<
>

Olimpíadas da COVID: de tatame em casa a ajuda de parentes, como brasileiros se viraram para ir a Tóquio em forma

No dia 24 de março de 2020, o primeiro-ministro do Japão, Abe Shinzo, anunciou o adiamento das Olimpíadas de Tóquio, programadas para começar quatro meses depois. A notícia foi confirmada pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) logo na sequência, pela primeira vez na era moderna do esporte.

Em 1916, 1940 e 1944, os Jogos foram cancelados por conta da Primeira e Segunda Guerras Mundiais. Desta vez, a causa foi a COVID-19, inimigo comum que segue sendo combatido em (quase) todo o mundo.

Com um ano a mais entre a data inicial e a realização das Olimpíadas, a preparação dos atletas foi muito prejudicada, justamente na reta final de ajustes para o evento. Vários campeonatos acabaram suspensos no ano passado, o que obrigou uma adaptação à rotina de treinos, em especial no período de quarentena obrigatória.

Quando espaços para a prática do esporte ficaram fechados, o jeito foi apelar para a criatividade, como fez o catarinense Darlan Romani.

Sem poder utilizar o CNDA (Centro Nacional de Desenvolvimento do Atletismo), em Bragança Paulista, no interior de São Paulo, o arremessador de peso adaptou um centro de treinamento particular no terreno vizinho de sua casa. Para construir o local, contou com a ajuda de um amigo pedreiro e equipamentos emprestados pela CBAT (Confederação Brasileira de Atletismo).

Home-office

No Judô, o jeito foi adaptar o espaço interno. No momento mais crítico, sofás e cadeiras abriram espaço para o tatame. Foi o caso de Ketleyn Quadros (63 kg), primeira mulher a ganhar uma medalha em esportes individuais para o país na história das Olimpíadas.

"Conseguimos uns tatames e fazemos a parte física com recomendação do nosso preparador, além do preventivo. No meu caso e do Alex [Pombo, seu noivo, atleta olímpico em 2016], como moramos juntos, podemos fazer treino técnico também, com contato”, afirmou a judoca, bronze em Pequim-2008.

Para Rafael Buzacarini (100 kg), o jeito foi pedir ajuda para a mulher. “Tentei colocar o quimono nela, mas ela não faz judô. Então, fica ruim”, disse o judoca, que estreou na Rio-2016 e está confiante para sua segunda participação. “Infelizmente não vai ter o brilho da torcida (em Tóquio), mas me sinto mais preparado para poder competir em uma segunda Olimpíada e buscar uma medalha”.

Nas redes sociais, outros judocas publicam fotos e vídeos com a rotina na quarentena. Rafael Silva, o Baby, bronze nas Olimpíadas de 2012 e 2016, fez agachamentos com a esposa, Bruna Luísa, nas costas. Já Mayra Aguiar, também duas vezes medalha de bronze (Londres e Rio), fez treino de braços puxando a irmã Hellen pelo quimono.

Apesar da tensão e das dificuldades, os brasileiros também usaram as redes sociais para mostrar momentos de descontração. Em vídeo publicado em sua conta no Instagram, o atleta Francisco Barretto, da Ginástica artística, mostrou como usar um tambor para fazer liberação de musculatura. Já Arthur Nory, seu companheiro de seleção, apareceu subindo escadas em parada de mãos.

Treino em 'lives'

O recurso encontrado pela seleção brasileira de Ginástica rítmica foi treinar com o uso de aplicativos de vídeo. Como em outras atividades profissionais ou de estudo, a estrutura de internet e espaço foram obstáculos nesta adaptação.

“Há ginastas que moram em apartamentos: jogam o aparelho para cima e ele bate no teto. Enquanto não receberem bronca do pessoal responsável pelo condomínio, vamos tocando a vida. Cada uma buscou uma solução. Uma delas está praticando no salão de uma igreja que fica na frente da casa dela. Tem outra que não dispõe de wi-fi em sua casa, e recebe as orientações para treinar pelo Whatsapp. Estamos nos virando como podemos”, contou, na ocasião, a treinadora Camila Ferezin.

Prejuízo físico e mental

Além da dificuldade para treinar, pesa nessa balança também o fato de que as competições de alto rendimento foram canceladas às vésperas dos Jogos. Como as vagas foram conquistadas antes da pandemia, a preocupação com o nível técnico dos atletas é um dos principais questionamentos.

Em junho de 2020, o COI divulgou uma pesquisa que revelou o impacto da pandemia no treinamento de atletas de todo o mundo. Para 56% dos que responderam o questionamento, treinar com eficiência era a maior barreira na preparação para as Olimpíadas. Logo atrás, os itens mais citados foram manter a motivação (50%) e cuidar da saúde mental (32%).

“(A quarentena) Foi um momento crítico. Treinava em casa, na academia do condomínio e com minha esposa. Só depois que foi decidido pelo adiamento pude ficar mais tranquilo, direcionar meus treinos no trabalho de mobilidade e de alongamento para flexibilizar e recuperar um pouco o corpo”, destaca o judoca Rafael Buzacarini.

Realizada em maio do ano passado, a pesquisa do COI contou com 4.089 respostas de 135 países – 80% atletas, 13% comissão técnica e 7% dirigentes. Com 12% das respostas, o Brasil foi o que teve a maior participação no estudo.

Distanciamento e GPS

Um ano depois, as regras mais rígidas para conter a disseminação do novo coronavírus ficaram para trás no Brasil e em vários países. E embora o mundo ainda lute contra a pandemia, Tóquio recebe as Olimpíadas, a primeira na história realizada em meio a uma grave crise sanitária.

Como uma das alternativas para evitar uma maior disseminação do vírus, não haverá público na capital japonesa. Os atletas também receberam um livro de 70 páginas com regras a serem cumpridas assim que pisaram no Japão.

Entre essas regras estão uso de máscara, distanciamento e proibição de deslocamento que não esteja previsto ou fora de veículos oficiais destinados à delegação de seu país. Em outras palavras, está proibido passear. E para ter o controle disso, a organização pede que seja baixado um aplicativo no celular com GPS para rastreio.

“É do quarto para o refeitório, do refeitório para a fisioterapia, da fisioterapia para o treino, do treino para o quarto”, diz Buzacarini. “A gente fica meio limitado, perde a liberdade de andar pela cidade e até de ir ao supermercado", destaca.

Ele e os demais judocas brasileiros estão confinados num hotel em Hamamatsu, cidade que fica a 250 km de Tóquio, e uma das nove que receberá atletas nas bases montadas pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB). Na última semana, sete funcionários do hotel testaram positivo para o coronavírus.

Com o fim dos passeios, o jeito é contar com a ajuda de quem pode se locomover com mais tranquilidade. Chef executivo responsável pela alimentação do Brasil nos Jogos, Allan Sales conta que vem atendendo pedidos inusitados.

“Como moro no Japão desde 2018, sou cidadão e tenho liberdade para andar nas ruas. Quando visito uma das nove bases, não é incomum receber alguns pedidos pessoais de atletas ou da comissão técnica. Por exemplo, pedindo para comprar um creme dental, porque não podem sair até a loja de conveniência na esquina”, lembra.

Na cartilha de regras distribuída aos atletas e comitiva, estão previstas punições que vão desde advertência à deportação em caso de descumprimento das medidas contra a COVID-19.