do torneio, pela qual o brasileiro chegou a marcar um gol, a equipe ganhou o direito de jogar a Conference League]”.

Aurora Boreal em Bodo, Noruega
Aurora Boreal em Bodo, Noruega divulgação (site oficial Bodo)

Apesar da aproximação do mês de dezembro, quando os dias em Bodo passam a ter menos de 2 horas de luz solar a cada 24, Pernambuco não parece muito preocupado com eventuais dificuldades de adaptação. E não só porque seu time está na liderança tanto no Campeonato Norueguês como em sua chave na Conference League.

Mas também porque, com a escuridão que vem por aí, aumentam suas chances de ver a aurora boreal, o deslumbrante fenômeno óptico comum em regiões polares: “Eu já vi a aurora boreal, é um negócio muito bonito, incrível. Estou querendo ver de novo, só que ela não apareceu mais”.


Veja os gols de Bodo-Glimt 6 x 1 Roma


Vitor comemora gol contra o Legia Varsóvia, pela Champions League
Vitor comemora gol contra o Legia Varsóvia, pela Champions League arquivo pessoal do jogador


 
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O inferno de Tite são os outros

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O fato de os últimos dois jogos da seleção brasileira terem coincidido com as semifinais e finais da Nations League escancarou aquele que é hoje, a pouco mais de um ano da disputa da Copa do Mundo do Catar, o grande problema do time de Tite: a diferença entre o futebol jogado pela sua equipe na comparação com seus principais concorrentes.

Durante muito tempo, o contra-argumento "mas quais seleções jogam um grande futebol no planeta?" parecia razoavelmente válido para relativizar quaisquer críticas mais contundentes que fossem feitas à seleção brasileira – e não apenas à comandada por Tite.

Mas o cenário mudou.

Neymar em ação contra a Colômbia: outra fraca atuação da seleção
Neymar em ação contra a Colômbia: outra fraca atuação da seleção Juan Barreto/AFP via Getty Images

Hoje a França, ainda que longe de atingir seu potencial máximo, é campeã mundial e da Nations League sobretudo pela enorme qualidade individual de estrelas como Mbappé, Benzema e Pogba. Qualidade superior à de um Brasil que parece ainda depender dos lampejos de Neymar.

A Itália, campeã europeia, se não conta com estrelas do nível de Mbappé, Neymar, Messi ou Cristiano Ronaldo, tem um alto padrão de jogo forjado pelo técnico Roberto Mancini, o que, aliado a uma boa geração de jogadores, produz o suficiente para lhe colocar também à frente dos brasileiros no nível de futebol jogado.

Caso similar ao da Espanha de Luis Enrique e seus jovens comandados, um time que perdeu a final da Nations League para a França e foi eliminada pela campeã Itália nas semifinais da Euro, mas que, em ambas ocasiões, produziu mais que seus adversários.

A Bélgica, coletivamente, também não parece ficar atrás da seleção brasileira, e tem não apenas um, mas dois jogadores com enorme capacidade de decidir jogos – De Bruyne e Lukaku, para não falar de um decadente (mas ainda recuperável?) Hazard.

Outras seleções, ainda que não possam ser colocadas categoricamente num patamar acima do da seleção brasileira, também não parecem estar abaixo dela por aquilo que produzem atualmente.


É o caso de Portugal, outra equipe cujo técnico não parece extrair o potencial máximo de seu grupo, mas que conta com talentos que vão além de sua estrela máxima, Cristiano Ronaldo; da Argentina de Messi, campeã sul-americana (no Brasil) que passa por inegável evolução nos últimos dois anos; da Inglaterra com sua jovem e promissora geração; e até da Alemanha, que parece ter deixado de lado seus piores momentos após a chegada de Hansi-Flick.

O fato de a seleção brasileira ter parado de evoluir e estar jogando mal nas eliminatórias evidentemente não significa que ela não seja competitiva, como mostram seus próprios resultados, e que não possa ganhar um torneio de tiro curto como a Copa do Mundo no final do ano que vem.

Em campeonatos assim, como a história já cansou de mostrar, o imponderável, as eventuais ausências, as arbitragens ou mesmo a sorte podem ser determinantes para se definir vencedores, derrotados e campeões.  

A quase um ano da Copa do Mundo, porém, está claro que a seleção brasileira não consegue jogar mais futebol do que pelo menos oito (!) de seus concorrentes. O cenário, certamente, poderia ser mais promissor.


