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A nobre missão do 'Doutor Atletismo': projeto Cria Lavras, que tantas vidas ajudou, luta agora para sobreviver

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Conheça o Cria Lavras, projeto que vem tira jovens das ruas, leva para a universidade e revela atletas (3:04)

Projeto existe desde 2009 e foi criado pelo professor doutor Fernando Roberto de Oliveira na cidade mineira de Lavras (3:04)

A mais nobre criação da carreira esportiva do professor doutor Fernando de Oliveira, o "doutor atletismo", corre o risco de acabar e com ela o potencial de inúmeros atletas e candidatos a ídolos do esporte brasileiro também.

Estamos falando do projeto esportivo educacional Cria Lavras, na cidade do sul de Minas Gerais, é um verdadeiro laboratório de estudos, prática e resgate de vidas. São 110 atletas que treinam, iniciando na base, aos 7 anos, até o alto rendimento.

Com o apoio da Universidade Federal de Lavras, onde Fernando de Oliveira, além de professor de pós-graduação, é coordenador do projeto de atletismo, o projeto se desenvolveu, tomou forma e vem salvando a vida de muitos brasileiros, a maioria negros e pobres.

Filho de família humilde, Fernando sempre quis retribuir à sociedade a ascensão que conquistou com a educação. Por isso, o Cria Lavras atende desde 2009 milhares de crianças vulneráveis e de família de baixa renda da cidade e da região.

A ideia, segundo ele, é trazer o jovem da comunidade para o ambiente universitário, onde a criança e o adolescente possam não apenas praticar o esporte como também vislumbrar um possível ingresso na instituição.

É aquela velha história: educação e esporte são aliados importantíssimos no resgate de vidas que muitas vezes se perdem e acabam caindo sendo levadas aos caminhos mais perversos da sociedade, como o mundo do crime.

Quem é Fernando?

Apaixonado por esporte, mas principalmente por transformar a vida e a realidade das pessoas, Fernando Roberto de Oliveira iniciou sua fantástica carreira como doutor no esporte ainda na adolescência.

Foi um praticante de atletismo, treinou e disputou provas regionais nos 400 m com barreiras. Não chegou a seleção, mas como técnico e professor doutor construiu uma belíssima história, tanto pelo trabalho na base quanto no atletismo de alto nível.

Fernando sempre foi um estudioso e se especializou na formação de atletas. Tem um olhar diferenciado para testar e avaliar crianças para todas as modalidades do atletismo. É um defensor do negro e do pobre no esporte, área que o fez tornar-se mestre, depois doutor. No ano passado, chefiou a equipe adulta de atletismo, campeã sul-americana em Lima, no Peru.

Acontece que, assim como muitos projetos sérios do esporte olímpico brasileiro, o Cria Lavras também vem passando por sérias dificuldades financeiras. Tanto que uma campanha de financiamento coletivo, a popular " vaquinha virtual", foi organizada e vem mobilizando muita gente do atletismo para que o sonho de Fernando não morra.

Wlamir Motta Campos é advogado, ex-arremessador, vice-presidente da CBAT (Confederação Brasileira de Atletismo) e amigo e fã do trabalho desenvolvido em Lavras pela equipe de Fernando. Agora, é um dos responsáveis pela campanha que, definitivamente não está pedindo muito dinheiro para a continuidade do projeto, e explica onde ele será aplicado.

“O financiamento coletivo em favor do Projeto Cria Lavras tem a meta de arrecadar R$ 26.840. Esse valor será investido integralmente para o projeto, será utilizado para a manutenção da casa do atleta, para alimentação dos atletas, refeições e lanches nas viagens bem como para o pagamento de taxas federativas", disse Wlamir para a reportagem.

"O projeto atende 110 participantes divididos em quatro grupos, de 7 a 10 anos, de 10 a 14 anos, de 15 a 17 anos e acima de 17 anos. É necessário destacar que esse financiamento coletivo é tudo ou nada, ou seja, temos que arrecadar o valor integral até o dia 4 de setembro, caso contrário o valor será devolvido aos doadores”, completou Wlamir, que foi batizado assim em homenagem ao grande Diabo Loiro, Wlamir Marques, bicampeão mundial de basquete e duas vezes medalhista olímpico.

Veja como é a campanha pelo Cria Lavras clicando aqui e como ajudar.

Doutor Atletismo

Nascido em São Paulo em 8 de setembro de 1965, Fernando Roberto de Oliveira graduou-se em Educação Física pela Universidade de Santo Amaro, em 1989. Depois fez Especialização em Ciências do Esporte, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mestrado em Educação Física (Subárea de Biociências da Atividade Física),pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, e finalmente doutorado em Atividade Física e Esporte, pela Universidad del Pais Basco, na Espanha, em 2004.

