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'Passado não é destino'; como o esporte muda vidas e transforma o mundo

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Garoto de 16 anos finaliza Flávio Canto e surpreende medalhista olímpico: 'Quem ensinou?' (0:31)

Evento de inauguração do Instituto Reação em Cuiabá teve diversos 'desafios' (0:31)

O brilho do azul e amarelo que pintam o novíssimo tatame denuncia o ar de novidade para todos que entram. "As crianças tocavam nele e perguntavam: 'Tudo isso é para mim"?, conta Keitel Jorge Moreira Jr, diretor da Escola Municipal Professor Firmo Jose Rodrigues, em Cuiabá.

Na primeira quarta-feira de março, parte do terreno do colégio se tornou a mais nova unidade do Instituto Reação, projeto que une esporte e educação como meio de transformação social. Após seis polos em atividade no Rio de Janeiro, o projeto chegou em sua primeira cidade fora da Cidade Maravilhosa. Por lá, já tiveram inúmeras conquistas, como revelar Rafaela Silva, primeira campeã mundial e olímpica do judô brasileiro.

Instalado no simples bairro de Três Barras, na capital mato-grossense, o espaço promove eduação básica e aulas de judô, o agora primeiro esporte de muitas crianças, como Paulo Victor de seis anos.

"Hoje não pode brincar na rua pela violência", conta a avó Maria da Glória, que assiste o treino de seu neto e se emociona ao conversar com a reportagem da ESPN Brasil.

O sensei Keitel, por uma janela, também presta atenção nos exercícios, relembrando a época em que não era diretor de escola, mas sim professor de educação física e judô.

Há cerca de 15 anos, era ele quem ensinava garotos a lutar, e foi com ele que David Moura aprendeu o que sabe - e não é pouco. Um dos grandes nomes do judô brasileiro, David é medalhista de ouro pan-americano e vice campeão mundial, mas a sua mais recente conquista é a de padrinho do Instituto Reação de Cuiabá, sua terra natal.

"A gente criou algo inimaginável", relata o judoca, que olha para o espaço que junta tatame e salas de aula com orgulho de pai. O espaço foi construído pelo Banco BV, que já era parceiro do Reação no Rio e ajudou neste novo projeto que já atende mais de 200 crianças.

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O que acontece quando crianças desafiam um dos melhores judocas do mundo

o brasileiro David Moura fez a festa no Instituto Reação

Seu ex-professor e atual parceiro na empreitada, Keitel abriu as portas do espaço assim que soube que o Instituto buscava um lugar em Cuiabá. Antes disso, ele dava aulas de sábado em um pequeno tatame colocado na quadra de sua escola, e agora se emociona ao ver tamanha estrutura.

"Muitas crianças vêm para a aula descalças, com fome", diz o Sensei ao explicar a importância dessa estrutura para que as crianças possam ter um futuro melhor.

Com 37% dos atletas do Instituto abaixo da linha da pobreza (aproximadamente R$ 420 mensais), Flávio Canto, medalhista olímpico pelo Brasil em Atenas 2004 e diretor-presidente do Instituto, tem uma mensagem muito clara: "Passado não é destino".

"Era uma fortaleza competir sabendo que, de alguma maneira, minhas conquistas respingariam no Reação", disse o judoca em entrevista à ESPN. Assim como David Moura faz, Flávio competia representando o Instituto.

No projeto, todos os alunos e funcionários são iniciados na meditação transcendental. Nas paredes, os seis ideais que regem a casa são expostos para todos que vão ao local os conhecerem:

  • Coragem: A coragem não consiste em ausência de medo, mas em enfrentá-lo

  • Humildade: Quando verificares que nada sabes, terás feito seu primeiro progresso no aprendizado

  • Disciplina: A ponte entre o sonho e sua realização

  • Honra: As escolhas que você faz e como você trabalha para obtê-las são um reflexo de quem você realmente é. Você não pode se esconder de si mesmo

  • Ippon: Somos o que repetidamente fazemos. A excelência, portanto, não é um feito, mas um hábito

  • Jita Kyoei: Princípio máximo do Judô que defende uma sociedade consciênte de que o crescimento conquistado ganha mais sentido quando compartilhado

Flávio, então, explica a importância do que está sendo feito em Cuiabá e mostra a importância do compromisso: "Quando você entra em um lugar, cortar a fita é o mais fácil né. O mais difícil é, de fato, ter aquela consistência durante muitos anos. Não são meses, não são dois, três anos. São vidas inteiras que a gente se propõe a transformar. Hoje, grande parte da equipe do Reação do Rio de Janeiro é de ex-alunos, que estão com bolsas na faculdade, e a ideia é repetir esse caminho aqui."

"Espero daqui 20 anos chegar aqui e ver uma dessas crianças com uma faixa preta e dando aulas, coordenando o projeto. Contruir, conquistar e compartilhar é o nosso lema. A gente acredita que, trabalhando diariamente com eles nesse olhar, a gente pode contribuir para um mundo melhor, não só com o que a gente faz aqui, mas com o que eles fazem fora daqui, compartilhando dessa ideia."

E assim como a Dona Maria, avó de Paulo Victor, muitas famílias fazem questão de falar com Flávio, David e todos do Instituto para mostrar como o judô mudou a vida dessas crianças:

"A gratidão dos pais por isso tudo estar acontecendo é maravilhoso... Esse feedback das crianças estarem mais felizes. O quanto que uma criança feliz transforma uma casa? E o quanto uma casa feliz transforma a vizinhança, o bairro... Eu estou filosofando, indo longe, mas o quanto isso vai impactar no bairro, na cidade, é quase impossível de prever. A gente sabe que é muito grande, é muito bom, e só tem positividade acontecendo. A gente vê isso no olhar de todas as crianças e no dos pais também", conta Flávio.

E entre uma criança suada e outra, a semente do esporte e da cidadania é colocada na nova geração - e assim o mundo vai se mudando.

"Espero daqui 20 anos chegar aqui e ver uma dessas crianças com uma faixa preta e dando aulas, coordenando o projeto. Contruir, conquistar e compartilhar é o nosso lema. A gente acredita que, trabalhando diariamente com eles nesse olhar, a gente pode contribuir para um mundo melhor, não só com o que a gente faz aqui, mas com o que eles fazem fora daqui, compartilhando dessa ideia", finaliza Flávio Canto.