Tudo sobre o conflito entre Kawhi Leonard e San Antonio Spurs

Ramona Shelburne e Michael WrightLeitura: 21 min.

Kawhi Leonard conversa com Tony Parker antes de San Antonio Spurs x New Orleans Pelicans, em fevereiro de 2018Getty Images

SAN ANTONIO -- De repente ele se tornou o centro das atenções. Mas atenção era a última coisa que Kawhi Leonard desejava naquele dia, ou realmente, em qualquer dia. Mas o San Antonio Spurs queria tirar a foto do time, e todos da organização precisavam estar lá, de uniforme, sorrindo, mesmo que apenas para provar que realmente faziam parte da equipe esse ano.

Leonard já estava de volta a San Antonio algumas semanas antes da manhã do dia 21 de março. Vários de seus colegas de equipe o tinham observado treinando no estabelecimento do time. Mas, no dia da foto, foi a primeira vez que muitos o viram de uniforme desde 13 de janeiro, no último dos nove jogos que ele jogara naquela temporada.

“Foi muito breve”, comentou o veterano dos Spurs, Manu Ginobili: “Mas foi bom revê-lo”.

O mistério acerca de Leonard e a lesão do quadríceps direito que praticamente lhe custaram toda a primeira temporada fascinou e frustrou a liga toda. Publicamente, Leonard manifestou-se apenas algumas vezes durante a temporada e seus depoimentos não ajudaram a revelar questões mais profundas sobre sua ausência prolongada.

Em 7 de março, ele disse que a lesão e seu nível de dor atual seriam “difíceis de se explicar”, mas acrescentou que gostava de competir e que "obviamente jogaria se fosse possível". Ele não revelou sua opinião sobre os Spurs ou como eles gerenciaram a situação. Mas quando perguntaram diretamente se ele pretendia concluir sua carreira com o San Antonio, Leonard disse: “Sim, com certeza“.

Leonard nunca falava muito em geral. Sua reticência até se tornou parte de sua marca e seu charme. Deixou seu jogo falar por ele. Mas sem poder jogar muito esse ano, as vozes ao seu redor começaram a ter mais influência.

Gregg Popovich, o treinador principal dos Spurs, confirmou que pessoalmente gostava de Leonard, mas expressou sua frustração devido à demora na reabilitação da lesão, pois não esperara que levaria tanto tempo para ele se recuperar. “Vocês vão ter que perguntar para o grupo dele”, dissera Popovich sempre que alguém pedira atualizações, antes de reiterar que os médicos dos Spurs o teriam liberado para jogar desde dezembro.

Popovich descreveu o San Antonio como organização impotente e frustrada, aguardando que o principal jogador da franquia e seu estafe ditem o que viria pela frente. O grupo de Kawhi não providenciou muitas explicações, nem publicamente, nem em particular. E por isso só restou a Leonard esclarecer a situação ou então deixar tudo escalar.

Foto de abril de 2015, com Tim Duncan e Kawhi Leonard segurando o troféu de 'Defensive Player of the Year'Getty Images

Na noite de 21 de março, quando Kawhi andara pelos corredores do AT&T Center depois que os Spurs venceram o Washington Wizards, a ESPN lhe pediu uma simples explicação sobre sua situação, se era verdade que estava machucado e ainda não podia jogar.

Kawhi acenou com a cabeça e disse: “Por que mais eu não estaria jogando, certo?”

“As pessoas só querem ouvir fofoca”, Leonard acrescentou. “Eu não estou aqui por muito tempo. Estou aqui há seis anos. Os Spurs existem há muito mais tempo do que isso. Por isso as pessoas preferem aceitar a fofoca primeiro”.

Finalmente conseguimos uma breve revelação de seus pensamentos. Mas antes que Kawhi pudesse elaborar, um funcionário de comunicações dos Spurs – que aparentemente não conseguia ouvir o que Kawhi estava dizendo, mas percebeu que estava conversando com um repórter – encerrou a conversa abruptamente.

Kawhi, que recusou participar de uma entrevista enviada por seu agente e não respondeu a um e-mail pessoal, não apareceu novamente em público no jogo dos Spurs depois daquela noite.

Durante os últimos meses, a ESPN falou com muitas fontes da liga, pessoas próximas de Kawhi e funcionários dos Spurs. Eles descrevem uma situação confusa com erros de ambos os lados e uma confrontação iminente entre a franquia mais prestigiada da NBA e um dos melhores jogadores da liga que nunca se lesionara dessa forma, mas pode ter o poder de alterar a paisagem da NBA.

