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Herói do Sevilla com gol de bicicleta, Diego Carlos trabalhava em fábrica de armários e não teve espaço no São Paulo

Diego Carlos é o nome de mais um título do Sevilla na Liga Europa, o sexto na história do clube. O brasileiro quase foi um vilão, mas acabou como um verdadeiro herói ao marcar um golaço de bicicleta - a bola ainda desviou em Lukaku, mas a Uefa confirmou o gol para Diego - para dar a vitória na grande decisão do torneio contra a Inter de Milão.

Mas, afinal, quem é Diego Carlos?

Agora com 27 anos, ele foi um dos grandes destaques brasileiros na temporada europeia, mas é pouco conhecido porque mal jogou no Brasil - teve uma passagem pelo São Paulo, mas acabou saindo por falta de espaço após uma lesão.

Criado na cidade de Dois Córregos, interior paulista, Diego cresceu em uma família humilde. Seus pais eram cortadores de cana e ele ajudava no sustento da casa com o trabalho na roça e também como vendedor de picolés. Na adolescência, entrou no programa de jovem aprendiz e trabalhou por um ano em uma fábrica na qual lixava, pintava e embalava gabinetes para armários.

Acostumado a jogar bola na rua, Diego um dia foi com um amigo fazer teste descalço em uma escolinha.

“Não queriam me deixar jogar, mas o técnico me emprestou a chuteira dele que era uns três números maiores que o meu pé. Ele viu que eu levava jeito, mas não poderia jogar por causa de grana. Me deixaram ficar de graça e foi onde tudo começou”, afirmou.

Diego conciliou a rotina de estudo, trabalho e futebol. Algumas vezes, o jovem contava com a compreensão do patrão para ficar alguns dias fora do serviço para fazer testes. Após ser reprovado no Guarani, ele foi aprovado com quase 17 anos no América de São José do Rio Preto.

“Lembro que eram muitos garotos, mas só seis passaram. Meu nome foi o último a ser chamado, mas só fiquei porque o preparador físico gostou de mim. Ele disse que na verdade eles iam me avaliar mais uma semana. No fim, consegui ficar”, conta.

A partir deste momento, Diego Carlos, que estava com 17 anos, precisou abandonar o serviço da fábrica.

“Nesta época eu jogava como camisa 10 ainda no Paulista. Quando o Zeca (lateral ex-Santos e hoje no Bahia) chegou, virei volante e ele foi para a meia”, recordou.

Pouco tempo depois, ele despertou o interesse do Desportivo Brasil, clube de Porto Feliz-SP que pertencia à empresa Traffic. O problema é que o técnico Pita o queria em outra posição: zagueiro.

“Eu estava em dúvida porque é complicado. Todo gol que acontece a culpa é nossa (risos). Fui falar com meu pai, que foi contra eu mudar, mas mesmo assim fui para lá”, recordou.

Como teve pouco espaço no começo, ele chegou a sair do clube por três meses, mas foi aceito de volta. Sua chance veio quando o time foi fazer uma excursão na Europa e ele atuou em alguns jogos pelo sub-20.

“Eu fui muito bem, ganhei meu espaço e não saí mais. Consegui depois atuar em várias partidas pelo profissional na 4ª divisão paulista”, lembra.

O sucesso foi imediato e atraiu interesses. Em apenas um ano, ele já estava no elenco sub-20 do São Paulo e disputando o Paulista e a Copa São Paulo de futebol júnior.

“Em quatro jogos, eu fiz dois gols e fui efetivado ao time de cima com o Lucas Evangelista e o Lucão”, conta.

O problema é que o elenco profissional tinha sete zagueiros em 2013. Diego não tinha muito espaço, mas chegou a ficar no banco de reservas contra a Portuguesa e foi relacionado contra o Vasco pelo Brasileiro.

“Eu estava muito feliz porque estava sendo visto. Achava que era só ter calma que poderia conseguir”, disse.

Mas seu destino mudou quando foi chamado pelo técnico Sérgio Baresi para um duelo contra o Paraná pelo sub-20.

“Eu sofri uma lesão que me complicou. Tive que fazer a recuperação na base e vi que seria muito difícil retomar espaço no time de cima”, analisou.

Diego Carlos conversou com seu empresário e foi para Estoril, clube português que também pertencia à Traffic e jogava a 1ª divisão.

Como ainda não tinha muita experiência, o zagueiro foi emprestado por uma temporada ao time B do Porto, que jogava a divisão de acesso. Ao retornar, sua carreira deu um salto.

“Foi ótimo porque pude jogar várias partidas, marquei dois gols e vi minha história mudar”.

Contratado pelo Nantes, o brasileiro virou titular e rapidamente fez sucesso. Em seis meses, já tinha ofertas para sair e renovou contrato.

“Eu era querido pela torcida porque sempre dava o meu melhor. Mesmo quando o time não estava bem, ela me dava apoio e nunca me cobrou”, disse.

Juiz tentou agredi-lo

Em janeiro de 2018, o zagueiro viveu o momento mais inusitado de sua carreira na derrota por 1 a 0 para o PSG. Ele se chocou com o árbitro Tony Chapron, que caiu no chão e depois tentou dar um chute no brasileiro.

“Eu olhei pra ele e falei: ‘O que você fez? Como assim? Eu não estou entendendo’. Ele voltou, me deu um cartão amarelo e depois um vermelho. Eu toquei nele, para mostrar o que ele me tocou (risos)”, recordou.

Ninguém entendeu a atitude de Chapron. Logo depois, a federação da França anulou um cartão amarelo e o vermelho, liberou o atleta da punição e suspendeu o juiz por tempo indeterminado.

Em três anos como titular no Nantes, Diego Carlos teve várias situações para sair, mas acabou permanecendo na França. No fim da última temporada, ele recebeu uma oferta tentadora do Sevilla.

“Foi tudo muito rápido. O Monchi [diretor esportivo] foi muito direto comigo sobre o que gostaria para mim e os planos. Eu queria muito ir e aceitei na hora.

O brasileiro foi o segundo reforço do chamado “mago das contratações” em sua volta ao Sevilla.

E acabou se transformando em peça chave da equipe. Por isso, já é especulado nos maiores clubes do mundo. Seu nome já foi foi especulado em equipes como Liverpool, Real Madrid e Manchester City.