 
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Mbappé falou. E fez muito barulho por pouco (futebol também)

Gian Oddi
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O barulho não foi pouco, mas a tão repercutida entrevista de Kylian Mbappé à rede RMV Sport, na verdade, não traz respostas tão polêmicas quanto sua ressonância poderia fazer crer.

Mbappé admitiu o desejo que tinha de deixar o PSG no último mercado, o que não surpreende absolutamente ninguém que tenha acompanhado os fatos amplamente divulgados no último ano.

Mbappé não negou ter reclamado por Neymar não lhe passar a bola, e negar algo do gênero, diante das imagens exibidas por televisões de todo o mundo, seria como negar em 2021 que a terra é redonda (ops).

Mbappé disse, sim, que poderia correr enquanto o Messi andava em campo, mas não sem antes afirmar não ter qualquer problema com isso por entender que existe uma “hierarquia estabelecida” no futebol.

Mbappé: sua entrevista à RMC Sport repercutiu no mundo todo
Mbappé: sua entrevista à RMC Sport repercutiu no mundo todo Divulgação

Esta sobre Messi não foi a única ressalva, digamos, diplomática feita pelo francês, que também afirmou saborear cada momento de atuação ao lado do craque argentino, com quem há pouco considerava ser um sonho impossível jogar ao lado.

Sobre a tentativa de ida para o Real, Mbappé ressaltou que pretendia sair deixando boa compensação financeira ao PSG (que parece não se importar muito com isso). No caso de Neymar, disse que a reclamação não foi inédita, que episódios parecidos são corriqueiros, e que respeita e admira o brasileiro.

A verdade é que a entrevista de Mbappé repercutiu muito mais pelos nomes nela envolvidos do que pelo teor das falas do craque francês.

Afinal, se montar um time com três dos quatro melhores jogadores do mundo traz inúmeras e óbvias vantagens para quem os contrata, um dos ônus é lidar com a desproporção (muitas vezes negativa) de tudo que envolve seus atletas dentro e fora de campo.

O problema maior neste início de trajetória do renomado trio é justamente que a desproporção do barulho gerado fora dos gramados esteja se dando também, e apesar dos resultados, em relação ao futebol jogado dentro dele.

Não quer dizer muito, claro. Trata-se apenas do início de um time que, pela absurda qualidade, ainda pode e deve deslanchar, possivelmente com Messi, Neymar e Mbappé funcionando bem, coletivamente, juntos. 

O protagonismo do milionário e badalado trio parisiense, porém, é hoje inevitável de qualquer forma: enquanto ele não ocorrer dentro campo, ocorrerá fora dele.


 
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Mbappé falou. E fez muito barulho por pouco (futebol também)

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Espetáculo de Pedro tornou ainda mais insensato tudo que veio antes dele no Maracanã

Gian Oddi
Gian Oddi

Flamengo x Grêmio pelas quartas de final da Copa do Brasil era até então o que alguns gostam de chamar, usando uma apropriada metáfora de guerra, de "batalha campal", enquanto outros, mais compreensíveis com a lógica vigente por aqui, preferem definir como "jogo tenso e brigado".

O fato é que mesmo se tratando de um confronto já decidido, uma mera formalidade de tabela, até o momento da entrada de Pedro, as reclamações, empurrões, brigas e tentativas de esperteza superavam em boa medida o desejo de jogar futebol por parte dos 22 atletas dentro de campo no Maracanã.

A má arbitragem – que já não deveria ser novidade – era, como de costume, a justificativa para a desnecessária, ineficaz e cansativa atitude dos atletas. Porque afinal é essa a lógica imperativa nos campos de futebol do Brasil: se a arbitragem já é ruim, por que não a tornar ainda pior e mais conturbada?

Acontece que, aos 15 minutos do 2º tempo, Renato Gaúcho resolveu colocar Pedro para jogar futebol. O ótimo centroavante reserva do Flamengo entrou em campo para substituir o também ótimo, mas sempre irritado e reclamão, Gabigol.

Pedro: com foco na bola, ele decidiu o jogo no Maracanã
Pedro: com foco na bola, ele decidiu o jogo no Maracanã Marcelo Cortes / Flamengo

Para surpresa de praticamente todos os que em campo viam no time adversário um inimigo para exterminar a qualquer custo, a primeira atitude de Pedro após entrar foi, sorrindo, correr para dar um caloroso abraço em Rafinha, agora gremista mas até pouco tempo atrás seu ex-companheiro de Flamengo.