Para compreender como os Spurs e Leonard chegaram a essa situação desconfortável você primeiro precisa entender o tipo de lesão de quadríceps que o impediu de jogar na temporada toda. E se você entender essa lesão, você provavelmente sabe mais do que os especialistas que trataram Leonard durante esse processo. Conversando com muitas fontes próximas a Leonard e aos Spurs, há discórdia sobre o tipo exato da lesão.

O pessoal de Kawhi acredita que sua condição é resultado de uma série de contusões no quadríceps que começaram com um hematoma profundo em março de 2016 e resultou em três jogos sem sua participação. Ele foi mais uma vez reportado com uma "lesão de quadríceps“ em 6 de fevereiro de 2017 quando anunciaram que não participaria de uma partida, um pouco antes do jogo começar. Mas somente no final da temporada a severidade de sua lesão se tornou aparente.

De acordo com várias fontes, o agente de Kawhi acredita que o problema tem mais a ver com a ossificação ou o enrijecimento da área onde o músculo foi lesionado repetidamente e atrofiou, que por sua vez prejudicou os tendões que ligam o músculo ao joelho.

O Spurs sempre se referiram à lesão como tendinopatia do quadríceps, que é uma doença dos tendões com efeitos degenerativos no músculo devidos ao estado constante de exaustão.

O tratamento para cada diagnóstico (problema muscular vs. problema de tendão) é diferente, o que agravou os conflitos no relacionamento.

No início os médicos do Spurs estavam tomando decisões com Leonard de acordo com seus protocolos durante a maior parte do verão nos treinos em San Antonio com os funcionários da equipe e em San Diego com seu Personal Trainer de longa data. Mas as coisas começaram a mudar em agosto quando Leonard continuou sentindo desconforto, as fontes revelaram.

Seu agente, Mitch Frankel e seu tio, Dennis Robertson, começara a pressionar o Spurs para que ouvissem outras opiniões. No outono passado, Dr. Keith Pyne, o sócio-gerente do SportsLab NYC, afiliado com o Washington Nationals e o New York Islanders, começou a ser consultado no caso.

Leonard retornou ao Spurs brevemente para nove jogos em meados de dezembro até meados de janeiro. Os Spurs mantiveram uma abordagem conservadora. Ele jogaria um jogo e pularia o próximo, independente de quantos dias depois o próximo estivesse marcado. Depois de marcar 19 pontos em 28 minutos em uma vitória contra o Denver em 13 de janeiro, ele reclamou novamente de dores na área. Ele viajou com o time até Atlanta – um jogo que ele de qualquer forma pularia – e para Brooklyn, mas em vez de jogar contra o Nets, Popovich anunciou durante uma partida de treinamento informal que Leonard se ausentaria por tempo indeterminado.

“Ele não sofreu nenhuma lesão nova, mas ele sentia dores, não imediatamente após o jogo, mas tipo um dia depois e a dor não estava passando”, disse Popovich naquela hora. “Não estava melhorando”.

O que Popovich não disse naquele dia é que, enquanto Leonard estava em Nova Iorque, ele consultou o Dr. Jonathan Glashow, um cirurgião ortopédico e copresidente de medicina do esporte no Mount Sinai Medical Center de Nova York, que tem afiliações profissionais com o New Jersey Devils e o Philadelphia 76ers.

De acordo com várias fontes, foram Frankel e Robertson que arranjaram as consultas, e os Spurs foram informados da decisão e das recomendações médicas. Desde aquela hora, Glashow e seu time gerenciam o programa de reabilitação, afirmaram as fontes. Os Spurs enviaram colaboradores para Nova York para observar e assistir ao trabalho de Leonard na sede da NBA Players Association no centro de Manhattan.

Kawhi Leonard recebe de Bill Russell o troféu de MVP após a vitória do San Antonio Spurs sobre o Miami Heat em junho de 2014Getty Images

De acordo com várias fontes, a frustração dos Spurs explica-se por ter perdido o controle da recuperação do jogador da franquia e pelo jeito que o representante de Leonard gerenciou todo o processo.

Um funcionário dos Spurs comentou: "Não está mais nas nossas mãos".

Outra fonte da liga, diretamente a par da situação, disse que Kawhi ainda era o mesmo. A única coisa que mudou foi que as pessoas começaram a falar por ele.

