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Fã de Tyson, camaronês chegou ao Brasil após 'plano Cuba' fracassar e agora pode ser 1º africano campeão nacional de boxe

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Michel, o camaronês: conheça o mais novo postulante ao título dos pesos-médios do boxe brasileiro (3:56)

O pugilista de 28 anos nasceu na Costa do Marfim, mas cresceu e estudou em Camarões | CLIQUE AQUI e assista ao SportsCenter AO VIVO pela ESPN no Star+ (3:56)

Etoundi Michel William pode entrar para a história após mais de 160 lutas como amador no Brasil


Aos 28 anos de idade, o camaronês Etoundi Michel William está a uma luta de entrar para a história do boxe brasileiro. Ele é o desafiante de Zé Conceição na disputa dos pesos médios (72kg). O duelo deveria ter ocorrido em 21 de agosto, mas foi adiado por problemas pessoais do adversário. A expectativa agora é que seja remarcado para outubro.

Com mais de 160 lutas como amador no Brasil e nove vitórias em nove lutas como profissional, Michel, como é chamado no ringue, vê pela primeira vez o sonho de glória perto porque pode ser o primeiro africano com um título brasileiro.

Ele nasceu em Abidjã, na Costa do Marfim, em 1993, mas foi criado na cidade de Yaoundé, capital da República dos Camarões, país que representa até hoje.

“A minha história com o boxe começa aos seis, sete anos de idade, em Camarões. Meu pai me contava histórias de Mike Tyson, quando ele estava no auge. Ele dizia que o Tyson era incrível e poderia matar qualquer um com apenas um soco”, disse Michel à reportagem.

“Ali nasceu o sonho de praticar boxe, mas ficou só no sonho. Quando eu tinha 15 anos, tive a oportunidade de entrar num ringue, numa academia de luta. Foi aí que eu comecei a treinar boxe de maneira séria e movido por aquele sonho de criança, que nunca saiu de mim”.

Três anos depois, a história do camaronês tomou um rumo inesperado. De tanto ler a respeito do sucesso da escola cubana de boxe, ele decidiu atravessar o oceano Atlântico e buscar uma academia em Cuba. A viagem não teve o destino esperado. Ele acabou no Rio de Janeiro, onde conseguiu um local para morar no Complexo da Maré, uma das comunidades mais violentas do país.

“Eu cheguei ao Brasil em setembro de 2011. Era uma loucura de adolescente, sabe? Querer descobrir o mundo. Mas meu sonho era entrar na escola de boxe cubano. É referência no mundo. Se você quer ser campeão, tem de passar por Cuba. Pensei: ‘Se estou no Brasil, ir para Cuba deve ser como atravessar o Camarões para um país vizinho’”, disse Michel.

Ele descobriu na prática que a viagem é até mais difícil e muito cara. Sem recursos ou contatos que pudessem ajudar, acabou arrumando trabalho no Rio, encontrando uma academia para lutar e ficando raízes de vez no Brasil.

Gibi na história

Foi nessa fase que Michel acabou conhecendo o ex-pugilista Antônio Cruz de Jesus, o Gibi, apelido que carrega desde a infância por causa da novela “A Escrava Isaura”. Na época, Gibi tinha uma academia perto do centro e acolheu o camaronês como treinador e tutor.

“Michel é um filhão, está comigo há nove anos. Ele vai disputar o título brasileiro. Depois vamos tentar o título latino e, quem sabe, ranquear ele para tentar o título mundial também”, disse Gibi, 46.

“É difícil porque o Michel tem de trabalhar, manter a família, a esposa e os dois filhos, pagar aluguel. O boxe profissional no Brasil é bem complicado”, completou.

Natural de Salvador, Gibi aprendeu muito do que ensina na academia Grêmio, onde conheceu Acelino Popó Freitas, membro do seleto grupo de brasileiros campeões mundiais de boxe.

“O Popó me indicou o Antonio Carollo [mesmo técnico de Servílio de Oliveira nos anos 60] e me mandou vir para São Paulo. Isso foi em 1993. Disputei o pré-Olímpico para Atlanta [1996] e Sydney [2000], mas não me classifiquei. Também disputei o Pan-Americano de Winnipeg [1999] e os Jogos Sul-Americanos de Quito [em 1999]. Em 2006, parei de lutar”, disse.

Desde então, o ex-pugilista passou a se dedicar ao ensino do boxe em comunidades carentes, sem cobrar nada dos jovens que o procuram, contando sempre com doações e parceiros.

“Eu tenho de agradecer e parabenizar o Gibi pelo trabalho que ele faz. Ele tira a criança do anonimato e dá oportunidade de treinamento. Tudo de graça. Ele retribui para a sociedade o que o esporte deu para ele, e não é fácil sem apoio, sem dinheiro”, disse Michel.

A união entre eles deu tão certo que, quando Gibi deixou o Rio de Janeiro para morar e trabalhar em Taboão da Serra, região metropolitana de São Paulo, acabou arrastando alguns atletas, como Michel. Há três anos eles treinam numa academia na comunidade de São Judas.

África nos holofotes

Como ainda está tentando se firmar no boxe, Michel se mantém trabalhando como personal trainer e instrutor de boxe. É uma forma de ganhar a vida e manter a forma.

O sacrifício é valorizado por ele, que almeja ser um dos raros estrangeiros a ganhar o título brasileiro de boxe. Algo que não é exatamente inédito no país.

“Não é comum, mas a gente já teve casos assim. Um que eu me lembro logo de cara é o argentino Juan Díaz, que depois se naturalizou e foi ex-adversário do Adilson Rodrigues Maguila. Ele lutou e venceu uma luta pelo título [brasileiro] vago. Inclusive, quem me confirmou essa informação foi o Antonio Bernardo, um cartola das antigas”, disse Eduardo Ohata à reportagem.

Jornalista especializado em lutas e comentarista dos canais esportivos da Disney há quinze anos, Ohata está acostumado a ver pugilistas como Michel, que sofrem para conseguir a glória.

“O Maguila, antes de enfrentar Evander Holyfield e George Foreman, foi campeão brasileiro, depois foi campeão sul-americano e em seguida foi campeão continental. Você precisa desses títulos, precisa subir essa escada, para ficar em evidência. No caso do Juan Díaz, ser campeão brasileiro não foi tão importante porque ele já tinha enfrentado grandes nomes do boxe antes da conquista. Para ele, não funcionou dessa forma”, disse Ohata.

Michel sonha alto. Inclusive, não passa pela cabeça dele se naturalizar brasileiro. Ele explica que deseja triunfar para colocar em evidência Camarões e até mesmo o continente africano.

“Seria um sonho, sabe? A África não tem tanta visibilidade no mundo fora do continente africano. Seria uma honra eu tirar eles do anonimato e retribuir”, disse o camaronês.