A partida seguiu e Pedro seguiu na boa, buscando a bola e não o árbitro. Buscando jogar e não gritar. Exibir técnica e não virilidade. O que veio a seguir todo mundo viu: foi o jogador mais disposto a jogar bola que decidiu a partida com a linda bicicleta do lance do pênalti e os dois gols da vitória rubro-negra.

Deve ter sido uma surpresa para seus colegas em campo, mas Pedro mostrou que, por mais maluco que pareça, é possível ganhar um jogo de futebol jogando futebol.

Pedro entra e decide o jogo no Maracanã. Assista:


 
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Recorde atingido por Messi após superar Pelé é (apenas) um fato

Gian Oddi
Gian Oddi

Ao fazer os três gols da vitória argentina sobre a Bolívia pelas eliminatórias da Copa do Mundo, Lionel Messi chegou aos 79 marcados com a camisa de sua seleção, superando Pelé – que tem 77 gols feitos pelo Brasil –, e tornando-se assim o recordista de gols marcados por uma seleção sul-americana na história do futebol.

Este é um fato, incontestável e sem margem para interpretações. Um fato que não permite grandes ilações e que não traz em si qualquer significado oculto, mas um fato evidentemente digno de registro e que não à toa tomou o espaço de manchetes no mundo todo.

Messi faz três contra a Bolívia e supera recorde de Pelé; assista


Quando Cristiano Ronaldo recentemente superou o iraniano Ali Daei como o maior artilheiro de seleções da história do futebol, não houve qualquer discussão, relativização ou debate que gerasse comparações entre os jogadores evidentemente incomparáveis.

O mesmo não ocorre no caso do recorde sul-americano, que devido às monstruosas qualidades do atual e do antigo recordistas, além da sempre inflamada rivalidade entre brasileiros e argentinos, acaba por gerar uma série de comparações e relativizações na esteira do recorde.

Há quem argumente, com absoluta razão, que Messi precisou de 62 jogos a mais que Pelé para superar o brasileiro. O que também pode ser relativizado, com igual sentido, ao comprovarmos que a média de gols por jogos nos tempos do craque brasileiro era bem superior à média atual de gols por partida.

Ainda que diversos argumentos possam ser encontrados para tentar equiparar Messi com Pelé, este mais novo recorde pouco ou nada influencia e não serve como grande argumento para quem pretende fazê-lo.

Tanto que é bem possível, para não dizer provável, que Neymar venha a superar não apenas Pelé mas também o próprio Messi nesta mesma relação, o que não deve ser jamais capaz de colocá-lo no patamar nem de um e nem do outro, faça o que fizer o atual camisa 10 da seleção na reta final de sua carreira.

Comparações no futebol são muitas vezes divertidas e, em outras, até interessantes. Pode até ser o caso deste Messi x Pelé, que para muitos é um sacrilégio, uma comparação proibida. Esteja você do lado que estiver, porém, é preciso admitir: o recorde desta quinta é somente um fato importante.

Messi, em jogo no qual fez três gols contra a Bolívia
Messi, em jogo no qual fez três gols contra a Bolívia JUAN IGNACIO RONCORONI/POOL/AFP



 VEJA O RANKING DE GOLS MARCADOS POR SELEÇÕES:

Mais gols por seleções da América do Sul:
1. Messi (Argentina) - 79 gols
2. Pelé (Brasil) - 77 gols
3. Neymar (Brasil) - 68 gols
4. Luis Suárez (Uruguai) - 64 gols
5. Ronaldo (Brasil) - 62 gols
6. Romário (Brasil) - 55 gols
7. Gabriel Batistuta (Argentina) - 54 gols
8. Edinson Cavani (Uruguai) - 53 gols

Mais gols por seleções no mundo:
1. Cristiano Ronaldo (Portugal) - 111 gols
2. Ali Daei (Irã) - 109 gols
3. Mokhtar Dahari (Malásia) - 89 gols
4. Ferenc Puskás (Hungria) - 84 gols
5. Godfrey Chitalu (Zâmbia) e Lionel Messi (Argentina) - 79 gols
6. Hussein Saeed (Iraque) - 78 gols
7. Pelé (Brasil) - 77 gols


 
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