De acordo com várias fontes, a frustração do pessoal de Leonard dá-se da hesitação dos Spurs na hora de consultar outras opiniões e do questionamento público por Popovich a respeito da situação.

Uma fonte próxima a Leonard revelou que os Spurs acreditam que "são os melhores contratantes e que fazem tudo melhor que os outros. Ele merecem essa reputação e esse tipo de ego. Mas eles não têm a mente muito aberta. Ele não gostam que outros mexam com seus jogadores."

Outra fonte próxima a Leonard disse que o estão alienando. "Estão prejudicando sua reputação. Você tem essa transição harmoniosa da era do Duncan para a nova era, para essa estrela local. Por que alguém o alienaria?"

A confusão sobre a natureza exata da lesão somente agravou a frustração.

O armador do Spurs Tony Parker causou um alvoroço quando disse que teve a mesma lesão de Leonard, mas que “100 vezes pior”, alguns dias depois da reportagem de Adrian Wojnarowski da ESPN na qual Parker e Ginobili confrontaram Leonard sobre seu status durante a reunião tensa do time em 17 de março. Vários jogadores, incluindo Danny Green e Rudy Gay, mais tarde descreveram a reunião mais como uma discussão. No entanto, Parker e Ginobili nunca revelaram o tom ou a substância da reunião. Parker disse simplesmente que se tratara de “negócios de família”.

Parker rompeu o tendão de seu quadríceps esquerdo durante os Playoffs do ano passado. A cirurgia foi executada pelo médico da equipe do Spurs e ele voltou a jogar no dia 27 de novembro.

“Não achamos que Kawhi e Tony Parker tenham a mesma lesão”, disse Frankel. “Isso é claro, ponto final. Quero dizer, superclaro. Além disso, acho que o Spurs e Kawhi e os médicos de Kawhi e todos em volta de Kawhi estejam tentando ajudá-lo a se recuperar, juntos. Não é tão simples como está sendo descrito, mas ele realmente só precisa cuidar de seu quadríceps. Ele precisa focar em melhorar seu tendão”.

O gerente-geral do Spurs R. C. Buford concorda.

“Nosso foco é que todos os nossos jogadores recebam os melhores cuidados durante toda a carreira”, Buford reportou à ESPN na manhã de terça-feira. “Durante esse processo com o Kawhi, nossa meta é oferecê-lo o melhor tratamento e suporte possível disponível, independentemente de onde venha”.

Em 2014, Leonard lesionou seu punho, lesão da qual não se recuperou como ele e seus representantes haviam previsto. Frankel e Brian Elfus pediram por uma segunda opinião. Após uma breve hesitação, os Spurs concordaram e enviaram Leonard para um especialista que seu representante escolhera. Leonard retornou eventualmente ao Spurs após uma ausência em 15 jogos e não teve problemas em voltar e progredir.

As fontes do Spurs indicam que a saída de Elfus em 2016 foi o ponto de virada no relacionamento. Ele mantinha um relacionamento bom com a diretoria e os treinadores do Spurs e, em geral, conseguiu mantê-lo sem incidentes. Frankel e Robertson também estavam envolvidos no processo de permanência de Leonard em San Antonio, principalmente durante as negociações sobre a extensão de 90 milhões de dólares com a qual Leonard aceitara em 2015.

Depois que Leonard e Elfus seguiram caminhos separados, Robertson e Frankel assumiram as comunicações diárias e o relacionamento não é nem de perto tão saudável, dizem fontes do Spurs. Elfus, que desde então começou seu negócio próprio de gerenciamento, recusou fazer comentários sobre essa história.

As referências constantes de Popovich sobre o “grupo” de Leonard são uma manifestação da tensão entre o Spurs, Robertson e Frankel que escalou no ano passado, de acordo com fontes do Spurs.

Várias fontes da liga também contaram para a ESPN que os Spurs desconfiam em relação ao grupo de Leonard ter um motivo oculto devido ao relacionamento frágil e à troca de Leonard para um mercado maior como o de Los Angeles (cidade natal de Leonard), Nova York ou Filadélfia (Robertson vive em Nova Jersey).

Uma fonte próxima ao gerente geral R.C. Buford disse que o experiente executivo admitiu perder constantemente sono pensando sobre como e por que o relação com Leonard se desintegrou.