Nesta última etapa, fez também estágios de pesquisa no Centro de Alt Rendiment (CAR) de Sant Cugat del Valles (Barcelona), INEFCatalunya de Barcelona e Centro de Medicina AXOLA de San Sebastián (País Basco).

O professor foi também técnico de todas as seleções brasileiras de Atletismo: escolar (Gimnasiade), universitária (Universiade), de base (sub-18, sub-20, sub-23) e adulta. Foi o treinador chefe da delegação brasileira campeã sul-americana em 2019, no Peru.

Por causa de uma vida dedicada aos estudos e ao esporte, sempre foi um nômade. Viveu em várias cidades do Brasil e do mundo. Mas a chegada a Lavras, no sul de Minas Gerais, tem uma particularidade curiosa.

Pai de Pedro de Oliveira, atleta campeão do Troféu Brasil no decatlo, Fernando vivia com a família em Florianópolis quando seu filho teve uma grave doença detectada nas vistas.

Ainda criança, Pedro perdeu a visão do olho direito em decorrência de uma sinusite mal curada que afetou seu nervo óptico.

Aconselhado por oftalmologistas, a mudar com a família para uma cidade onde o índice de umidade fosse baixo, Fernando escolheu Lavras, em 2007, aonde sua vida definitivamente tomou outro rumo, como o Cria Lavras.

Mas seu maior orgulho foi ter colocado 35 alunos na graduação e pós-graduação da UFLA.

Além dos alunos, Fernando também conseguiu formar o filho Pedro como professor de Educação Física. E, hoje ao 24 anos, ele tornou-se o braço direito e esquerdo do Projeto, juntamente com o ex-aluno Pablo Ramon Domingos.

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Títulos nacionais e internacionais: Pedro de Oliveira, campeão do Troféu Brasil no decatlo, fala qual foi a maior vitória do Cria Lavras

Filho de Fernando de Oliveira, fundador do Cria Lavras, Pedro perdeu uma vista ainda jovem e hoje é responsável pelo projeto que coloca jovens na universidade e revela atletas

O adeus do 'Poeta e Doutor do Esporte'

Doido, revolucionário, ousado, irreverente e solidário, o professor doutor Fernando deu uma vez as caras para uma entrevista para a ESPN Brasil há alguns anos. Ele nunca foi daqueles tipo “pavões”, que gostam de aparecer diante das câmeras, pelo contrário, sempre foi um cientista do esporte que batalhou nas pistas, nas aulas de orientações nas pós-graduações e nos bastidores.

Defensor da habilidade natural do negro brasileiro, Fernando nos concedeu uma rápida entrevista em Poços de Caldas, nos Jogos da Juventude quando, na pista de atletismo, quis se posicionar contra os desmandos do COB (Comitê Olímpico Brasileiro) e da antiga gestão da CBAT. Se mostrou indignado com os antigos cartolas do esporte, logo na sequência da Olimpíada de Londres, em 2012, onde curiosamente o Brasil não havia conquistado nenhuma medalha no atletismo.

De lá pra cá, sempre falamos com o professor doutor por telefone. Nossa intenção era ir até Lavras para conhecer o Cria Lavras de perto. Não deu tempo, infelizmente!

Em 6 de outubro, aos 54 anos, ele sofreu um AVC (acidente vascular cerebral). Lutou pela vida por dez dias numa UTI de um hospital da cidade. Um dia após o dia do professor, em 16 de outubro, disse adeus aos familiares, fãs, alunos e amigos.

Deixou um vasto legado de amor ao atletismo e de amor ao ser humano do qual ele tanto criticava, cobrava e orientava.

Hoje o Projeto Cria Lavras, idealizado por ele está precisando de uma pequena ajuda. Dos R$ 26.840 para que a ação socioesportiva não morra, até o fechamento dessa reportagem havia sido arrecadado R$ 8.920, ou seja, 33% do objetivo final.

Dinheiro que será precioso para manter o Cria Lavras vivo, até porque na casa do atleta, também idealizado por ele, existem duas atletas do nordeste e uma cidadã de Burkina Fasso morando, treinando e sonhando os mesmos sonhos de Fernando.

É o sonho de transformar o Brasil com o esporte na universidade. Quem sabe esse não seja o caminho para fazer do nosso país uma potência olímpica como os EUA, e tirar tantos e tantos brasileiros de uma situação de vida difícil.

Oxalá, Doutor Fernando!