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John Lennon, Stallone, invencibilidade e morte trágica: há 66 anos, Rocky Marciano deixava os ringues para se imortalizar na história

49 lutas, 49 vitórias, 43 por nocaute. O único campeão dos pesados a encerrar sua carreira sem ser derrotado. Há 66 anos, Rocco Francis Marchegiano, conhecido mundialmente como Rocky Marciano, anunciava a sua aposentadoria e se eternizava como um dos grandes nomes da história do boxe.

Chegou a ser citado por John Lennon, e há quem diga que o primeiro filme série “Rocky”, escrito em 1975 por Sylvester Stallone e lançado em 1976, teve a história de Marciano como uma das possíveis inspirações.

Um dos seis filhos dos imigrantes italianos Pierino Marchegiano e Pasqualina Picciuto, Rocco queria ser profissional de futebol americano ou beisebol, mas encontrou no boxe a sua paixão.

Nascido em 1ª de setembro de 1923, em Brockton, Massachusetts, ele largou a escola cedo para ajudar a família na Grande Depressão, que começou em 1929. Na década de 30, começou a ganhar os seus trocados, ora como curtidor de couro na fábrica de sapatos em que seu pai trabalhava, ora em obras aqui e ali, e também como jardineiro.

Em março de 1943, foi convocado para o exército. Foi lá que ele teve o primeiro contato com o boxe. Rocco optou por lutar como uma maneira de deixar de cumprir os deveres da cozinha e outras tarefas. Rapidamente descobriu que tinha um talento natural para a modalidade.

Em 17 de março de 1947, Rocco travou sua primeira luta profissional, nocauteando Lee Epperson no terceiro round. Começava ali a história de uma lenda e surgia um dos nomes mais icônicos do esporte: a sugestão veio do técnico Al Weill, já que o mestre de cerimônias não conseguia dizer o sobrenome Marchegiano corretamente. Nascia Rocky Marciano.

A morte trágica, em um acidente aéreo na véspera de seu aniversário de 46 anos, encerrou a vida e deu início à lenda.

Veja, abaixo, fatos da carreira espetacular de um dos grandes nomes do esporte em todos os tempos:

Quando já competia no boxe amador, Rocco foi com alguns amigos a Fayetteville, na Carolina do Norte, para tentar uma vaga na equipe agrícola do Chicago Cubs. Atuando como catcher, foi cortado após três semanas, depois de ouvir que não tinha um braço direito forte o suficiente para atirar para a segunda base com precisão. Ironia...


O potente golpe de direita tinha o apelido de “Suzie Q”. Foi com ele que Marciano conseguiu o nocaute em 43 de seus 19 combates.


Seu histórico como amador foi inexpressivo 8-4. Se tornou profissional em 12 de julho de 1948.


Venceu as primeiras 16 lutas, todas antes do quinto round e nove ainda no primeiro assalto.


Em 30 de dezembro de 1949, enfrentou Carmine Vingo no Madison Square Garden. Derrobou o rival no primeiro e no segundo rounds. No sexton, um cruzado deixou Vingon inconsciente. Ele foi levado ao hospital e passou por uma cirurgia por uma hemorragia cerebral. Marciano ficou devastado e disse que nunca mais lutaria se o rival morresse. Vingo sobreviveu, mas teve os movimentos no lado esquerdo parcialmente paralisados. Marciano pagou todas as despesas hospitalares, e ali começava uma grande amizade.


Polêmica em 24 de março de 1950, quando enfrentou o também invicto Roland La Starza. 10 rounds depois, vitória de Marciano em decisão dividida. Muitos acharam que La Starza ganhou aquele combate.


A revanche aconteceu em 24 de setembro de 1953, um ano após o primeiro título mundial de Marciano. O combate foi apertado por seis rounds, depois o campeão dominou. A luta foi paralisada no 11º round, com La Starza nas cordas. Ele foi hospitalizado com um braço quebrado e vários coágulos sanguíneos no cérebro e também passou por cirurgia.


Marciano chegou a ser comparado com o seu ídolo, Joe Louis. A lenda havia deixado a aposentadoria e voltado ao boxe, e os dois se encontraram em 27 de outubro de 1951. Marciano tinha 28 anos, Louis, 37. Foram oito rounds até o nocaute de Marciano, para desespero de muitos fãs. Depois do combate, Marciano foi ao vestiário de Louis e chorou. Foi a última vez que a lenda do boxe subiu ao ringue.


Marciano parecia não ter um biótipo de um lutador peso-pesado. Era baixo – 1,79 m –, seu peso médio era 82 kg, e a envergadura era considerada pequena, 1,73 m. No entanto, usou o porte físico a seu favor, se tornando difícil de ser acertado e apostando em fortes jabs e uma potente direita para derrubar rival atrás de rival.


A forma física era outro ponto forte. Por exemplo, em 21 de março de 1949, venceu Johnny Pretzie no quinto round e voltou a lutar uma semana depois, derrotando Artie Donato no primeiro round; 13 dias depois, em 11 de abril, derrubaria Jimmy Walls no terceiro round.


O anúncio da aposentadoria veio em 27 de abril de 1956, aos 31 anos, então o único homem a deixar os ringues como campeão dos pesados de forma invicta. Outros lutadores conseguiram o feito depois dele, como Andre Ward, Edwin Valero, Floyd Mayweather Jr., Georgi Kandelaki, Harry Simon, Joe Calzaghe, Michael Loewe, Pichit Sitbangprachan e Sven Ottke, sem derrotas ou empates.



Três anos depois, ele voltaria a treinar. Mas, um mês depois, desistiu do retorno. Disse que gostaria de passar mais tempo com sua família.


Marciano tem a maior porcentagem de nocaute de todos os campeões dos pesos-pesados na história, com 87,76%. Compare com outros campeões: Mike Tyson e Sonny Liston, em torno de 78%, e Muhammad Ali, 66%.


Em sua trajetória profissional, ele foi à lona apenas duas vezes, contra Jersey Joe Walcott e Archie Moore. Ele ganharia os dois combates.


Nas fitas piratas da gravação de "Think For Yourself", dos Beatles, em 1965, John Lennon pode ser ouvido refletindo e brincando sobre um encontro com Marciano, no qual o boxeador falou sobre Joe Louis.


Embora nunca tenha entrado no ringue novamente, ele participou de uma luta computadorizada contra Muhammad Ali. Em preparação para o evento - no qual os dois pugilistas entraram em um ringue e deram socos um no outro - Marciano perdeu cerca de 20 quilos e até comprou uma peruca. Um computador pesou todas as variáveis de cada lutador e determinou que, se os dois realmente se encontrassem no ringue, Marciano teria vencido com um nocaute no 13º round.


Marciano não teve a chance de ver essa última vitória. Em 31 de agosto de 1969, três semanas após a luta virtal, ele pegou um voo particular para Des Moines, Iowa, onde faria uma surpresa ao filho de um amigo. O mau tempo e um piloto inexperiente fizeram com que a aeronave colidisse em um milharal a menos de 5km da pista, não deixando sobreviventes. Era véspera do seu 46º aniversário.


Stallone nunca confirmou, mas a história de Marciano dentro e fora dos ringues (pobre, de origem italiana, direita potente) pode ter sido uma das inspirações para a criação do personagem Rocky Balboa, a estrela de “Rocky”. Outros boxeadores como Chuck Wepner, Joe Frazier e Rocky Graziano também aparecem como possíveis inspirações para Stallone, que escreveu o roteiro em menos de quatro dias, em 1975, logo após a luta entre Muhammad Ali e Chuck Wepner.