Durante anos, os Spurs o viram como o aparente herdeiro de Tim Duncan em habilidade no campo e na personalidade de baixo custo de manutenção fora dele.

Kawhi Leonard cumprimeta Manu Ginóbili no jogo contra o Los Angeles Lakers, em novembro de 2016Getty Images

“Kawhi só quer melhorar cada vez mais”, sua mãe, Kim Robertson, disse à ESPN depois que ele foi nomeado como Jogador Mais Valioso das Finais em 2014. “Ele não quer ser uma astro. Ele não quer estar no holofote. Ele só quer ser bom naquilo que ama fazer”.

Quem fala regularmente com Leonard continua acreditando que é esse o caso. Popovich continuou em contato próximo com Leonard, trocando mensagens de texto ao longo da temporada. Colegas de time também, incluindo Danny Green e Dejounte Murray.

O que o Spurs está tentando determinar são os motivos das pessoas falando em nome dele.

Então quem é Uncle Dennis, como ele é conhecido pelas pessoas em San Antonio? E qual é seu plano para Kawhi Leonard?

Há muitas pessoas dispostas a falar sobre Robertson e Frankel, mas bem poucas colocam seu nome nas declarações. Alguns associados e colegas atuais e antigos descrevem Robertson como “difícil” e retratam um parente ambicioso tentando apostar o sucesso do sobrinho em sua própria empresa de marketing.

De acordo com múltiplos agentes de outras empresas que se encontraram com Robertson nos últimos anos, ele estava interessado em abrir uma empresa semelhante à empresa de marketing de LeBron James, LRMR, e recrutar os serviços desses agentes porque ele não era um empresário de jogadores certificado. Isso não interessou aos agentes que falaram à ESPN, porque suas empresas tinham seus próprios serviços internos de marketing e negócios.

Mas mesmo seus detratores dizem que Robertson foi devotado a Leonard desde que seu pai foi assassinado em 2008. Por outro lado, fontes disseram que Leonard parece devotado e leal a Robertson.

“Kawhi confia mesmo nele”, disse uma fonte próxima a Leonard.

Robertson, tio materno de Leonard, contesta essas caracterizações negativas. Ele aponta sua experiência no setor bancário (de acordo com seu perfil no Linkedin, 22 anos como vice-presidente de Banco Comercial no Chase Bank e cinco anos no Carver Federal Savings) e o título como presidente da Divisão de Atletas de Elite na empresa da sua esposa, a Protocol International, que oferece treinamento de etiqueta e desenvolvimento profissional de acordo com o site da empresa.

Robertson, que agora envia todos os seus e-mails de endereços associados a Protocol, é retratado jogando golfe em uma página do site da empresa, que afirma:

“Na Protocol Internacional, nosso objetivo é ter fãs torcendo por você e impressionados com o seu desempenho dentro e fora do campo. Nós ensinamos protocolos e práticas de etiqueta universalmente aceitas que permitem que os atletas se sobressaiam em compromissos sociais e de negócios que incluem socialização em testes, viagens com o time, jantares com técnicos e patrocinadores, bem como encontros de negócios”.

Esse tipo de desenvolvimento de marca obviamente não se traduziu com Leonard ao longo dessa saga. Ao contrário, a marca de Leonard levou um grande golpe nessa temporada.

A irmã de Leonard, Miesha Slayton, frequentemente responde comentários negativos na página oficial de Leonard no Instagram, que ela administra. Ela escreveu a um fã, que questionou por que Leonard estava em Nova York e não com os Spurs durante os playoffs, “o que te faz pensar que ele não está trabalhando para voltar para o time? Certifique-se de falar de fatos! O Kawhi ainda é um Spur...”.

Em 21 de abril ela postou o texto, “Seus comentários negativos serão bloqueados. Essa página é para fãs verdadeiros do Kawhi Leonard!!”

Nas últimas semanas a presidente da Associação Nacional dos Jogadores de Basquete ofereceu conselho e apoio a Robertson para lidar com a situação, de acordo com várias fontes. Mas ele ainda não pediu formalmente a Roberts para ajudar.

Frankel foi inicialmente conhecido como agente de futebol americano durante suas três décadas como cofundador da Impact Sports. Mas na década passada, a agência decidiu expandir para representar jogadores de basquetebol e Leonard foi visto como a pela central da empreitada.

