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Ele lutou contra o câncer e realizou o sonho do pai: conheça a promessa que hoje brilha no NBB

Lucas Vezaro no Basquete Joinville Reprodução/Facebook Lucas Vezaro

Um minuto para o final. Pouco tempo no relógio, a vitória é difícil. Vezaro recebe, dribla e arremessa. Erra. Rebote ofensivo, uma nova chance ao menino. É a última bola do jogo. A torcida grita descontroladamente seu nome, a fé depositada nele é algo redentor. Espera chegar a 4 segundos e arremessa. Vê a bola cair mansamente entre as redes um pouco sujas. Vibra. Essa podia ser facilmente a cena de um game-winner de Lucas, mas não, foi de algo bem maior: a vitória sobre o câncer.

“A luta contra o câncer foi muito complicada para mim, uma das coisas mais difíceis a serem superadas na minha vida”, conta Vezaro. Aos 22 anos, nem parece que, três anos antes, ele batalhava contra algo tão sufocante. O linfoma de Hodgkin, que ataca os gânglios do sistema linfático, afetou a vida do jogador do Joinville no NBB.

Foram sete meses de luta intensa, com várias e desgastantes sessões de quimioterapia, que tiraram o fôlego e a vontade de viver do jovem. Onze quilos emagrecidos, depressão e, na família e no basquete, o suporte para se manter vivo e focado na cura.

“O alinhamento com o basquete foi essencial para a minha cura. O envolvimento com os atletas, melhores amigos e a família apoiando me deu uma luz, fez com que eu permanecesse firme, de cabeça erguida e não deixasse levar”, revela o jogador. Anos antes do câncer, Lucas havia viajado aos Estados Unidos rumo a realizar um sonho: jogar basquete. Desde a categoria de base já pensava em ter o esporte como algo para a vida inteira.

“Pratiquei muitos esportes: comecei no futsal, basquete e tênis. Meu irmão é quatro anos mais velho que eu e já jogava basquete; meu pai também já foi jogador. A família tem certa experiência voltada para a modalidade”. Depois dos nove anos, optou efetivamente pelo esporte da bola laranja. Inspirado no irmão, Felipe, e no pai, Claudio, que jogou na Seleção Brasileira, atuou nas categorias de base até voar para a América do Norte.

Com 15 anos, foi até Indiana jogar na tradicional La Lumiere High School. Duas temporadas e várias lesões fizeram o brasileiro retornar ao país de origem. Depois de alguns meses, recebeu novo convite para se juntar à equipe nos Estados Unidos. Permaneceu mais um ano e novamente voltou ao Brasil.

A estadia no Bauru lhe rendeu frutos, disputas de campeonato e a base para ser jogador profissional. No entanto, tudo mudou em 2015, quando o câncer foi o maior adversário que já havia enfrentado.

A apreensão e o medo não abalaram Vezarinho, apelido por conta do irmão, que já era jogador profissional. Felipe, irmão do jogador, foi essencial para a sua recuperação.

“Queria agradecer o meu irmão, um dos caras que mais me apoiou, me ajudou na luta contra o câncer; me fez voltar e acreditar no meu futuro de se tornar jogador”

Felipe é outro que teve uma história de superação no basquete. O jogador, que também atua no Joinville, teve três cirurgias no joelho na época de Bauru. Pensou em abandonar a carreira. Por uma coincidência, os dois irmãos tiveram problemas e, juntos, reencontraram o sucesso no time catarinense.

“O esporte mudou minha vida, fez com que eu acreditasse que poderia voltar a viver, ter um futuro no basquete”, comenta Vezaro. “Basquete não é só esporte, é também saúde, traz disciplina, uma vida tranquila, longe de coisas ruins”, adiciona o jogador.

Mas a história com o Joinville não é de hoje. Quando Vezarinho optou por seguir a carreira, um dos hobbies era ir ao ginásio e ver os ídolos jogarem. Alberto Bial, como técnico, Shilton e André Goés em quadra. O sonho de estar na quadra com eles parecia distante para o jovem.

“Eu era fã e hoje jogo contra eles, consegui alcançar meu objetivo principal e é o meu maior orgulho, porque sempre sonhei com isso”. E o sonho não era só dos irmãos Vezaro. O pai, Claudio, que atuou pela seleção e hoje é fisioterapeuta depositava total confiança nos meninos. A realização do sonho aconteceu quando os dois atuaram juntos na equipe catarinense.

“Jogar junto com meu irmão sempre foi um sonho do meu pai desde que a gente era pequeno. Ele queria que um irmão passasse a bola para o outro dentro de quadra”. Na temporada passada, Lucas e Felipe combinaram para 20,6 pontos, 5,9 rebotes e 2,9 assistências por jogo. Felipe, inclusive, foi um dos melhores arremessadores de três pontos do NBB, com 40,3% de aproveitamento.

A segunda temporada dos dois juntos promete, ainda mais com o crescimento acentuado do NBB. Depois de sentar um pouco após contar a história, Lucas Vezaro se emocionou. Olhou e contou: “Estou jogando com ele pela segunda temporada seguida e ele já passou por momentos muito difíceis, é outro guerreiro. Me inspiro muito nele, sou fã dele, um dos melhores da Liga, que mais já vi treinar, só tenho a agradecer. Ter que passar a bola para ele, uma vibração ou ouvir um conselho não tem preço”.

Depois de tantas dificuldades, Vezarinho mira outro sonho: a seleção brasileira. “Espero que eu consiga - tenho muito a melhorar e evoluir, só me tornei profissional aos 22 anos, estou treinando muito para que eu chegue lá”. Um ano de profissional já foi suficiente para Lucas Vezaro colocar seu nome como uma das principais promessas do país no basquete.

Para continuar trazendo alegrias ao povo catarinense, o Joinville aposta na juventude. A média de idade é pouco superior aos 23 anos. André Bambu é o único acima dos 30 anos, com 39.

“Nosso time manteve a base, time muito jovem e queremos superar as outras equipes apostando na juventude, porque elas são mais experientes que a nossa. Segundo ano desde que saímos da Liga Ouro (segunda divisão), precisamos jogar inteligente, coletivamente, defensivamente e no contra-ataque. Temos que colocar nossa energia para conseguir vencê-los na velocidade”, diz Vezaro.

O objetivo do jogador é sempre tentar vencer, mesmo sem o favoritismo na edição de 2018-19 do NBB: “Hoje, o jogo é jogado, não tem time favorito e imbatível no NBB. O nível está igual, todos os times reforçaram bem e viemos preparados”. Depois de dois jogos na atual temporada, o Joinville acumula uma vitória e uma derrota sofrida contra o Flamengo. Vezarinho tem 13 pontos de média, coincidentemente, a mesma pontuação do irmão, Felipe.

Na zona morta, Vezarinho recebe. O nome dele é gritado mais uma vez. Sem hesitar, acerta uma bola de três. Cumprimenta cada um do banco de reservas. Mais uma vitória. Em Joinville, nos Estados Unidos, em Bauru e na vida.