Quando resolveu escolher seguir os mesmos passos de Rivaldo, Rivaldinho precisou se acostumar com as comparações com o pai. Hoje atacante do Viitorul Constanta, da Romênia, o jovem de 24 anos quase chegou a abandonar o futebol por causa da pressão.
"No começo da carreira isso quase me fez desistir de jogar futebol. É muito chato ouvir isso das pessoas. Mas, com o passar do tempo, fui amadurecendo, e nós somos pessoas diferentes. Tenho minhas qualidades e defeitos. Estou tentando escrever a minha história. Estou feliz em estar realizando meu sonho de ser jogador profissional e estar na Europa. Hoje não me atrapalha, levo mais para o lado positivo. Quando as coisas forem bem, vão repercutir mais por eu ser filho dele, mas quando derem errado também. Vão comparar. Mas eu sou bem resolvido com isso", disse ao ESPN.com.br.
O garoto frequentava desde cedo o ambiente de esquadrões como a seleção brasileira de 2002, o Milan de 2003 e o Barcelona do fim dos anos 90 por causa de Rivaldo.
Quando morava com seu pai na Catalunha, Rivaldinho deu seus primeiros passos no futebol na base do Barça (La Masía).
“Fiquei um ano por lá e lembro que o Gerard Deulofeu [hoje no Watford] treinava comigo. Uma vez, vi a apresentação dos jogadores da base e o Messi estava por lá. Eu tinha por volta de sete anos, era o mais novo, e treinava no meio dos meninos de dez anos. Eu lembro que o Barcelona e ainda não tinha toda estrutura ainda porque o nosso campo era de barro. Íamos a pé do Mini Estadi para o campinho.”
O atacante passou depois por sete meses no Olympiacos antes de ir ao Mogi Mirim pouco tempo antes de Rivaldo assumir o clube como presidente. Após se destacar pela base do time do interior paulista, ele foi emprestado por um ano para o Corinthians, em 2012.
“Passei pelo sub-17 e fui para o sub-20 depois de uma semana. Estava no grupo da Copa São Paulo de juniores, mas não joguei. Atuei depois em outros torneios e foi uma experiência boa. Depois de um ano, eu queria evoluir e não estava jogando muito. O Corinthians tinha garotos que estavam na seleção brasileira e só desciam do profissional para jogar no sub-20. Eu vi que não teria espaço e queria jogar”, conta.
Brilho no Mogi
Rivaldinho voltou ao Mogi Mirim e comandou a equipe no surpreendente título do Paulista sub-20. Além disso, foi o artilheiro da competição.
“Fiz um gol na semifinal contra o Corinthians e nós os eliminamos. Na decisão, nós vencemos o Botafogo-SP, que tinha o Vitor Bueno. Eu subi ao profissional e joguei dois anos. Participei de dois Paulistas e subimos o time para a Série B do Brasileiro”, contou.
Em 2015, o atacante viveu o momento mais especial da carreira. Em uma partida contra o Macaé-RJ, pela Série B do Brasileiro, ele jogou ao lado de Rivaldo, e ambos balançaram as redes.
“Foi a maior alegria que tive porque ele é meu ídolo. Eu fiz dois gols e sofri um pênalti, que meu pai bateu e marcou. Isso repercutiu o mundo todo.”
“Neste dia, eu estava desanimado, tinha completado sete meses que minha mãe havia falecido. Lembro que até postei uma foto no Instagram e meu pai falou: ‘Calma, se foca no jogo que no final do dia a gente vai estar feliz’. Nunca imaginei que seria assim. Eu até tatuei essa data na minha perna: 14 de julho de 2015.”
Após o final do contrato com o Mogi, Rivaldinho resolveu mudar de país.
“Eu queria uma nova experiência. Surgiu a hipótese da Ponte Preta, mas veio o Boavista, de Portugal. Eu decidi de ir para lá porque tinha sonho de ir a Europa. Mas fiquei cerca de quatro meses porque era muito novo. Eu não tive aquela paciência para me adaptar porque estava muito bem no Brasil. Não digo que me arrependi, mas poderia ter construído outra história se tivesse mais calma. Foi um aprendizado.”
Logo em seguida, o atacante jogou o Paulistão pelo XV de Piracicaba antes de ir ao time B do Internacional.
“Eu achava que estava indo para o time principal, mas o Inter estava liderando o Brasileiro. O elenco era muito grande e me mandaram para jogar pelo sub-23. Teve uma oferta do Espanyol, da Espanha, mas o Inter pediu muito dinheiro na época e não me liberaram. Eu não entendi porque logo veio Paysandu e eles me emprestaram de graça.”
O jogador voltou ao Beira-Rio no fim de 2016, quando a equipe colorada foi rebaixada no Brasileiro, mas não foi aproveitado.
“Na minha cabeça, achei que poderia ter tido alguma oportunidade, porque terminei o ano jogando e achei que ficaria no elenco para a Série B. Mas chegou o Antônio Carlos, que tinha os jogadores dele. Eu achei estranho, mas são coisas do futebol.”
Feliz na Romênia
O brasileiro recebeu uma ligação de Adrian Mutu (ex-atacante de Chelsea e Juventus), que era o dirigente do Dinamo Bucaresti, da Romênia, e o convidou para jogar na equipe. Após relutar um pouco, ele aceitou.
“No começo, fiquei um pouco de medo porque não conhecia nada. Você ouve e lê muitas coisas que te assustam. O Mutu disse que me conhecia e gostava muito de mim. Foi uma escolha acertada porque gostei muito do país.”
Rivaldinho ficou um ano na equipe antes de se mudar.
“Eu joguei bem e fizemos os playoffs da Europa League, fiz até um gol, mas fomos eliminados. O problema é que o Mutu e o treinador saíram do clube, que não foi o mesmo depois disso. O presidente avisou que não ia investir e estava atrasando os salários. Eu recebi uma oferta do Levski Sofia, da Bulgária, mas eu não queria ir porque gostava muito do Dínamo e estava feliz na cidade. Meu filho tinha acabado de nascer, mas o Levski insistiu, e eu aceitei.”
“Eu estava me recuperando de uma contusão, mas só consegui voltar a jogar depois de quatro meses. Futebol não tem tanta paciência. Depois, trocou a presidência e a nova diretoria não queria contar comigo.”
O atacante mudou-se para o Viitorul Constanta, da Romênia, time no qual Gheorghe Hagi, maior jogador da história do país e antigo astro de Real Madrid e Barcelona, é o treinador e dono.
“Ele é o Pelé da Romênia e vive o futebol 24 horas por dia. É um cara que tem me ajudado muito porque aprendo demais. Além disso, ele ama o jeito que os brasileiros jogam”.
Pelo Viitorul Constanta, ele formou uma dupla ao lado de Ianis Hagi, filho de Gheorghe Hagi, e faturou a Copa da Romênia na última temporada.
“Quando a gente foi campeão, o [Gheorghe] Hagi colocou a música do Gusttavo Lima no vestiário para comemorar. Ele chamava eu e outros brasileiros para dançar e cantar o ‘Tchê Tchê Rere’. Algumas músicas do Brasil tocam aqui, mas não imagino de onde ele conhece! Toda vez que ganhamos um jogo ele coloca essa para comemorar.”
De tão bem adaptado à Romênia, Rivaldinho tem um filho nascido no país e aprendeu o idioma local. Com isso, ele passou a falar cinco línguas: português, inglês, espanhol e italiano (além do romeno).
Atualmente, Rivaldinho tem quatro gols em seis partidas na temporada.