Entretanto, a expansão não ocorreu como planejado. De acordo com registros obtidos pela ESPN, seis penhoras foram executadas contra Frankel no estado da Flórida desde 2011. Ex-funcionários da Impact Sports contatados pela ESPN atribuíram esses problemas financeiros à empreitada da Impact no basquetebol. Registros indicam de Frankel pegou dinheiro emprestado de empresas como a Cobalt Sports Capital e JS Sports Funding.

Ex-zagueiro da NFL Andra Davis, que esteve com a Impact Sports em todos os seus 10 anos de carreira, disse que lhe perguntaram se ele queria investir na expansão da empresa para o basquetebol. Ele escolheu fazer isso como um empréstimo, não como um investimento, porque era mais seguro.

“Eu não sei [Kawhi]. Eu não sei sobre essa situação ou a lesão dele e tudo isso. Mas o que posso dizer é que a razão para me sentir bem por ter feito o empréstimo é Kawhi. Por assim dizer”, disse Davis. “Eu respondi tipo, ‘Okay. Você tem o Kawhi, um dos melhores jogadores da NBA, então eu sinto que eles teriam tido uma chance de conseguir mais jogadores de alto nível’ “.

A partida de Elfus aconteceu ao mesmo tempo em que alguns outros agentes do futebol americano deixaram a empresa. Ron Butler, Tony Fleming e Sean Kiernan confirmaram à ESPN que eles e seus não estão mais associados com a Impact Sports. De fato, não parece que existe uma Impact Sports. O site da empresa está em construção.

Kawhi Leonard recebe orientações de Gregg Popovich em Blazers x Spurs, em maio de 204Getty Images

Um dos investidores da agência, JS Sports Funding, parece estar controlando o que resta da empresa.

Um artigo da Forbes de Fevereiro de 2017 indicou Joseph Sutton como Sócio Diretor Sênior da Impact Sports. Ele e seu pai Jeff Sutton, o bilionário fundador da Wharton Properties na cidade de Nova York, investiu 10 milhões de dólares na agência, de acordo com o artigo da Forbes.

Quando contatado pela ESPN, Joseph Sutton disse que a Impact Sports está atualmente sendo “rebatizada” mas que a visão inicial da agência para alavancar as relações no setor imobiliário e criar novas riquezas para seus clientes mudou.

“É uma vantagem muito especial que nós temos, esses tipos de conexões e acessos a capital e imóveis e investimentos, “ Sutton disse. “Eu mostrarei [ao cliente] como preservar e sustentar riqueza, como fazer rendimentos passivos enquanto [eles] estão na quadra jogando basquete”.

Eles já teriam feito isso com Leonard, Sutton disse. Ele e Robertson ganham “sete dígitos” por ano em um investimento imobiliário que Sutton apresentou a eles no Harlem. Registros de propriedade obtidos pela ESPN mostram Robertson como o coproprietário de algumas unidades em um edifício de apartamentos na Av. Madison 220 no Harlem.

É uma estratégia de negócios intrigante em uma indústria que se tornou volátil nos últimos anos com agentes cada vez mais se oferecendo para receber menos comissão com o intuito de tomar clientes uns dos outros, enquanto alguns outros agentes de alto perfil deixaram completamente o negócio, com outro, Andy Miller, sob investigação federal em ligação a corrupção no basquetebol universitário.

O discurso claramente funcionou com Leonard. Mas sem agentes para executar as operações cotidianas da empresa, outros dois clientes NBA da Impact Sports recentemente deixaram a agência. O ala do Hawks Taurean Prince confirmou que ele agora está com a CAA. O armador do Nuggets Will Barton confirmou estar com a Goodwin Sports Management.

Frankel admitiu que ele não está mais com a Impact, embora ele seja o agente registrado de Leonard com a NBPA. Robertson confirmou que foi um contratante da Impact Sports por alguns anos antes de Frankel deixar a empresa. Agora ele diz que possui um acordo diretamente com Frankel, onde ele é pago como um consultor.

Parece difícil discernir quem está falando por Leonard, e quais são seus planos individuais, porque de fato é. O quanto disso contribuiu para a quebra na relação entre Leonard e o Spurs? É isso que vai determinar como essa história termina.

É difícil compreender o quão enraizado os Spurs estão na alma de San Antonio a não ser que você visite e veja as bandeiras penduradas nas varandas e nas janelas na Houston Street durante todo o ano, como luzinhas de Natal em julho.

