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São Carlos abaixo de zero? Brasileiros enfrentam 40°C em treino no asfalto no interior paulista em busca de medalha na neve

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Anjos do Asfalto: Brasileiros encaram 40°C em treinos no asfalto de olho na Paralimpíada de Inverno (7:35)

Um dos estágios de preparação da seleção brasileira de paraesqui cross-country acontece na quente cidade de São Carlos, interior paulista (7:35)

Wesley Vinícius dos Santos e Robelson Moreira Lula são da seleção brasileira de paraesqui cross-country. Eles treinam sob o escaldante sol do asfalto de São Carlos, interior de São Paulo, sonhando em conquistar uma medalha na Paralimpíada de Inverno da China, em março


Parece inacreditável, mas é real.

A seleção brasileira de paraesqui cross-country treina sob escaldante sol do interior paulista, encarando temperatura média de 40°C.

Essa foi boa parte da rotina de Robelson Moreira Lula, o Robinho, 28, e Wesley Vinícius dos Santos, 23, em novembro. Eles competem em esporte de neve e estão em preparação para os Jogos Paralímpicos de Inverno, em março de 2022, em Pequim, na China.

A última fase de preparação em solo brasileiro é feita em São Carlos com um esqui adaptado para o asfalto. O aparelho leva o nome de rollerski, que é uma cadeira ajustada com rodas, que os fazem esquiar pelos asfaltos da cidade a 231 km de São Paulo.

O rollerski é o jeito que quatro homens e uma mulher encontraram para estar preparados para representar o Brasil nas provas da modalidade mundo afora.

Nossa reportagem passou uma manhã inteira com o paraibano Robinho Lula e o paulistano Wesley dos Santos para acompanhar o treinamento em São Carlos.

Ambos são paratletas que recebem apoio logístico e também de estrutura da Confederação Brasileira de Desportos de Neve (CBDN).

O calendário de treinos incluí ainda uma fase de preparação na neve na Finlândia, que já ocorre neste mês de dezembro, e viagens para a Suécia e a Itália antes de chegarem a Pequim, onde ocorrerá a abertura dos Jogos, em 4 de março.

Robinho e Wesley fazem treinos extremamente pesados para suportar as provas de resistência na neve. Independentemente das vitórias em etapas de Copas do Mundo, eles já são muito vencedores.

Robinho foi adotado por uma tia e enfrentou, ainda na infância, um câncer na panturrilha, que resultou na amputação da perna direita.

“Quando eu nasci, minha mãe não teve condições de me criar porque teve um AVC [Acidente Vascular Cerebral] e um monte de problema de saúde. Então, ela me deu pra uma tia dela”, disse o atleta.

Já Wesley se acidentou no parquinho do condomínio onde morava, em Jundiaí, também no interior paulista. Com a queda, lesionou a medula e ficou impossibilitado de andar.

Por dia eles esquiam em média 30 km no asfalto. É um treino pesado, exaustivo, mas que tem dado bons resultados, como uma terceira colocação no Sul-Americano da Argentina e lugares de destaque em competições na Europa e nos EUA.

Dependendo da inclinação, o rollerski alcança 40 km por hora e o equilíbrio dos dois em cima do equipamento é impressionante, além da força nos braços, que empurram dois bastões de neve, que no asfalto tiveram as pontas modificadas.

O equipamento é novidade no Brasil, mas na Europa todos os atletas de paraesqui cross-country usam nos períodos de verão, quando, evidentemente, não há neve.

Aí você pode até perguntar: eles são malucos? A resposta é rápida, como as descidas deles pelas ruas de um lindo condomínio de São Carlos: Não!

Eles encontraram no paraesqui cross-country a oportunidade de serem reconhecidos como atletas. Treinam, se esforçam e ganham dinheiro com isso. Recebem bolsa e uma infraestrutura incrível para exercerem essa profissão, como eles tanto se orgulham de enfatizar.

“Agora em dezembro competiremos na Finlândia. Depois passaremos por Suécia, onde teremos treinos e competições, como a Copa do Mundo. Na sequência, viajaremos para Itália. Lá começa a afunilar ainda mais a nossa preparação para chegarmos bem na Paralimpíada”, disse Wesley.

Para quem dúvida do brio e até mesmo da dedicação desses brasileiros, eles têm um desabafo a fazer:

“Aqui não tem entretenimento como no filme ‘Jamaica Abaixo de Zero’ e muito menos coitadinho. Aqui tem muito trabalho, suor, dedicação e dor. Tudo pra mostrar que somos capazes de representar e, quem sabe, fazer história pro Brasil”.

Então, um viva para essa galera sofrida, que também faz e vive de esporte.