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Renúncia, assembleia e temas batidos: o atletismo exige mudança

O atletismo brasileiro vive uma crise como nunca se viu no país. Clubes que fomentavam o alto-rendimento estão fechando, há atletas sem treinador, sem patrocínio e sem lugar para treinar e, pior, recentemente foi noticiado um escândalo de desvio de dinheiro público na entidade máxima que comanda o esporte.

No dia 20 de dezembro do ano passado, o blog Olhar Olímpico, do portal UOL, revelou uma manobra da CBAt (Confederação Brasileira de Atletismo), que desviou cerca de R$ 555 mil em um contrato com a Secretaria de Esporte, Lazer e Juventude do estado de São Paulo. O convênio previa o pagamento de hospedagem e alimentação de 370 atletas no Troféu Brasil de 2014. Mas, segundo o levantamento do diretor jurídico da ADAB (Associação Desportiva Atletismo Brasil), Wlamir Motta Campos, o dinheiro foi desviado.

O consultor legislativo ainda afirma que o ex-presidente da Confederação Brasileira de Atletismo, José Antônio Martins Fernandes, teria apresentado notas falsas e usado o nome de atletas que não foram beneficiados na competição como “laranjas”.

As denúncias que já estão sendo apuradas pelo Ministério Público Estadual resultaram na renúncia de Toninho, no último domingo, exatamente um dia antes da assembleia que foi realizada nessa segunda, dia 26.

Nossa reportagem esteve em Atibaia, no interior paulista, para acompanhar o pronunciamento do novo presidente da entidade, Warlindo Carneiro da Silva Filho, mas ele não citou, durante a assembleia, o caso que manchou a história de 40 anos da entidade.

Além dos 27 presidentes de federações, estavam presentes vários medalhistas olímpicos, representantes de alguns clubes e um representante dos atletas.

Henrique Martis, escolhidos pelos esportistas para falar em nome deles, disse que a classe está cada vez mais preocupada e decepcionada com a gestão e o rumo do atletismo no Brasil.

O medalhista de ouro nos Jogos de Los Angeles, Joaquim Cruz, também foi um dos poucos que falaram na reunião pedindo responsabilidade e respeito com o esporte que o consagrou.

Nos bastidores falamos com Roberto Gesta de Melo, dirigente que ficou à frente da Confederação por 26 anos e que colocou em seu lugar, em 2013, o presidente que tem o nome envolvido nesse escândalo de corrupção.

Gesta disse que, além de doente, o ex-presidente Toninho estava com a imagem desgastada na direção da Confederação e que sua renúncia aconteceu para que a assembleia fosse realizada em clima de harmonia e reflexão entre os participantes.

Já o novo presidente da entidade, Warlindo, não quis se aprofundar no caso que derrubou seu antecessor. Disse que, como vice de Toninho, dará continuidade ao trabalho pregando a transparência e prezando pelo próprio nome.

Afirmou que fará mudanças na gestão da entidade e que pretende resgatar, o mais rápido possível, a credibilidade da entidade que vem perdendo parceiros nos últimos anos.

No vídeo abaixo está a reportagem que fizemos durante a assembleia.

Destaque para as entrevistas do diretor jurídico da ADAB, que ocasionou na queda do presidente da CBAT, e para o medalhista de ouro Joaquim Cruz, que fala sobre a falta de política esportiva no Brasil e sobre o desprezo dos políticos com o esporte que poderia ter transformado o país depois dos Jogos Olímpicos de 2016.

Joaquim Cruz vai ao centro do problema ao afirmar que logo após o término dos Jogos Paralímpicos o governo federal sugeriu um projeto de acabar com as aulas de educação física nas escolas públicas.

Foi para isso que serviu a assembleia extraordinária da Confederação: para ouvir um ícone do esporte como Joaquim Cruz. Pena que os outros tantos medalhistas olímpicos que estiveram presentes não se pronunciaram nessa grande chance que tiveram. Uma chance de opinar e clamar por mudança.