Dirija e passe pelo mural de Tim Duncan, Tony Parker e Manu Ginobili, feito por Albert Gonzales, na esquina entre a South St. Mary's Street e a Pereida Streets e você verá a obra desse artista, que já foi morador de rua e que tomou como fonte de inspiração seu time favorito para superar essa fase de sua vida e construir sua carreira, que agora floresce.

Ducan ainda está vestindo a camisa Nº 21 no mural. Parker ainda se parece com o francês que se lançava ao redor da defesa durante as séries de títulos dos Spurs. E Ginobili ainda tem cabelo.

Hoje, o agora aposentado Duncan está usando moletom sempre que dá um pulo nos treinos ou jogos do Spurs. Parker tem saído do banco de reserva e cedeu o lugar titular para o mais novo Dejounte Murray, e Ginobili anda fazendo ioga no vestiário antes dos jogos, tentando ainda tirar alguns momentos mágicos do seu corpo de 40 anos.

Leonard devia ser a ponte com a era Ducan-Ginobili-Parker. Assim se posicionou e assim planejou o Spurs sobre ele. Em vez de reconstruir e renovar a escalação nas férias, o Spurs montou o time dessa temporada com a ideia de maximizar sua elite – fechando novos acordos com LaMarcus Aldridge (32), Pau Gasol (36), Patty Mills (28) e Ginobili (40).

Popovich, 69, tem considerado se aposentar nas últimas temporadas, mas disse que continuou pois manteve jogadores promissores, incluindo Aldridge e Leonard, de quem seria técnico se eles tivessem assinado com os Spurs. Ele também assinou para treinar o Time dos EUA na Olimpíada de 2020.

Manter o Leonard nunca pareceu um problema até essa temporada. Sim, sempre será difícil convencer acionista a concordar com um contrato de 219 milhões de dólares, a extensão “supermax” para a qual Leonard é elegível nesse verão porque ele esteve entre os melhores jogadores da temporada (All-NBA Team) em duas das últimas três temporadas. O Spurs continua sendo um time de pequeno mercado e a nova presidente e proprietária controladora Julianna Hawn Holt pediu divórcio do seu ex-marido e antigo proprietário controlador, Peter Holt, em Fevereiro.

Mas se houvesse um jogador que Popovich e Buford poderiam tornar proprietário para trazer estabilidade e o Spurs valoriza quem é digno de tal investimento financeiro, seria Leonard.

Foto tirada de Kawhi Leonard antes do jogo entre LA Clippers e San Antonio Spurs, em fevereiro de 2017Getty Images

Depois da maneira como esse ano foi levado, contudo, é difícil de saber o que o futuro trará para ambos lados. Internamente, os Spurs continuam otimistas quanto à possibilidade de que Popovich possa reparar a relação e encontrar um consenso com Leonard como ele fez com Aldridge no verão anterior.

A questão passa a ser se a diretoria irá até os proprietários pedir aprovação pela exceção de cinco anos, 219 milhões de dólares, confiantes de que não haverá represália das tensões e frustrações que surgiram nesse ano. Por sua vez, qual será a resposta de Leonard se tal contrato for oferecido.

Isso é o que tem sido discuto agora, e de acordo com fontes ambos lados, ainda não há respostas claras.

Durante uma parada por Los Angeles no início de abril, um jovem repórter perguntou a Popovich quais organizações ele admirava quando 
começou a carreira de técnico.

“Utah Jazz”, Popovich disse. “Eu pensei que de cima a baixo, aquela era uma organização requintada. Você nunca ouviu nada sair de lá. Nada negativo. Mantinham seus negócios para si, eles trabalhavam duro. Sem coisas chamativas. Eles apenas faziam seu trabalho e iam para casa”.

Foi uma resposta reveladora depois de uma temporada como essa. No ano todo Popovich esteve fora de sua zona de conforto, respondendo perguntas sobre Leonard e encontrando linguagem codificada para expressar suas frustrações.

Algumas semanas depois, antes de uma derrota para o Golden State Warriors, Popovich pareceu totalmente triste pela era Duncan.

“Ele estava tão vigoroso, era uma fundação,” Popovich disse. “Ele executou tal liderança de uma maneira tão quieta que todos só responderam ao seu exemplo. E acho que mais do que qualquer coisa isso é que era a base para o nosso sucesso a longo prazo”.

Popovich costumava dizer que se aposentaria no momento em que Duncan se aposentasse. Isso não chegou a acontecer, então o desafio no crepúsculo de sua carreira é adaptar o Spurs Way sem ele.

