<
>

No Bola da Vez, Carlitos Páez revela todos os arrepiantes detalhes de como sobreviveu 70 dias sem nada nos Andes após queda de avião

play
Carlitos Páez conta como sobreviveu a queda de avião nos Andes, passando por temperaturas de até -30°C e dado como perdido por 60 dias (1:54)

Sobrevivente uruguaio foi o Bola da Vez desta semana (1:54)

Em 13 de outubro de 1972, o voo Força Aérea Uruguaia 571 caiu na Cordilheira dos Andes. O avião fretado tinha 45 passageiros: uma equipe de rugby, seus amigos e familiares.

Mais de um quarto das pessoas morreu na queda; outros oito não suportaram uma avalanche que varreu o abrigo dos sobreviventes. Ao todo, 16 pessoas saíram vivas, e o último deles foi resgatado apenas em 23 de dezembro, mais de dois meses após o acidente.

Carlitos Páez é um desses heróis que aguentou situações extremas, e nesta semana ele veio ao Bola da Vez contar com detalhes os acontecimentos mais absurdos e inimagináveis que ele viu e viveu.

“Claro que nossa história está hoje um pouco na moda, porque vivemos uma quarentena de setenta dias. E, agora, há países vivendo uma quarentena também. Claro que foi trocado o roteiro da vida, assim como foi trocado quando o avião caiu, e íamos jogar rugby no Chile, nos divertir, e, de repente, muda o roteiro, caímos na Cordilheira dos Andes, a 4.200 metros de altura, onde a temperatura é entre 25°C e 30°C abaixo de zero."

Carlitos faz questão de contar com detalhes o quão improvável foi a sobrevivência do grupo: "Caímos onde nunca um ser humano havia estado sem recurso algum. Não tínhamos roupa, porque era primavera. Não tínhamos nada, e não há absolutamente nada lá. Não fomos encontrados, nós fomos aos helicópteros. Conceitualmente é diferente, porque no décimo dia fomos dados por perdidos, desaparecidos, e não nos procuraram mais. Nós tivemos que lutar na história."

O sobrevivente - e herói - também compara o feito com outras grandes e famosas tragédias da história: "Parece que é uma história maravilhosa, porque tem tudo o que há em uma história. Há trabalho em equipe, tomada de decisão, tolerância à frustração, adaptação à mudança, encontrar recursos desconhecidos - que me parece interessante e há a adaptação das pessoas à transformação e evolução do ser humano, porque é uma história longa que durou 70 dias. Há histórias, como a do Titanic, a das Torres Gêmeas, que foram impressionantes, mas duraram muito pouco. Nesta história, o bom é ver o ser humano no princípio e no final, com sua evolução e sua transformação.”

Confira alguns outros depoimentos de Carlitos. O programa completo você vê às 22h deste sábado, na ESPN Brasil e no ESPN App. E já fica o aviso: prepare-se para ficar arrepiado e emocionado.


“Fiquei sabendo, há pouco tempo por um médico, que o ser humano, nessa altitude, precisa de cinco litros de água para não se desidratar. Nós nunca tomamos cinco litros, porque era muito difícil retirar água. Usávamos umas chapas prateadas, pelo efeito espelho, e conseguíamos que ela caísse gota a gota. A sede foi desesperadora. Creio que sofri mais com sede que com fome. Eu preparava uma água. Sou hipocondríaco. A metade da minha mala era de remédios. Eu preparava água com aspirina, colocava todo tipo de remédio, uma água muitíssimo gostosa, todos queriam tomá-la, mas realmente foi desesperador. O tema da alimentação, nós tivemos que recorrer depois do dia dez, ou seja, passamos dez dias sem comer nada. Para que tenham uma ideia, éramos 26 vivos no início, depois do acidente. Comi uma lata de mariscos repartida entre 26, dois pedacinhos de chocolate e a terceira parte de uma bala de doce de leite. Foi o que comi em dez dias. E recebemos a notícia que não nos procurariam mais. Aí, surgiu em todos nós, ao mesmo tempo, a única ideia possível que era nos alimentarmos dos nossos companheiros mortos. Na cordilheira, não havia nada. Só neve, rochas e fuselagem.”


“Estávamos em 26 pessoas, eram 15 horas, e ouvimos o ruído de uma tropa de cavalos. De repente, toneladas de neve entram na fuselagem e nos enterram dentro e fora. Os únicos que ficaram com o rosto descoberto foram Roy Harley e eu. Nós nos olhamos e dissemos: “Ficamos sozinhos na história.” O restante estava sob a neve. Roy conseguiu sair, depois eu, e começamos a escavar tentando tirar os que podíamos. Tento tirar meus dois amigos, que estavam na minha frente e, quando os alcancei, os dois estavam mortos. Continuei procurando desesperadamente, Roy também. A neve queima. Coloquei um isqueiro sob a mão e não sentia nem a chama."


“A imprensa mundial comparou a nossa história com a dos mineiros no Chile. Há alguns pontos em comum: os dois casos foram no Chile, os mineiros chilenos apareceram em 13 de outubro, que foi o dia em que caímos. Porém, há uma grande diferença. No dia 14, todos soubemos que os mineiros estavam vivos. E nós, no 10º dia, soubemos que o mundo inteiro havia nos abandonado. O que quero dizer com isso? Que os mineiros estavam no seu ambiente, conheciam onde estavam. Para eles, não era estranho o que tinha acontecido. Eles não tinham outra saída a não ser esperar pelo resgate. Nós fomos procurar os helicópteros".


“Eu costurei até um saco de dormir, que foi o maior orgulho das coisas que fiz na vida, fiz com a tela que cobria o isolamento térmico da calefação, o ar-condicionado do avião. Costurei um saco de dormir para três pessoas que foi meu maior orgulho, nem Christian Dior faria um saco de dormir como eu. E chega o dia 60 da nossa história. Três saem para a caminhada, que foi a expedição final. Os três e o meu saco de dormir. Andam uns 90 metros, Parrado se vira e me diz: “Carlitos, quero dar um beijo na cruz do seu terço. Eu tinha um terço, rezávamos todos os dias. Isso foi muito importante na cordilheira. Foi um momento de estar perto de Deus, de não ter outros pensamentos. Ele dá um beijo na cruz do terço e me dá um tênis. Eram para o sobrinho que ele comprara em Mendoza, quando o avião fez escala. Ele me dá um pé do tênis e me diz: “Carlitos, prometo que virei buscar o outro pé.” Ele levou o outro, porém, ele acrescenta, e isso é o que importa: “Se isso não acontecer, e eu não voltar para buscar o par, e tiverem de usar minha mãe ou minha irmã para se alimentarem, façam isso". Não só Parrado teve coragem para ir buscar ajuda, correndo o risco de morrer, mas nos deu autorização necessária para nos alimentar com o mais sagrado que tinha, que eram sua mãe e sua irmã. Isso faz de Parrado um grande. Para mim, é o único ato de heroísmo nessa história, foi esse momento”.