Como Duncan, Leonard parece totalmente despreocupado com marketing e imagem. Sim, Jordan Brand fez a campanha The Claw para ele. Mas Kawhi simplesmente cumpriu as obrigações contratuais. Ao longo dos anos, o único patrocínio pelo qual ele pareceu genuinamente empolgado foi um acordo com o Wingstop, porque ele gostava de comer lá.

Como Duncan, Leonard estava sempre focado no basquete e deixou os assuntos de negócios para seus representantes.

A ESPN reportou em março que Leonard e seu pessoal recusaram uma prorrogação de contrato de quatro anos, 22 milhões de dólares do seu atual contrato de calçados com Jordan Brand da Nike. De acordo com fontes dos dois lados, as conversas cessaram bruscamente porque Robertson não julgou a oferta digna de um ex-MVP das finais.

Os Spurs, com certeza, não poderiam se importar menos com um contrato de calçados que ele assina ou que tipo de investimento imobiliário ele fez. Eles querem apenas que ele jogue basquete.

Ele ainda quer isso? E quando ele tiver uma resposta, quem falará por ele?

Tudo isso pareceu pequeno depois que a esposa de Popovich morreu em 18 de abril, na véspera do jogo 3 contra o Warriors na primeira rodada.

A morte dela foi um soco no estômago para a liga toda, banalizando esses playoffs e todos os pequenos aborrecimentos que faziam jogadores e técnicos perderem o sono. Quem se importa com quem começa de pivô? Ou por quantos minutos Hassan Whiteside jogou? Ou se Leonard sentou no banco com seus colegas de time durante os jogos, ou treinou em Nova York?

Erin Popovich esteve doente por décadas. Sua condição respiratória a impediu de viajar e, frequentemente, o clima no Maine era menos agressivo para ela do que o de San Antonio.

Enquanto Popovich raramente falava publicamente da situação dela, pessoas mais próximas sabiam o quanto ele sofria consigo todos os dias. Você poderia ouvir isso em seus discursos sobre levar uma vida balanceada, nos seus valores e na forma como ele tentava criar uma família na organização. Um pouco daquilo era o seu histórico militar. O time era o esquadrão que ele comandava. Eles eram irmãos de guerra. Mas muito disso foi seu profundo amor por Erin e a família que eles tinham juntos.

Popovich não treinou nos três jogos finais da temporada de playoffs. Pessoas próximas dizem que ele ainda está processando tudo.

Leonard pretendia deixar Nova York, entrar no time e apoiar Popovich se ele treinasse um dos jogos depois da morte de sua esposa, de acordo com fontes próximas a ambos. Quando Popovich não retornou, Leonard decidiu ficar e treinar. Mas o sentimento era uma indicação da força da ligação entre eles.

A situação com Leonard parece bem menor em comparação ao luto de Popovich. Mas eventualmente o treinador terá que decidir se está disposto a tentar resolver a situação com seu astro ala e se quer arriscar outra tentativa com ele e os dois, Ginobili e Parker, assumindo que não se aposentem.

Kawhi Leonard em ação no jogo contra o New York Knicks, em janeiro de 2018Getty Images

Parker manteve a cabeça baixa ao deixar a Oracle Arena após a derrota do Spurs na final da temporada no Game 5. Ele é um agente livre, mas gostaria de retornar por mais alguns anos se o Spurs aceitá-lo de volta.

“Foi definitivamente a temporada mais incomum, mais difícil desde que estou aqui,” Parker disse. “Eu vou deixar assim”.

Ginobili estava mais animado depois do jogo final. Durante toda a temporada, fãs da Argentina, sua terra natal, fizeram peregrinações para vê-lo jogar. Agências de viagens organizaram passeios em grupo para San Antonio e algumas outras cidades, com as paradas cheias de fãs roucos de azul e branco, cantando para o seu herói nacional.

Para Ginobili, a decisão de continuar jogando é simples.

“A questão é apenas se eu me vejo como um ex-jogador ou não,” ele disse.

O ano todo ele lutou para sustentar a velha magia dos Spurs. Porque ele ama isso e a maneira como as coisas eram.

Cabe ao Leonard decidir se ele quer fazer o mesmo.

Adrian Wojnarowski contribui para essa história.

Clique em Inside the tension between Kawhi Leonard and the Spurs para ler a matéria original.

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